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A minha fotografia
Fernando Freire
ATALAIA, Vila Nova da Barquinha, Portugal
Vivendo nesta terra há 20 anos vou perguntar à história e à tradição qual a origem desta localidade. Desejo saber quem neste atractivo sítio erigiu a primeira construção, quais as obras que foram nascendo, a sua idade e as mãos que as edificaram, quais os seus homens ilustres e os seus descendentes, quem construiu as estradas, os caminhos, as pontes e as fontes. Quão agradável será descobrir em cada pedra os nossos antepassados levantando com palavras o sonho do nosso futuro. Atalaia, 18-11-2007.
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Cultura, Património e Bem-estar - FOTOGRAFIAS (ver galeria flickr)

8.11.09

CAMINHADA ECOLÓGICA NA ATALAIA


O que denominamos altivamente de CIVILIZAÇÃO nada é mais do que uma real agressão às coisas naturais. Essa tal civilização significa a devastação da nossa floresta, a poluição das nossas ribeiras, a contaminação dos solos e a deterioração da qualidade do ar. Sabemos que os seres humanos vêm promovendo uma verdadeira batalha contra a natureza.
Imbuídos deste remar contra a maré, no pretérito dia 31-10-2009, fizemos uma caminhada ecológica na Vila da Atalaia.
A Eng.ª Alexandra, portadora do saber ambiental, proporcionou ao grupo um atmosfera cordial e de aprendizagem na inter-relação das pessoas com o meio ambiente.
Analisámos árvores, pássaros, insectos, borboletas, plantas, cogumelos, etc.
Este tipo de inter-relação despertou nos participantes uma enorme curiosidade. Conselho puxa conselho e palavra atrai responsabilização, tanto a nível individual como a nível colectivo, responsabilização de preservação do habitat da fauna e da flora ali bem presente. As crianças estavam a aprender a viver em harmonia com todos os seres que íamos visitando e encantando.
Conscientes de que as crianças de hoje irão influenciar futuramente o equilíbrio ambiental, procurámos transmitir valores ambientais assim como sensibilizámos os mais pequenos para uma educação ambiental e um despertar de sentimentos ecológicos, no fundo: aprender a gostar para cuidar.
Por último, demos a conhecer a vista magnânime do Picoto, visitando (via binóculos) o Castelo de Ourém e o Rio Tejo no seu esplendor.
Consabido que as crianças são um auditório privilegiado das mensagens ambientais, não só de palavras mas também de atitudes, e que elas são os futuros gestores do planeta aconselhámos a cuidar daquilo de que todos gostamos, daquilo que para nós tem algum valor e importância, amar a natureza.
Julgamos que nesta jornada todos aprendemos.

17.9.09

TANCOS 1916 - CORPO EXPEDICIONÁRIO PORTUGUÊS (CPE)

Até 1916 Portugal tinha-se mantido um país neutro na I Guerra Mundial.

Na sequência do apresamento de 70 navios mercantes alemãs que se tinham refugiado no Rio Tejo para fugir à esquadra inglesa deixou Portugal de ser um país neutro para entrar em guerra. A Inglaterra precisava de tais navios e pediu-nos que os aprisionássemos para serem colocados ao seu serviço. Este facto originou que a Alemanha nos viesse a declarar a guerra, acontecimento amplamente desejado pelo Partido Democrático Português que defendia a nossa participação e alinhamento no bélico contexto europeu.

Logo, importava preparar as nossas tropas para esta nova situação. Com a publicação da Ordem do Exército n.º 4, de 25 de Março de 1916, projectasse a criação de um corpo expedicionário para a Europa.

O Ministro da Guerra Norton de Matos faz concentrar a preparação da força no concelho de Vila Nova da Barquinha. Tal, cria-se em Tancos a “divisão de instrução”, obra preferida do então Ministro. Um grupo activo de oficiais, embora reduzido, é encarregado de tal tarefa, foram os designados “jovens turcos”. Serão os políticos do pós guerra. Entre eles estão: Jaime Cortesão, Álvaro de Castro, Ribeiro de Carvalho, Cunha Leal, Sá Cardoso, Álvaro Pope, Fernando Freiria, Hélder Ribeiro, etc.

Norton de Matos e estes oficiais conseguem em tempo reduzido dar treino básico de combate a um corpo expedicionário. Deste CPE fazem parte 2 divisões com 55000 mil homens que marcham para França no início de 1917 e ali se mantiveram até ao Armistício de Novembro de 1917.

A formação do CEP foi um grande esforço de mobilização de cidadãos portugueses tendo havido, por parte de algumas correntes ideológicas, forte oposição à sua participação.

Segundo testemunho de António Vital participaram na 1.ª guerra 2 Atalaienses: Constantino Bento e Joaquim Lamoroso. Curioso é que estes militares logo que entraram no campo de batalha foram feitos prisioneiros. Sérgio Duarte refere que o Constantino, trabalhador do Dr. Estáquio Picciochi, veio a ser "gaseado" na I Guerra Mundial.

Recorda-se que existe, em Vila Nova da Barquinha, um monumento em homenagem aos mortos deste conflito. Referência nacional é António Gonçalves Curado, militar mobilizado pelo RI 28, da Figueira da Foz, natural de V.N. Barquinha e que embarcou para França em 22 de Fevereiro de 1917. Foi o primeiro militar português do CEP a morrer em combate !

Nas fotografias acima podemos ver o aprontamento das forças no campo de Tancos e a passagem da Cavalaria pela ponte das barcas (Tancos - Arripiado). Nesta fotografia (clicar na mesma para ampliar) é ainda visível a Igreja Matriz de Tancos e a Igreja da Misericórdia.


Fontes: Medina, João. História de Portugal “ Dos tempos pré-históricos aos nossos dias”, Vol. XV, artigo de António Telo “ A República e as Forças Armadas”.

Fotografias do Arquivo Municipal de Lisboa

11.9.09

Professora D. Maria Salete Albuquerque - 1898-1954

A professora D. Maria Salete Albuquerque nasceu em 5 de Outubro de 1898, na freguesia da Aldeia de João Pires, concelho de Penamacor. Era filha de José de Albuquerque e de Matilde Albuquerque.
Faleceu em 7 de Dezembro de 1954.
Esta mulher beirã, bem rija e morena, exerceu a missão de professora do ensino primário na Escola Primária da da Atalaia, durante um período temporal de 22 anos, entre 1932 e 1954, no edifício da actual Junta da Freguesia e antecedente Paços de Concelho.
Pelas suas mãos passaram muitos jovens atalaienses, quer do sexo masculino quer do sexo feminino.
Reconhecida por todos aqueles que com ela conviveram como alguém que ia para muito além das funções de professora tornou-se, para os seus ex-alunos (as) , uma eterna amiga e guia. O seu exemplo de dedicação incansável, de doação, de dignidade pessoal, de amizade ao próximo tornou-a inesquecível. Foi sem dúvida, no dizer dos seus alunos, uma das personalidades notáveis que passaram pela nossa terra.
Por isso não surpreendeu que estes, num gesto de eterno afecto, propusessem à Junta de Freguesia e à Assembleia de Freguesia a colocação do seu nome para o Jardim das Olarias.
O pedido foi aceite pelos órgãos autárquicos que deliberaram, em 3-9-2009, e por unanimidade, dar o seu nome a tal espaço.
Na sequência desta deliberação será, brevemente, realizada na Sociedade Instrutiva e Recreativa da Atalaia uma festa de homenagem que contará com a presença dos seus descendentes.

Post-scriptum. Seja-me permitido um louvor à minha professora primária D. Norlinda, também beirã de berço, que à força de perguntar, instar, dedicar e amar, me ensinou, a seu modo, o caminho da vida.


12.8.09

Leia em tempo de férias e, de preferência, a obra “A Princesa do Corgo", de Emílio Miranda, escritor residente em V. Nova da Barquinha


Do tempo de férias intermitentes que estou a usufruir aproveito para, após uns belos banhos, colocar em dia a leitura que por dever de ofício olvidei.

1. A Princesa do Corgo, Emílio Miranda, Ed. Planeta Editora, 1.ª Edição, 2009.
Compulsando a estante do supermercado Modelo vejo este livro recomendado. Perspicaz como sempre a minha prima Lina dá-me conhecimento que o autor é militar e vive em Vila Nova da Barquinha. Interesse redobrado e ... aquisição imediata.
Romance histórico deslumbrante onde o autor, num misto de ficção e realidade, nos mostra a dura vivência da época do reinado de D. Dinis.
Nas personagens de Simão da Cruz, foragido da lei por homicídio de Fidalgo, que se recrimina a miudamente e que foge a sete pés da área de jurisdição do senhor feudal, até Maria da Conceição que acompanhada do seu pai José e 2 irmãos, também foragido por furto de arado e crime de deserção da terra e do senhor onde forneciam a sua mão de obra como servos, todos vão para outras terras em busca de uma vida melhor, quais emigrantes dos nossos tempos. Passando pelas figuras de Manuel Mestre-de-obras, Zacarias, Adosinda, Bruxa do Corgo e Robalo (o tolo que de tolo não tinha nada), esta obra faz-nos recuar aos tempos primórdios da nacionalidade, das desigualdades vigentes nas classes sociais, dos critérios de justiça reinantes à época, da luta pela posse das terras, da discrepância entre sentimentos e atitudes dos homens e mulheres de antanho, muitas vezes de singular solidariedade e humanidade, dos seus usos e costumes e dá-nos a imagem da criação de uma cidade nos tempos de El-Rei D. Dinis.
Uma obra, de escritor residente no nosso concelho, que aconselho vivamente a ler.
Já agora esteja atento, em breve será publicado o seu próximo romance: “Teppô-Ki – O Livro dos Mosquetes”.

2. A escriba, António Garrido, Porto Editora, 1.ª edição, Janeiro de 2009.
Os factos descritos na escrita de António Garrido, escritor espanhol, ocorrem no ano de 799 d.c. É uma narrativa encantadora que nos transporta para a vivência das gentes no centro da Europa na Idade Média no tempo em que reinava Carlos Magno. Investigação dedicada com a busca de rigorosas fontes permite-nos conhecer a feitura dos pergaminhos da época, os ofícios das populações Alta Francónia / Alemanha, a vida das suas cidades e estrutura da sociedade. Saboreei a vida das personagens e os inesperados acontecimentos da história. Desde Theresa, que segue o oficio do pai Gorgias, a Alcuino de York, o frade protegido do Imperador, até à generosidade da mulher que pratica a profissão mais velha do mundo. A simbiose entre o rigor das fontes históricas e a prosa oscilante torna este romance, baseado em factos reais, numa obra inesquecível e convida o leitor a retroceder no tempo e a visitar as cidades, as abadias, os mercados e a conhecer os usos e costumes da época.

3. A Viagem do Elefante, de José Saramago, Editorial Caminho, 2008.
Aquando das primeiras leituras deste escritor, mormente "Evangelho Segundo Jesus Cristo", não me senti atraído com o seu verbo e fazia-me confusão a falta de pontuação. Todavia, devido à perseverança do meu amigo Augusto Santos, que todos os anos me oferta com obras assinadas pelo escritor, sou agora um assíduo leitor do Nobel da Literatura.
É impressionante como de um singelo facto - a oferta do rei D. João III ao arquiduque Maximiliano II da Áustria de um elefante indiano, na viagem da entrega de tão precioso animal, quase racional, e no percurso entre Lisboa e Figueira de Castelo Rodrigo, entrando por terras de Espanha até Viena - o escritor brinca com a realidade e a ficção, mistura ironia com sarcasmo, mostra o nu da condição humana sempre com uma primorosa imaginação. Disse Saramago: “O que me fez escrever o livro não foi saber que um elefante foi a Viena, mas sim o facto de depois de morrer, lhe terem cortado as patas para fazer delas um bengaleiro. Achei que era indecente, o elefante merecia outro respeito”.Pois, digo eu, ninguém foge ao seu destino.

4. Máscaras de Salazar, de Fernando Dacosta, Ed. Casas das Letras, 24.ª edição, 2007
Livro que analisa a pessoa e a vida de António de Oliveira Salazar personagem que governou o nosso país durante 42 anos.
A crónica pessoal desta figura faz-se a partir da recolha de testemunhos, confidências e segredos de vários protagonistas (defensores e opositores do regime) uns que viveram junto de Salazar, outros que tiveram contactos directos com a estrutura e funcionamento desse mesmo regime. A leitura desta obra permite-nos conhecer muito da nossa história contemporânea desde as obras realizadas, a sustentação do regime, as tradições e as personagens mais intervenientes na Nação e na cidade de Lisboa.
Amado por uns odiado por outros é essencial, nas palavras de Eduardo Lourenço “ conhecer a alma que o seu regime nos deu e nos tirou”.
Do livro retirei a seguinte máxima:
Quando desancado pela crítica: não responda. Não há nada que valha a dignidade do silêncio. Quanto mais você subir, mais detestado, mais insultado será. Eduque o seu espírito na lição da serenidade, que tudo vence, da generosidade que tudo perdoa.”

Boas leituras.

18.7.09

1951 – A EXTINÇÃO DOS CANDEEIROS A PETRÓLEO NA ATALAIA * 1884 - A PRIMEIRA CENTRAL HIDRO-ELÉCTRICA PORTUGUESA EM TOMAR


Existem muitas dúvidas quanto à data precisa da chegada da luz eléctrica a Portugal. Há quem a situe em 28 de Setembro de 1878 quando a Câmara de Paris cedeu à Corte meia dúzia de candeeiros de arco voltaico (sistema Jablochkov).
Certo é que, passados 3 anos, na exposição internacional de Paris de 1881, milhares de lâmpadas acenderam de uma só vez, no parque de exposições, e o público ficou deslumbrado com as "estrelas" ou "luminárias de Edison". A partir deste grandioso evento a iluminação eléctrica entra nos objectivos políticos das Nações e dos Estados europeus.
Em Portugal, no ano de 1884, na cidade de Tomar, verificou-se um incêndio na Fábrica de Tecidos. A mesma ficou em ruínas mas, em curto espaço de tempo, seria reedificada “ agora com a electricidade proveniente de uma pequena central estabelecida no Nabão, provavelmente a primeira central hidro-eléctrica portuguesa, se é que Emílio Biel não aproveitou, no seu início, a pequena queda de água que existia no local dos seus primeiros trabalhos” (1)
Na Atalaia só em 1951, segundo prova testemunhal, a luz eléctrica chega à nossa terra.
É neste ano que é criado o Repartidor Nacional de Cargas organismo já previsto na última parte da base X da Lei n.º 2002, de 26 de Dezembro de 1944, criado pelo Decreto n.º 38186, de 28 de Fevereiro de 1951. Veio este organismo responder à premente necessidade de assegurar a coordenação da exploração da então nascente rede eléctrica primária. Entraram, nesta data, em exploração as primeiras centrais dos sistemas Zêzere (Castelo do Bode) e do Cávado-Rabagão (Vila Nova), e, com elas, também a primeira instalação da rede de 150 kV, que asseguraram não só o início do abastecimento das principais redes de distribuição, a partir da energia dessas centrais, mas ainda a sua interligação.
Portanto, em 1951, na Atalaia, são sentenciados ao desaparecimento os belos lampiões a petróleo que eram alimentados por mão humana, através de escada, um a um, no final do dia, sendo o depósito de combustível na antiga prisão do concelho, actual sede da Junta de Freguesia. O último atalaiense encarregado da nobre tarefa de acender e apagar os lampiões era Francisco Valente, já falecido. À noite e ao amanhecer era o acendedor e apagador de lampiões da nossa terra.
Para memória futura ainda hoje é possível ver o último exemplar, na figura ao lado, na bela casa do Dr. Estáquio Picciochi.

(1) Sousa, Francisco de Almeida, Subsídios para a História da electrificação portuguesa.

11.7.09

1853 – Praça de Touros de V.N.Barquinha, a segunda mais antiga de Portugal


Construída no Século XIX, em 1853, a Praça de Touros de Vila Nova da Barquinha é a segunda praça mais antiga de Portugal.
A primeira situa-se em Abiul, concelho de Pombal.
Sendo o autor da terra do granito, bem rijo e moreno, como sói dizer a canção Beirã, em dia de festa de Touros no Ribatejo, mais precisamente na Barquinha, é rito obrigatório, qual romaria na minha querida Beira-Beixa, acompanhar as ribatejanas cá de casa e convidadas à tourada.
Apesar de não viver tão intensamente o espectáculo taurino, como elas sentem, tenho um enorme prazer de apreciar toda a envolvência do espectáculo, a força do touro, a arte dos actores, a arquitectura da praça, as suas cores e formas e, essencialmente, a vida de um povo e uma cultura que sente a festa brava.
Festa que começa a preparar-se em casa com o arranjo das flores que serão, em tempo oportuno, presenteadas aos bravos cavaleiros e forcados.
Parafraseando a minha sogra e esposa: o espectáculo foi excelente, os cavaleiros e forcados tinham valor. O meu vizinho Simões dizia que os touros deviam ter mais peso, e argumentava com o seu contraditório.
Bem, nestas coisas e andanças da festa brava sou leigo, e, obviamente, remeto-me ao silêncio por dever de cuidado. Todavia, apreciei a calorosa discussão que se verificou até casa.
Por último quero deixar aqui um encómio à banda dos Bombeiros Voluntários da Barquinha que acompanhou o espectáculo, sob a batuta de António Augusto Lopes, esteve impecável como sempre !

3.7.09

Foi há 51 anos a electrificação da Linha de caminhos-de-ferro entre Lisboa-Entroncamento


Em 3 de Julho de 1958 publicava o Diário de Notícias, em primeira página, que a electrificação da linha férrea Lisboa-Entroncamento fora ontem inaugurada.
Era a primeira etapa da electrificação da linha férrea Lisboa - Porto.
A obra constava do primeiro Plano de Fomento. Fora orçamentada em 600 mil contos.
Um comboio especial saiu de Santa Apolónia com 200 convidados e passada 1 hora e 16 minutos chegou ao Entroncamento.
Apesar da chuva, que era intensa nesse dia, a população saiu às ruas e saudou a chegada da locomotiva eléctrica com bandas de música e foguetes. Os silvos das máquinas a vapor, que se encontravam na Estação, fizeram-se ouvir para grande contentamento dos escuteiros e de cerca de 3000 ferroviários presentes ao grande acontecimento.
O jornalista refere que o comboio chegou à velocidade de 90 Km/hora em determinados troços da via-férrea.
À data, as entidades oficiais relevaram as enormes vantagens para a economia nacional da introdução da electricidade na via-férrea. Haveria poupança significativa para o erário público pela substituição da energia eléctrica pelo vapor, factor primordial para o equilíbrio das contas da Companhia que era, também já à data, deficitária. Beneficio, em termos económicos, com a diminuição da importação de carvão de países estrangeiros. Por parte da Companhia houve a promessa de melhores serviços e de condições de trabalho para os seus trabalhadores.
Singular é que, hoje em dia, em consequência das alterações introduzidas nos horários pela CP, em 2007, em vez de redução progressiva dos tempos de deslocação entre Lisboa e o Entroncamento, consequência lógica da intervenção de melhoramentos na via da linha do Norte, passou a haver um aumento dos tempos de percurso superior ao praticado há 51 anos, 1 hora e 16 minutos ! Ou seja, actualmente, o comboio inter-regional demora 1 hora e 22 minutos. Um paradoxo, embora tal facto possa explicar o atraso recorrente desta Nação.

27.6.09

Rio Tejo, uma causa ...



“ O ambiente …
São os rios, são as árvores
São as aves a cantar
São os animais bravios
São os peixes a nadar
Tu mesmo és ambiente
Defende-o, pois, na verdade
Assim, defendes-te a ti

E salvas a humanidade.”

O que chamamos orgulhosamente de civilização nada é mais do que uma verdadeira agressão às coisas naturais. A grosso modo a tal civilização significa a devastação das florestas, a poluição dos rios, o envenenamento das terras e a deterioração da qualidade do ar.
O que chamamos de progresso não passa de uma degradação deliberada e sistemática que o homem vem promovendo há muito, uma autêntica batalha contra a natureza !
O homem tem vindo a exercer grande parte da sua influência no meio, através da tecnologia, procedendo constantemente a reestruturações e modificações profundas de que a realização dos transvazes do rio Tejo é o último exemplo.
Deaubois (1974) afirma que para haver um real empenhamento das populações, para salvar o ambiente, é imprescindível que exista uma informação clara dos problemas a resolver, assim como das soluções a aplicar.
A informação e a envolvência social face à modificação ambiental sobre o rio Tejo está a ser-nos prestada por blogue amigo, “Cá por causas”, http://caporcausas.blogspot.com/, que disserta sobre os problemas do nosso rio elevando a consciência ambiental com a máxima “Cidadão do Tejo, Cidadão do Mundo.” Já Edmon Maire (1979) referia que a maior urgência não está em determinar tão somente os índices de poluição, mas prioritariamente em mobilizar os cidadãos. É isso que o “Cá por causas” está a fazer, e bem !
Recorda-se que a protecção do meio ambiente, em Portugal, encontra-se consagrada na Constituição no seu art.º 9.º que estatui ser tarefa fundamental do Estado “defender a natureza e o ambiente e preservar os recursos naturais”, e no seu artigo 66º, determina que: “todos têm direito a um ambiente de vida humano e sadio e ecologicamente e o dever de o defender”, e, inclusive, no seu artigo 52º confere: “ … a todos, pessoalmente ou através de associações de defesa dos interesses em causa, o direito de acção popular nos casos e termos previstos na lei, nomeadamente o direito de promover a prevenção, a cessação ou a perseguição judicial das infracções contra a saúde pública, a degradação do ambiente e da qualidade de vida”.
O interesse na protecção, conservação e gestão do rio Tejo, com um caudal sustentável, encontra-se na necessidade de assegurar a conservação dos valores naturais, de garantir condições de reprodução para espécies muito susceptíveis bem como manter os habitats naturais da fauna e flora selvagens.
A informação é um factor primordial. Mas não basta!
A sensibilização e participação da sociedade civil, o seu envolvimento, quer através de actividades lúdicas quer de recreio e lazer, quer do direito de manifestação é essencial para a formação ecológica e para a melhoria da nossa qualidade de vida.
Nas nossas terras ribeirinhas, banhadas pelo rio Nabão, Zêzere e Tejo, onde se poderá apostar no turismo de natureza, devemos promover a educação ambiental, fazer uma divulgação e conhecimento dos valores naturais e sócio-culturais dos nossos rios, contribuindo, assim, para o seu reconhecimento e sensibilizar as populações para a imperiosa necessidade da sua protecção.
É, também, necessário chamar a esta luta o poder político. A solução para estas grandes questões, como os transvazes do Rio Tejo, só será exequível com unicidade e na concertação das vontades das populações e das autoridades (portuguesas e espanholas) tendo por único objectivo um pilar comum: a conservação e a gestão dos valores naturais e não os interesses nacionais.
Se nos frustrarmos na transmissão desta mensagem, de socorro aos nossos rios, seja aos alunos, aos pais e aos cidadãos de hoje, arriscamo-nos a comprometer o direito fundamental das nossas crianças, e dos cidadãos, a um meio ambiente saudável e promotor de vida.

Fotografias: Marina Honório e autor


14.6.09

O CASTELO DA ATALAIA - castro lusitano - torre de menagem (artigo publicado em 1946)


Recomeço pois este novel artigo com outro alento. No último sobre o Castelo da Atalaia (?) disse: “É muito bom saber que há quem, doutamente, como Ludovico Menezes, coloque esta hipótese histórica. O facto é que este assunto está no limbo, como muitos outros da nossa terra…”
Não há dúvida que a vida nos oferece deliciosas surpresas.
Mão amiga fez-me chegar fonte histórica sobre este assunto.
O limbo, estado de indecisão ou incerteza que existia na minha alma, sobre este facto de monumental importância histórica para a Vila da Atalaia deu um passo atrás e a minha convicção sobre a existência real do Castelo da Atalaia deu um passo adiante.
O bom senso leva-me a acreditar nas fontes e a conservar a esperança que, no futuro próximo, se façam investigações arqueológicas no local que determinem a fidelidade das palavras deste autor, essencialmente, nos “vestígios ainda existentes” à data da publicação do artigo. O povo da Atalaia merece-o, os vindouros agradecem.
Como diria Albert Einstein “o importante é não deixar de fazer perguntas”. Digo eu, os Atalaienses gostariam de ter respostas sobre assunto tão relevante e dignificante.
Tal, passo a transcrever, na íntegra, o artigo do General João de Almeida, publicado em 1946:
“No cimo do monte denominado Atalaia, que se levanta a nordeste da antiga Vila da Atalaia, situada a 3 km noroeste da margem direita do Tejo, na vila da Barquinha, existem ainda os vestígios de uma antiga fortaleza.
Dada a sua natureza e situação e o valor militar da posição, e tendo-se em atenção os enormes vestígios ainda existentes, em especial da dominação romana, em toda esta região, é de presumir que na origem tivesse consistido num castro lusitano, do começo da época dos metais. Os Romanos teriam tomada a fortaleza lusitana no ano 100 a.c., restaurando-a e remodelando-a segundo a sua técnica castrense e fazendo dela uma forte base militar da sua ocupação e importante centro administrativo.
Ignora-se a sua história, sendo que de crer que tivesse sido ocupada por Alanos, Visigodos e Muçulmanos, e sabendo-se ao certo que em 1129 estava já em poder dos Portugueses. Tornando anos depois a cair em poder dos Mouros, foi reconquistado em 1147, por D. Afonso Henriques, que mandou reedificar o castelo medieval. Reconquistado de novo pelos Mouros estes teriam arrasado e abandonado a fortaleza, que ficou completamente despovoada, até que D. Afonso II mandou reedificar o castelo e lhe concedeu foral em 1212, com muitos privilégios para os moradores a fim de mais facilmente ser povoada.
Parece que, sendo de novo destruída pelos Mouros, D. Dinis a mandou repovoar e reedificar a fortaleza, construindo-lhe a torre de menagem, e dando novo foral à povoação em 1315.
Hoje está totalmente destruída e o monte coberto de mato e arvoredo, mal se pressentindo que ali tivera um forte castelo medieval.

Agradecimento ao preclaro militar José Manuel d'Oliveira Vieira, http://coisasdeabrantes.blogspot.com/, que me facultou o presente artigo, o meu eterno bem-haja.
Bibliografia: General João de Almeida, "ROTEIRO DOS MONUMENTOS MILITARES PORTUGUESES - volume II", Edição do Autor, 1946

12.6.09

11-06-2009, O concretizar de um sonho (1.ª Pedra da Creche e Centro de Dia)


Intervenção do P.e José Manuel Laranjeira Madeira no lançamento da 1.ª pedra da Creche e Centro de Dia e Apoio domiciliário (auto ao lado - clicar para ampliar).

Morreu em 1970 e chamava-se Almada Negreiros. Um dia escreveu:- “Um povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos.”
E concluiu:- “Coragem, portugueses! Só vos faltam as qualidades!”
Tenho orgulho – que é um dos muitos defeitos – de ser padre numa terra de gente tão teimosa – outro defeito.
Mas o meu orgulho é hoje uma honra, porque a vossa teimosia tornou-se persistência.
Tenho pois o orgulho e a honra de estar presente no dia em que brota a semente da vossa persistente teimosia.
1. Explico-me:
Hoje é o culminar de um percurso de três décadas – trinta anos – uma geração!
Nos anos oitenta germinou a ideia de uma estrutura de apoio à terceira idade. O pároco meu antecessor e a comissão paroquial de então procurou dar-lhe corpo. Conseguiu um terreno e um ante projecto, mas não foi possível reunir os apoios necessários e a ideia ficou na gaveta.
Mas conseguiu o mais difícil, que a ideia entranhasse, tornando-se um sonho colectivo. E os sonhos colectivos não morrem.
Nos anos noventa é criada a ADESFA – Associação para o Desenvolvimento Social da Freguesia de Atalaia – tendo como principal objectivo criar condições para transformar o sonho em obra. Consegue também a afectação de um terreno, este que agora pisamos, mas emperra na carência de personalidade jurídica para dar corpo ao sonho.
É esta Associação que um dia me vem desafiar e à Comissão da Fábrica da Igreja Paroquial a darmos as mãos para a constituição de uma Instituição Particular de Solidariedade Social.
Foi a viragem do século, entravamos na terceira década de teimosa persistência.
Criado o Centro Social Paroquial de Atalaia, por Decreto do Senhor Bispo de Santarém, D. Manuel Pelino Domingues, em 25 de Novembro de 2001, esperámos dois anos pelo seu reconhecimento e registo pelo Estado Português como Instituição Particular de Solidariedade Social.
Conseguido o requisito legal, demos início à actividade com uma Valência de ATL, a funcionar da Escola do 1º Ciclo do Ensino Básico e para a qual conseguimos acordo de cooperação com o Centro Distrital Santarém da Segurança Social no ano seguinte.
Paralelamente, com o apoio da autarquia, começámos a trabalhar num projecto para este espaço, após a ADESFA, ter cedido ao Centro Social os seus direitos sobre os quase 2000 mil quadrados, propriedade da Câmara Municipal e afectados aquela Associação para equipamento social. Hoje toda esta área delimitada é propriedade do Centro Social, por doação da Câmara Municipal da sua parte, e doação do Senhor Júlio Luís da Silva da parte restante de um total de dois mil duzentos e noventa e seis metros quadrados (2.296 m2).
A ideia base foi sempre o velho sonho de um Centro de Apoio à terceira idade, mas a Segurança Social insistiu para que juntássemos uma estrutura de apoio á infância, pelo que um primeiro projecto foi um Centro de Dia e ATL, a posteriori revertido em Creche.
É pois já um segundo projecto, de Creche e Centro de Dia com Apoio Domiciliário, cujo inicio da concretização estamos aqui hoje a celebrar – também depois de uma segunda candidatura ao PARES – Programa criado pelo actual governo para Alargamento da Rede de Equipamentos Sociais.
São muitos os pais e mães da criança! Como referi, é toda uma geração, ao longo de trinta anos.
Que todos os homens e mulheres de boa vontade que alimentaram este sonho e contribuíram para chegarmos a este momento, se tenham sentido recompensados dos seus trabalhos e tenho gozado a alegria do parto, quando, a seguir á cerimónia de Bênção, Sua Excelência, o Senhor Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social, Doutor José António Vieira da Silva, cortou o cordão umbilical á criança, isto é, descerrou a placa comemorativa do início da Obra.
Estava debaixo da bandeira do povo português, que “reúne todos os defeitos”, como escreveu Almada Negreiros, mas que tem uma Alma Grande – grande de oito séculos - e que quando sonha e dá as mãos é capaz de abraçar o mundo inteiro.
2. O Custo Total da Obra, como podem ver na placa junto a este portão, é de quase 700 Mil Euros, incluindo a Infra-Estrutura, os projectos técnicos e a Fiscalização – preço real já contratualizado, mais o valor estimado para equipamento móvel.
O Financiamento é praticamente 50 – 50 entre o Estado e o Centro Social Paroquial. Mesmo com o apoio autárquico, o dinheiro que realizámos com o loteamento do terreno da paróquia que fora adquirido nos anos oitenta para este velho sonho e pago por um paroquiano, Senhor Alberto João Coelho, já falecido, mais a disponibilidade financeira da paróquia, faltavam-nos dos nossos 50% mais de 100 mil euros.
Como, apesar de termos tido que fazer dois concursos, foi possível consignar a obra até ao fim do mês de Abril, ganhamos direito a mais 30 mil euros do Estado.
Então telefonámos a alguns amigos e garantimos apoios de cerca de 20 mil euros.
Mas faltam ainda mais de 50 mil Euros, sem contarmos com trabalhos a mais e o fundo de maneio necessário para iniciar a actividade das valências respectivas, porque fazer uma obra para criar teias de aranha não fale a pena.
Chegou a altura de pedir ‘a ajuda do público’.
Por favor, assim que tiverem oportunidade, ajudem a comer esse porco todo que é oferta, e, se tiverem bons fígados reguem-no bem, comprando vinho e cerveja até acabar e rematem com umas filhoses e um caldo verde para a sossega.
Entretanto podem contribuir comprando um souvenir, um pequeno tijolo comemorativo deste dia. O preço base é três euros, mas quem não os tiver pode dar cinco ou mais.
Muita gente fez pré inscrição na Liga de amigos. Não quisemos receber cotas enquanto o projecto não saísse do papel. Agora a Obra é real e irreversível, por isso é altura de oficializarem a vossa inscrição. Podem fazê-lo já hoje na barraca ali do canto, bem como esclarecer quaisquer dúvidas.
A Lei do Mecenato dá benefícios fiscais até 130 % no IRS ou IRC sobre donativos sem contrapartidas para Instituições de Solidariedade Social com é o nosso Centro Social Paroquial. Antes de terminar o ano civil, façam uma simulação das vossas declarações de rendimentos e comprovem que por cada 100 Euros doados, ganham 30 euros, ou 15 por 50, ou 60 por 200 e assim sucessivamente. É bom para o doador e para a conclusão desta obra. São os muitos poucos que podem fazer muito.
Conclusão. Senhor Ministro, Doutor José António Vieira da Silva, a demonstração de carinho por esta obra que a sua presença para nós significa, compensa-nos os trabalhos dobrados e fortalece a nossa determinação. Na sua pessoa agradeço a todas as entidades que hoje nos visitam.
Olhai que esta é uma boa terra para fixar residência, uma terra de sorrisos e de sonhos e de obra feita e a fazer-se.
Senhor Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha, Dr. Miguel Pombeiro, eu sei que ando sempre a pedir-lhe coisas, é só mais uma, por favor venha tomar a palavra antes que eu atropele mais o protocolo e faça convenientemente as honras desta casa que tem muito de seu.
Bem Hajam.
obs. Na galeria de fernandomsfreire (flickr), todas as imagens deste acontecimento.

10.6.09

Medalha municipal de mérito grau prata – desporto para, o árbitro da 1.ª divisão, André Gralha

André Gralha tem 33 anos de idade é natural e residente na Atalaia.
Na época de 2008-2009 foi árbitro dos seguintes jogos:Portugal-Dinamarca (Sub-16), Portugal-República Checa (Sub-16), Portugal-Suiça (Sub-21).
Na Liga Sagres (antiga 1.ª divisão): Rio Ave-Naval, Leixões – Académica, Marítimo-Est. Amadora.
Na Liga Vitalis (antiga 2.ª divisão ou honra): Santa Clara- Varzim, Desp. Aves-Oliveirense, Estoril-Freamunde, Aves-Vizela, Gondomar-Oliveirense, Covilhã-Vizela, Aves-Feirense, Gondomar-Portimonense, Vizela-Oliveirense, Feirense-Estoril.Na taça da Liga: Estoril-Oliveirense e Trofense-U.Leiria.
Na taça de Portugal: Covilhã-Milheirense, Amares-Belenenses, Leixões-Santana, S.Clara-Fiães.
4.º árbitro da supertaça: Sporting-Porto.
4.º árbitro da Liga Sagres (1.ª divisão): Guimarães-Setúbal, Braga-Sporting, Académica-Braga, Nacional-Trofense, Sporting-Guimarães, Sporting-Marítimo, Benfica-Nacional, P.Ferreira –Nacional, Académica-E.Amadora, Guimarães-Trofense, Leixões-Sporting, Guimarães-Belenenses. P. Ferreira-Guimarães, Braga-Trofense, Rio Ave-Braga e P.Ferreira-Trofense.
Cuidou a Assembleia Municipal de Vila Nova da Barquinha, por deliberação de 5-6-2009, atribuir-lhe a medalha municipal de mérito grau prata – desporto, presenteando-o amanhã dia 11-6-2009, pelas 16 horas, com uma justa homenagem.
Também eu tomo a liberdade de lhe fazer o presente elogio. Cidadão que conheço por encontros do caminho da vida, não posso deixar de lhe dizer que sinto uma honra e orgulho em tê-lo por companheiro de jornada. Reconheço o seu mérito, o seu nobre proceder e a sua consumada prudência, factores que contribuíram, decerto, para ser um magnífico árbitro no terreno de jogo e no campo das relações humanas.
Votos sinceros de novos êxitos numa arte que tão bem conhece.

7.6.09

Parabéns Sociedade Instrutiva e Recreativa da Atalaia (SIRA)

Ontem, 6-6-2009, na SIRA (1930-2009), foi dia de casa cheia que fez recordar os bons velhos tempos.
Com o empenho da nova Direcção, que está a apostar na diversidade cultural e teatral, foi possível levar à cena a peça “O Nazareno”. Do seu elenco fazem parte cerca de 80 pessoas (actores, músicos e figurantes) o que em termos logísticos implicou muito trabalho por parte dos participantes e voluntariedade dos directores.
A opereta baseia-se na obra de Frei Hermano da Câmara e retrata alguns aspectos da vida de Jesus Cristo desde o seu nascimento até à sua morte e ressurreição, tal como nos têm sido transmitidos através dos tempos pelas escrituras.
Encontramos na peça duas vertentes (a humana e a religiosa) que tornaram ao longo dos tempos “o Nazareno” numa figura ímpar na história da humanidade. Estas duas vertentes, complementares entre si, destacam-se, por exemplo, no episódio das bodas de Canã, no primeiro acto (a celebração da alegria e da vida familiar onde Jesus transforma a água em vinho) e o aspecto mais intimista, reflexivo e de proximidade de Cristo com os apóstolos, no segundo acto (na celebração da última ceia e o beijo da traição de Judas).
Globalmente, trata-se de um espectáculo abrangente na arte dramática, onde o canto, a música e o teatro estão de mãos dadas.
Brilho para a actuação de Miguel Galhofo, durante todo o espectáculo, no papel de Jesus como solista. Rasgado elogio para os actores (Grupo Cantar Nosso, da Golegã) encenação, músicos (sob a batuta de António Augusto Lopes) e grupo coral (com inclusão do grupo coral de Tancos).
Tudo passa, mas a qualidade das actuações e as encenações, como a agora apresentada, para os crentes e não crentes, ficam na nossa memória e na nossa consciência.
Parabéns homens da SIRA.
Incenso para o Nazareno e louvor para quem trabalhou neste ambicioso projecto.

2.6.09

Dia 11-6-2009, pelas 18h, lançamento da 1.ª Pedra da Creche e Centro de Dia da Atalaia

No próximo dia 11-6-2009, pelas 18 horas, é efectuado o lançamento da 1.ª pedra da Creche e Centro de Dia da Atalaia.
Presidirá à cerimónia Sua Excelência o Ministro do Trabalho e da Segurança Social, Dr. José António Fonseca Vieira da Silva.
O projecto (conforme desenho ao lado) engloba 3 espaços distintos: Centro de Dia, Creche e Serviço de Apoio Domiciliário.
O valor aproximado para o custo da obra é de cerca de 700.000 euros. Tem a mesma comparticipação financeira no âmbito do Programa de Alargamento da Rede de Equipamentos Sociais – PARES II. As entidades públicas financiadoras deste projecto são o Instituto de Segurança Social, o Centro Social Paroquial de Atalaia (CSPA), a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia. Ao abrigo da Lei do Mecenato o CSPA tem como parceiros a CIMPOR e o BPI.
O prazo de execução da obra será de 1 ano pelo que se prevê a sua inauguração em Julho de 2010.
A LIGA DE AMIGOS
Os estatutos do CSPA prevêem a criação de uma Liga de Amigos cujos objectivos serão os de apoiar e colaborar na prossecução das actividades do Centro quer através de trabalho voluntário quer de singela contribuição pecuniária. Portanto, Atalaienses vamos unir esforços para construir uma obra que será de todos! Assim, é fundamental que cada um de nós se inscreva e faça parte da Liga de Amigos. Só uma participação activa fará acabar esta obra, uma riqueza para os presentes e para os vindouros.

24.5.09

1812 - As paisagens de Tomar e de Vila Nova da Barquinha na visão de um viajante.

William Graham era um cidadão irlandês que tinha entrado em Portugal, por Lisboa, em 17 de Novembro de 1812, em plena Guerra Pensinsular (1807 -1814).
Na sua viagem ao longo do rio Tejo, de jusante a montante, passando pela Beira Alta, toda a zona litoral da Figueira da Foz até ao Porto, por Guimarães e Bragança, descreve-nos este escritor os hábitos das populações e das nossas gentes, as paisagens que mais o atraíram, o estado da nossa da agricultura, à data extremamente débil, as condições de vida do nosso povo e o estado das vias de comunicação daquela época.
Por último, importa lembrar que à data do presente relato o país estava empobrecido e em guerra que o devastava há 5 anos.
No dia 8 de Dezembro de 1812, continuámos para a Golegã, a catorze milhas, e no dia 9 para Punhete (Constância), a doze milhas. A estrada para estes lugares era excelente; pas­sámos por vários bosques de oliveiras e a cerca de meio caminho descemos uma grande encosta, onde a espessa folhagem das árvores quase fechava o caminho. Fomos obrigados a subir de novo, e depois de alguma dificuldade escalámos o topo, que era muito escarpado. Tendo andado cerca de uma centena de jardas, chegámos a uma curva da estrada onde a vista era extraordinariamente bela. Dando a volta, atingimos uma pequena ponte (em Tancos) sobre um riacho que corria para o Tejo. À nossa frente estava o Tejo, que se expandia num grande lago. No centro estava uma ilha verde, juncada com as veneráveis ruínas de um palácio mourisco (castelo de Almourol), do qual conseguíamos distinguir as torres que restavam em vários lugares. Estendia-se ao longo de um grande espaço. De um modo geral estávamos todos muito entretidos com o nosso passeio. A estrada torneava o lago até ao lado oposto, cerca de duas milhas, e era tão macia quanto a fina areia podia tomá-la. Por todos os lados aparecia uma diversidade de bosques, despontando aqui e acolá, e, para fechar e dar vida à cena, surgia na parte detrás uma linda aldeia onde quase todos eram pescadores.
Isto oferecia a vista mais formosa que tínhamos visto desde que tínhamos deixado Lisboa
”.
Nesta descrição importa reter a excelente qualidade, no dizer do narrador, da estrada “macia” que atravessava Vila Nova da Barquinha. Por outro lado, a importância do azeite no nosso concelho, que vem de tempos remotos, uma vez que existiam grande número de olivais como expõe o autor. Por último uma referência a uma bela aldeia (Praia do Ribatejo ?) onde grande parte da população se dedicava à pesca.

Dia 15 de Dezembro de 1812 - Seguimos para Tomar, a 12 milhas de distância, subindo e descendo montes quase todo o caminho. A estrada era muito má, de tal maneira que a artilharia não podia subir aos sítios altos.
Como as mulas e os burros são, geralmente, os meios de transporte neste País, as estradas, como se podia esperar, são miseráveis.
A paisagem estava coberta de arvoredo, especialmente abetos, e a estrada era tão intrincada que obrigava a servirmo-nos de guias.
À medida que nos aproximávamos de Tomar, observámos que se tratava de um lugar delicioso, agradavelmente situado numa planície, no sopé de um monte. Não é muito grande, mas as ruas são largas e limpas e as casas bem construídas e conservadas, muitas delas com varandas douradas, como em Lisboa. Existe aqui uma fábrica de tecidos, meias, etc., que, felizmente para os proprietários, os franceses nunca chegaram a danificar, tendo arrecadado uma contribuição a seu favor que chegou à quantia de cinquenta mil coroas novas (dois xelins e seis dinheiros). Esta fábrica está do lado de uma ponte muito antiga que muitos consideram ter sido construída por Aníbal. Existe aqui um excelente mercado; todas as casas são feitas de pedra e com telhados de telha, o que é o modo habitual de construir casas em Portugal. É vulgar usarem-se tijolos na feitura de arcos. Cobrem normalmente a parte exterior das suas casas com cal, mas, em geral, os portais das portas e janelas são de pedra. Nenhuma das ruas é pavimentada, o que toma o andar desagradável.
No cimo do monte, sobre a cidade, existe um convento, notavelmente belo, de prodigiosas dimensões; existe uma única estrada até ele, que serpenteia em torno das rochas. Aquartelámos os nossos homens neste convento e foi-nos garantido pela população local que os Franceses tinham alojado nele 60.000 homens de infantaria, 80 canhões e 9.000 homens de cavalaria, tudo acomodado de uma só vez, incluindo cavalos e bagagem. Entra-se pelo único portão que tem, situado na extremidade Leste. Quando se está no pátio, à volta do qual se encontram os armazéns, os estábulos, etc., podem subir-se escadas em cada um dos quatro cantos do pátio. Devia, contudo, ter referido que à volta do primeiro pátio se forma um claustro, que, nos dias chuvosos, oferece protecção contra a chuva. Ao subir-se as escadas, nos cantos, chega-se a outro pátio, também com a forma de claustro e com elegantes pilares, com laranjeiras e flores no centro, como um pequeno jardim. À volta destes jardins estão os apartamentos ocupados pelos monges, que foram concedidos aos soldados, não apenas neste claustro mas em cerca de outros cinquenta. Em cada andar existe um destes jardins formado pelos quatro cantos.
No topo do edifício existe uma capela, e o apartamento do abade, que ocupa um desses claustros. Todos os monges que não tinham abandonado o convento tinham os seus quartos no topo. Fomos obrigados a colocar uma sentinela numa das passagens, a pedido do abade, a fim de evitar intrusões. Um dos monges conduziu-me por todo o lado. A capela está lindamente pintada, embora os franceses tenham levado os seus melhores quadros. A capela foi construída com uma forma octogonal, tendo em cada face do octógono uma capela pequenina dedicada a um santo. Estava muito bem atapetada e muito confortável. Também vi vários dos apartamentos, nos quais existem portas secretas para fazer passar alguma coisa para dentro ou fora de um quarto sem que a pessoa veja ou seja vista. A capela era apenas para uso dos monges, mas a capela comum, que servia a gente da aldeia, foi convertida num estábulo pelos franceses, exibindo a enorme capacidade da população de lhe dar esse uso. Os apartamentos ocupados pelos monges estavam muito arrumados e limpos, mas o comprimento e a quantidade das galerias surpreendeu-me para lá do imaginável.
Os franceses tinham levado tudo o que valia a pena; mas o que sobrava em muitos lugares podia bem tentar um epicurista a tomar-se monge, a gozar os luxos que ali tinham existido, e certamente ainda existiriam, embora escondidos. Os portugueses tinham, nesta altura, perdido muita coisa, pela vaidade de mostrarem aos franceses as riquezas do seu País. Frequentemente tinham sido roubados dessa riqueza; e aqui poderia eu perguntar, porque é que haveriam de viver tantos à custa da riqueza da terra, com tanta indolência? Alguns dos claustros estendiam-se pelo comprimento de trezentos paces (0,762m) e muitos por duzentos. Havia tantas curvas neste labirinto que, se eu não tivesse sido ajudado por um guia, ter-me-ia perdido.
Tomar é o lugar mais bonito que vi em Portugal.

Do texto supra, sobre Tomar, retiramos que em 1812 a estrada entre Constância e Tomar era péssima. Realce para a higiene e limpeza na cidade de Tomar e as suas belas construções em contraste com outras cidades, como por exemplo: Vila Franca, “onde as casas não tinham vidros nas janelas e estas precisavam de caixilhos”, ou Santarém, “ onde as ruas estavam terrivelmente sujas”. Refira-se a alusão à existência de uma fábrica de lanifícios não destruída pelas invasões francesas. Por último, a menção aos furtos praticados pelos franceses e a descrição do convento de Cristo e dos seus jardins.
Todos estes factos, infra-estruturas, monumentos, paisagens e gentes levaram o autor a afirmar que TOMAR fora o lugar mais bonito que viu em Portugal certamente porque se deixou encantar pela excelência e grandiosidade do seu Convento, dos seus jardins e das suas gentes.

Gravura:
BARRETO, António Correia, 1812-?
Janella da igreja do Convento de Christo em Thomar, do lado do claustro de S. tª Barbara [Visual gráfico / Barreto cop. do nat. ; Pedroso lyth.. - [S.l. : s.n., ca. 186-?]. - 1 gravura : litografia – Biblioteca Nacional.
Bibliografia
- Sousa, Maria Leonor Machado, “A Guerra Peninsular em Portugal, Relatos Britânicos”, Casal de Cambra, Caleidoscópio, 2007. Traveis through Portugal and Spain, during the Peninsular War. By William Graham, Esq. With Engravings. London, Printed for Sir Richard Phillips and Coo Bride Court, Bridge Street, 1820. Pp. 8 - 18. Tradução de Maria do Rosário Lupi B
ello


19.5.09

1910 – Tancos, uma das 1.ªs experiências da aviação em Portugal.

A Força Aérea Portuguesa (FAP) é o ramo mais jovem das Forças Armadas uma vez que se tornou independente em 1 de Julho de 1952.
A instalação de muitas das Unidades militares é anterior a 1952.
A Aviação Militar remonta, no nosso país, há primeira década do século XX. Uma das primeiras experiências realizou-se precisamente em Tancos, no dia 10 de Março de 1910, um voo de aeroplano, acontecimento verificado na carreira de tiro do polígono.
O avião denominado Gomes da Silva II, de 6,75 metros de envergadura, com um peso de 185 quilos e equipado com um motor Anzani de 28 CV, montado em Tancos, deslocando-se para sul, fez várias tentativas falhadas devido às más condições da pista. O avião rolou umas dezenas de metros e veio a acidentar-se num talude ao lado da carreira de tiro e em consequência foi abandonado o projecto.
Davam-se os primeiros passos na aviação.
Depois das desilusões vêm as emoções.
Em 1937, na sequência da reorganização da Aeronáutica Militar, a unidade recebe o 1.º estandarte nacional.
Foi seu primeiro comandante o futuro marechal Craveiro Lopes, que assumiu o comando em 21-8-1938 e no ano seguinte a unidade passou a denominar-se Base Aérea de Tancos – BA3.
Na sequência da extinção das unidades da Amadora e Alverca vieram para a BA3 os aviões Vickeres, Potez, Hawker Hind.
No ano seguinte chegaram os Gladiator à data excelentes aviões de caça e de acrobacia.
Já durante a II Guerra Mundial foram construídos 2 hangares.
Em 1944 chegam os Spitfire e depois vêem os Hurricane.
Em 1953, agora já como ramo autónomo das Forças Armadas, e nos anos seguintes, a unidade é dotada de aviões F-47 Thunderbolt.
Em Setembro de 1957 é instalada em Tancos a Esquadra de Instrução Complementar de Pilotagem de Aviões de Caça, esquadra composta por 15 aviões T-33-A.
Entretanto, na década de 60, chegam os Alouette II e III. Dá-se inicio a guerra do Ultramar. Em consequência deste facto a BA3 perdeu algum labor aéreo mas, em contrapartida, adquire o apogeu da incorporação de militares para a Força Aérea.
Face à guerra é necessário fazer a formação desses homens. Os seus efectivos atingem valores significativos essencialmente da área de serviços o denominado serviço geral (polícia aérea, amanuenses, condutores, bombeiros, clarins, serviço religioso, etc).
Por esta unidade, entre 1960 e 1994, passaram milhares e milhares de cidadãos que cumpriam o serviço militar obrigatório e que deram a conhecer à Nação a nossa região e o nosso concelho.
A Base Aérea nº. 3 detinha a máxima latina “ RES, NOM VERBA”, com o significado "ACÇÃO E NÃO PALAVRAS". Os seus homens, sempre ao serviço à Pátria, mantiveram bem viva esta máxima até à sua extinção facto que ocorreu em consequência a publicação do Decreto-Lei n.º 128/94, de 19 de Maio.
Fiz grandes amigos na BA3 que vou encontrando no caminho da vida.
Por último, não posso deixar de dizer que senti uma grande honra e um inexcedível orgulho em ter por companheiros, e conselheiros de jornada, muitos militares e civis que ali serviram. Recordo por acções de grandeza o ex-Comandante da BA3 (1983-1986), e depois Director de Pessoal da Força Aérea, Major-General Martins Rodrigues, pois o seu mérito de condutor de homens, o seu nobre proceder, a sua consumada prudência e humanismo cristão continuam a ser referência para o meu dia-a-dia.

Bibliografia: Cardoso, Edgar Pereira da Costa, História da Força Aérea Portuguesa, 3.º Volume, 1984

15.5.09

175.º ANIVERSÁRIO DA BATALHA DA ASSEICEIRA – A HISTÓRIA DOS VENCIDOS

O choque de uma razão contra outra razão dá a questão. Ou melhor há sempre uma razão que se opõe a outra razão.
Esta oposição de razões à estrutura da questão dá o denominado princípio do contraditório.
Por defeito de ofício, quiçá virtude, quando me contam a história dos vencedores (e a nossa história é, predominantemente, de vencedores) quase sempre é esquecida pelo escritor, ou narrador, a história dos vencidos. Daí o sábio hábito de ouvir as duas partes da oposição das suas razões e ... depois tirar as nossas conclusões.
Para fazer as contas à medida (significado de razão) procurei a versão da Batalha da Asseiceira na versão dos vencidos.
Nesta tarefa árdua ajudou-me o meu amigo José Luís Assis, historiador de generosidade do tamanho do mundo, conseguindo descobrir a obra abaixo referida. Esta versão é a do Barão de Saint Pardoux que em 1835 publicou uma obra sobre o título “CAMPAGNES DE PORTUGAL EN 1833 ET 1834”.
Este militar esteve em Portugal até ao fim da guerra fratricida que dilacerou Portugal.
Importa reter a sua história, ou seja os factos narrados por quem defendeu a causa Miguelista.
No prefácio da sua obra (1) o Professor António Ventura diz o seguinte:
Sendo todos tão útil o conhecimento da verdade, bem poucos são aque­les que a gozam: uns não se querem dar ao trabalho de a investigar, outros carecem dos dados necessários para a alcançarem.
Desde que a luta principiou até que a convenção a finalizou, o partido vencedor tem procurado constantemente fazer atribuir à sua energia, valor e sapiência militar os sucessos das suas armas, ocultando ou invertendo os do contrário. Ninguém ousava patentear as coisas, posto que muitos as soubessem, tais quais tinham sucedido.
O Barão de St. Pardoux, oficial adido ao exército de D. Miguel, foi quem primeiro mostrou que a ignorância, traição e faltas de alguns dos chefes do Partido Realista foram as principais causas da vitória do Partido Constitucional
.”
Feito este breve intróito vamos aos factos narrados pelos vencidos, feita por palavras de quem testemunhou muita traição. Cada um per si tire as suas conclusões e quiçá possa descobrir a origem e o estado em que hoje nos encontramos.
“ … Pelo que fica dito, os brigadeiros Bernardino e Ricardo deixaram a cidade de Coimbra, e se retiraram sobre a vila de Tomar, assim como a guarnição das fortalezas da Figueira e Buarcos às ordens do seu comandante, o coronel de artilharia António Ignácio Júdice.
Quando estas tropas chegaram a Tomar ficaram debaixo das ordens do marechal-de-Campo António Joaquim Guedes de Oliveira, o qual tinha em Ourém um destacamento de trezentos e cinquenta soldados do regimento de infantaria n.º 7 e uma força de voluntários realistas, debaixo do comando do coronel João António da Moita.

Nesta ocasião o general Lemos enviou ao general Guedes um reforço, o qual, reunido às tropas juntas em Tomar, formava a totalidade de cinco mil setecentos e sessenta e sete homens, não compreendendo os fragmentos do exército de observação sobre o Porto, nem a artilharia e a cavalaria às ordens do brigadeiro Puisseux (ver mapa ao lado).
O general duque da Terceira avançou com as suas tropas, apoiadas da direita pelas forças do capitão Napier e pela guarnição de Leiria, e protegidas no flanco esquerdo pelo exército do general Rodil.
O general realista, em consequência destes movimentos do inimigo, reti­rou-se sobre a estrada de Santarém pelas posições da Asseiceira, onde a 16 de Maio de 1834 recebeu o ataque do exército inimigo, comandado pelo mencionado general.
Esta acção durou por espaço de duas horas; porém, a grande superiori­dade das forças contrárias e a voz que se espalhou de que o general Rodil tor­neava a nossa direita desanimaram uma parte das tropas realistas, e esta desanimação aumentou-se quando infelizmente o brigadeiro Puisseux foi morto à frente da cavalaria realista que carregava o inimigo. A bravura deste brigadeiro levou-o à temeridade de montar à crista de uma altura que estava em frente, o que era contra as ordens que recebera do general Guedes, que lhe determinavam se limitasse tão-somente a repelir os caçadores inimigos e não subir àquela altura, onde existia uma grande força contrária, que deu sobre a cavalaria uma descarga cerrada e decidiu a sorte das armas.
Os brigadeiros Bernardino e Ricardo retiraram-se em boa ordem, não deixando todavia de sempre operar até ao momento em que atravessaram o Tejo.
A diminuição da força comandada pelo general Guedes, entre mortos, feridos e dispersos, foi de dois mil novecentos e quinze homens, não entrando neste número alguma parte da cavalaria e artilharia. Algumas das tropas dispersas nesta acção reuniram-se à guarnição da praça de Abrantes, a qual se retirou para Estremoz com o seu governador Rochelein, e sucessivamente para a praça de Elvas. Nesta ocasião a força que estava destacada em Ourém capitulou com o capitão Napier...

Os desgraçados acontecimentos que tiveram lugar contra a causa realista nas províncias do norte e o resultado da batalha da Asseiceira exigiram que o exército de operações se retirasse da vila de Santarém, ameaçada pelo norte, a oeste.
O general Lemos então destacou o brigadeiro Urbano com a cavalaria de Chaves e de Vila Viçosa para a vila de Almeirim, na margem esquerda do Tejo, para proteger a retirada do exército. Logo que este homem passou o rio, continuou a sua marcha pela mesma margem até à vila da Chamusca, quando a ordem que recebeu do general era de não passar de Alpiarça. A maneira com que este traidor iludiu a tropa do seu comando foi dizendo-lhe que a ordem que recebera lhe determinava que repassasse o Tejo para a margem direita a fim de carregar de revés o inimigo que seguia a estrada de Santarém. Efectuada a passagem, de súbito a tropa foi surpreendida pelas forças do general duque da Terceira.
A 18 de Maio de 1834 o Sr. D. Miguel passou o Tejo dando claras provas de intrepidez, e amor pelo seu exército, com aquela presença de espírito que o caracteriza nos maiores perigos.
Foi a última pessoa que se retirou do rio, que muitas vezes atravessou de um lado ao outro até pôr a salvo os indivíduos, que desejavam acompanhá-lo
.”

BIBLIOGRAFIA:
Barão de Saint Pardoux, "A Guerra Civil em Portugal 1833-1834" Introdução de António Ventura (1), Caleidoscópio, 2007.

6.5.09

175.º Aniversário da Batalha da Asseiceira

As ligações históricas entre os habitantes da Atalaia e da Asseiceira são de tempos ancestrais.
Recordo, só a título de exemplo, que já em 20 de Novembro de 1253, por documento ordenado por D. Afonso III, (pai de D. Dinis), deu este rei vários privilégios aos habitantes de Atalaia e de Ceiceira (Asseiceira). Este enorme elo histórico entre estas duas populações adjacentes levou-me a rever a história da Batalha da Asseiceira ocorrida no dia 16 de Maio de 1834. Desde já quero fazer um singular reparo, o texto apresentado abaixo, em sinopse e adaptado, é da autoria do Marquês de Fronteira e de Alorna e é a história contada dos vencedores.
… Chegámos (a Tomar) na tarde de 14 de Maio. O belo Convento estava ocupado por uma considerável força miguelista e, no prado, para lá da vila de Tomar, descobriam-se seis belos esquadrões de cavalaria, doze bocas de fogo e uma grande força de infantaria que se não podia calcular bem por causa do arvoredo que a encobria.
O Convento ficava-nos no flanco direito quando avançávamos para Tomar, e o Marechal avançou sempre sobre a vila, sem lhe importar aquela força. Com espanto nosso, o inimigo abandonava a bela posição do Convento e a força concentrou-se no prado junto à vila e nas posições sobre a estrada de Asseiceira e Barquinha.
A nossa cavalaria esteve a tiro de pistola, em linha, em frente da cavalaria inimiga, mais forte dois esquadrões do que a nossa, e a nossa infantaria, em coluna, foi colocada na retaguarda da cavalaria, e a artilharia na retaguarda da infantaria.
Ao anoitecer, o inimigo retirou sobre a estrada de Asseiceira e o Marechal mandou colocar os seus postos avançados, estabelecendo o seu Quartel-General em casa do Superior do Convento de Cristo, o cavalheiro Athayde. Pela manhã fizemos um reconhecimento em força e o Marechal coligiu que o General Guedes (defensor da causa Miguelista) ocupava as belas posições da Asseiceira para nos dar batalha.
O General Guedes tinha reunido as consideráveis forças, com que saíra de Santarém, ás colunas dos Generais Cardoso e Ricardo. O Duque deu um descanso de vinte e quatro horas ás forças do seu comando e preparou-se para a grande batalha ...
Ao romper do dia, o Corpo de Exército do Marechal Duque da Terceira formou no belo campo junto á vila de Tomar e de que me não lembra o nome. A Brigada do Coronel Queiroz formava a vanguarda do pequeno Corpo de Exército; seguiam-se os seis esquadrões de Cavalaria do General Fonseca, a Brigada do General João Nepomuceno e a Brigada do Coronel Vasconcellos.
Próximo à posição de Asseiceira, num bosque que corta a estrada real, encontrámos, em força, o inimigo, com uma considerável linha de atiradores. Engajou-se logo em fogo a Brigada do General Queiroz e parte da Brigada do General João Nepomuceno, ocupando a cavalaria, em coluna, a estrada, ficando em reserva parte da Brigada do General João Nepomuceno e a Brigada do Coronel Vasconcellos; a nossa artilharia fez alto na estrada, a grande distância da retaguarda da cavalaria.
A força inimiga que ocupava o bosque era uma força que o General Guedes fizera avançar das suas belas posições para nos reconhecer, a qual se retirou fazendo-nos sempre frente, e depois, protegida por uma bela bateria de seis bocas de fogo muito bem servidas, conseguiu reunir-se ao seu Corpo de Exército.
Pudémos então descobrir as posições ocupadas pelo inimigo; o seu centro cortava a estrada de Tomar para a Barquinha, a direita ocupava a pequena aldeia de Asseiceira, e a esquerda, que era o fraco da sua posição, estava protegida pela cavalaria, que era superior á nossa, e pela artilharia, que o era também; por esta forma as posições do General Guedes eram excelentes e toda a probabilidade de vantagem devia ser a favor das armas do Usurpador (epíteto que os liberais designavam o Rei D. Miguel).
O Marechal Duque da Terceira fez entrar logo as forças do seu comando em ordem de combate. O Coronel Queiroz fez um movimento sobre a direita, ficando desde logo a ala direita em ordem de batalha; o Marechal avançou pelo centro com a Brigada do General Nepomuceno, e o Coronel Vasconcellos fez um movimento sobre a nossa esquerda e direita do inimigo. O General Fonseca, com a cavalaria, ocupava a estrada real, ficando, pouco mais ou menos, no centro da nossa linha, excepto os dois esquadrões organizados no Porto pelo Coronel Luiz Filipe e Major António de Mello, os quais seguiam o movimento da Brigada do Coronel Queiroz. O Marechal tinha ordenado a dois dos seus oficiais de ordens, o capitão Casimiro e o alferes D. Manuel de Sousa que ficassem debaixo das imediatas ordens do Coronel Queiroz.
A nossa artilharia colocou-se na melhor posição que o Marechal e o seu Chefe de Estado-Maior puderam encontrar, mas que era muito inferior á bela posição que ocupavam as baterias inimigas, tornando-se portanto, muito desigual o combate para a nossa artilharia. A artilharia inimiga não perdeu tempo: abriu desde logo um fogo terrível sobre as nossas colunas, principalmente contra o centro, que foi fulminado e batido em brecha por seis bocas de fogo, incluindo um obuz, que muito estrago fizeram nas nossas fileiras.
Os nossos atiradores avançaram com coragem: no centro, onde estava o Marechal Duque da Terceira, uma formidável linha de atiradores de Voluntários de D. Maria II avançou por tal maneira, fazendo um fogo mortífero, que levou á retaguarda os atiradores inimigos e as suas reservas, tentando tomar de frente á baioneta a formidável posição; o inimigo, porém, em força, em posições muito vantajosas e protegido pela sua artilharia que estava a tiro de fusil dos nossos atiradores e que fez uso da metralha, repeliu o ataque dos nossos Voluntários, sendo necessário que o Marechal Duque da Terceira e o General Nepomuceno avançassem com o resto de Voluntários de D. Maria II e com o Regimento 18, em força de três batalhões, para sustentar a nossa linha de atiradores.
O combate, no centro, tornou-se muito sério e mortífero. Vi muitas vezes o Marechal Duque da Terceira e o General Nepomuceno envolvidos em nuvens de poeira, em consequência de ricochetearem ao lado deles as balas da artilharia; as balas davam nos valados e muros, que cortavam as terras, e derrubavam-nos, fazendo cair uma quantidade de estilhaços que nos faziam perder muita gente, ferindo-a e matando-a.
Por três vezes, os dois Generais, o Coronel Mesquita do 18 e o Comandante de Voluntários de D. Maria II tiveram que se colocar á frente das suas colunas, para repelir o inimigo, que queria desalojar-nos das nossas posições. Na nossa direita, o Coronel Queiroz lutava com imensas dificuldades; os dois esquadrões de cavalaria que ele tinha, apesar de serem, como já disse, muito bem comandados, não estavam no caso de repelir uma carga de cavalaria inimiga comandada, no flanco direito, pelo Brigadeiro francês, Conde de Puiseux, que cobriu a retirada da Divisão do General Cardoso e que, por diferentes vezes, ousou carregar a Brigada do Coronel Queiroz, que, ora formando quadrado, ora em linha, repeliu as cargas com firmeza e resolução.
O Coronel Queiroz a todos os momentos requisitava um reforço de cavalaria, dizendo que a sua Brigada estava comprometida completamente, se não lhe aumentassem a força.
O Coronel Vasconcellos, na esquerda, não lutava com menos dificuldades. Não carecia de cavalaria nem receava da inimiga, porque o terreno era muito montanhoso, mas as perdas que tinha tido eram imensas: os atiradores inimigos e duas peças de artilharia faziam grande desfalque nas fileiras da Brigada. O Duque, com, repugnância, anuía ás requisições do Coronel Queiroz, porque via na sua frente uma grande força de cavalaria inimiga e poupava o melhor da sua cavalaria, debaixo das ordens imediatas do General Fonseca, para uma ocasião decisiva.
O combate estava duvidoso em toda a linha. O Coronel Vasconcellos declarava que lhe era impossível avançar e tomar as posições, e o Coronel Queiroz continuava a reclamar reforços de cavalaria, não ocultando o receio que tinha de ser forçado a vir á retaguarda. O Marechal Duque da Terceira, com o seu Chefe de Estado-Maior, observaram com os seus óculos a força do inimigo e os seus movimentos, e apearam-se, assim como nós todos, para tomar uma decisão sobre o movimento que tinham a fazer, porque não havia tempo a perder. Quando o Marechal e o seu Estado-Maior formavam um grupo e o Coronel Loureiro, fazendo uso do óculo, examinava o inimigo com toda a atenção, uma bala de fusil veio feri-lo gravemente no peito, donde lhe saiu um jorro de sangue, julgando todos nós e o próprio que a ferida era mortal. Levámo-lo em braços para traz de um muro, onde o supúnhamos ao abrigo das balas, e de aí foi conduzido à ambulância, acompanhado pelo cirurgião da Divisão, Libanio.
O Duque montou logo a cavalo e dispunha-se para atacar de frente e ordenar ás colunas da direita e esquerda que avançassem sobre o inimigo, quando o Coronel Queiroz, em pessoa, a grande galope, seguido do capitão Casimiro e do alferes D. Manuel de Sousa, veio dizer ao Marechal que, pela terceira vez, tinha sido carregado pela cavalaria inimiga que tinha sido reforçada por mais um esquadrão, e que, se lhe não mandasse um reforço considerável de cavalaria, lhe era impossível avançar. Nesta ocasião, o Marechal e todos nós observámos que a cavalaria inimiga, na nossa frente, fazia um movimento sobre o nosso flanco direito e que um numeroso Estado-Maior precedia a cavalaria, devendo nós presumir que era o General Guedes. O Marechal mandou-me logo levar ordem ao General Fonseca para que fizesse um movimento, a trote, sobre a direita e seguisse os movimentos da Brigada do Coronel Queiroz.
Dirigi-me a grande galope ao encontro do General, que executou logo a ordem, e o esquadrão de D. Carlos Mascarenhas fazia a frente da coluna que estava formada por divisões. Avançamos, a grande trote, sobre a direita. D. Carlos, chegando á esquerda da Brigada do Coronel Queiroz e encontrando-se com ele, recebeu ordem deste para fazer ombros esquerdos frente carregar dois esquadrões que tinha no flanco direito. O Coronel não via o General Guedes á frente de seis esquadrões e a pequena distancia dele na sua frente. D. Carlos, em lugar de dar a voz de ombros esquerdos, deu a de ombros direitos frente e meteu em linha o seu esquadrão, colocando-se á frente dele, tudo a galope, dando vivas à Rainha e gritando: Abaixo o General Guedes, que via de sabre na mão, á frente dos seus seis esquadrões para o carregarem.
A carga do nosso esquadrão foi brilhante. A rapidez dos seus movimentos foi como um raio que caiu sobre o General Guedes: os seis esquadrões e as seis bocas de fogo, que tinha na sua retaguarda, tudo ficou morto, ferido ou prisioneiro, e as seis bocas de fogo ficaram, desde logo, em poder do bravo D. Carlos. O seu arrojo não parou aqui: vendo diante de si inumeráveis mortos e feridos, seis esquadrões aniquilados e um parque de artilharia fora de combate, estando mortos, ao lado das peças, quase todos os artilheiros e os machos, seguiu o General Guedes, que, acompanhado dalguns dos seus Ajudantes de campo e de algumas ordenanças, tratava de salvar a vida, seguindo o caminho da Atalaia e da Barquinha, perseguindo-o até perto desta ultima vila.
O Brigadeiro francês, Conde de Puiseux, carregou com ímpeto, pela quarta vez, a Brigada do Coronel Queiroz, mas foi repelida a carga e morto o Brigadeiro. O Duque da Terceira ignorava completamente a bela carga e o resultado dela. Atacou de frente a posição e foi levando o inimigo de posição em posição, aprisionando e pondo fora de combate muita da sua força, até que se apoderou de todas as posições, pondo o inimigo em completa derrota, a ponto de abandonar armas e bandeiras. O Coronel Vasconcellos não foi menos feliz do que o Marechal Duque da Terceira e General Nepomuceno. Apoderou-se da posição, aprisionando três batalhões ao inimigo e grande quantidade de armas, pólvora e bandeiras. As forças do General Guedes não foram só derrotadas: ficaram completamente aniquiladas na famosa batalha de Asseiceira. Poucos foram os soldados miguelistas que puderam reunir-se ás bandeiras do seu Rei …
O Quartel General do Duque estabeleceu-se na Atalaia; todos os grandes lavradores da Golegã, Relvas, Honorio e outros muitos, vieram felicitar o Duque e fazer-lhe os seus oferecimentos.
As tropas de D. Miguel, segundo alguns historiadores, entre feridos e prisioneiros tiveram baixas de 2915 homens, sendo os prisioneiros mais de 1.400. Por sua vez as tropas de D. Pedro tiveram baixas de 344 homens, 34 mortos, 288 feridos e 22 desaparecidos.
A vitória pelas tropas de D. Pedro, em 16 de Maio de 1834, na batalha de Asseiceira, abriu o caminho para a ocupação da cidade de Santarém, o derradeiro baluarte das tropas de D. Miguel. Com a vitória das tropas liberais na Asseiceira, auxiliadas por tropas estrangeiras (1), no dia 26 de Maio de 1834, na Convenção de Évora Monte, é colocado termo à guerra civil com a rendição de D. Miguel e exílio deste Rei para a Alemanha, país onde viria a falecer.
Por último recordo que 6 dias depois da batalha, em 22/5/1834, do AUTO DE CÂMARA DA ATALAIA, consta que:“ Presentes o Juiz Ordinário, vereadores e mais oficiais da Câmara e outras pessoas. Foi dito que sendo restabelecidos os direitos da Senhora Dona Maria II e o Trono da Monarquia Portuguesa era chegado o momento de se fazer nesta Câmara a devida aclamação e reconhecimento ao Governo Legítimo da mesma Augusta Senhora … o que foi unanimemente acordado ... havendo por ilegítimo todo outro Governo que não seja desta Senhora estabelecido conforme a Carta Constitucional."
__________________________________________________
(1) A designada Quádrupla Aliança, tratado assinado em Londres a 22 de Abril de 1834 entre os governos de Guilherme IV do Reino Unido, Luís Filipe de França, D. Pedro IV de Portugal , regente em nome de sua filha D. Maria II, e a regente de Espanha D. Maria Cristina de Bourbon, tinha para as partes contratantes um objectivo essencial o da imposição de regimes liberais nas monarquias ibéricas.
_________________________________________________
Cartaz: Linhaceira Digital: http://linhaceira.net/?p=255
Bibliografia: Memórias do Marquês de Fronteira e d'Alorna D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto ditadas por ele próprio em 1861 / rev. e coord. por Ernesto de Campos de Andrada. - Coimbra : Impr. da Universidade, 1928-1932. Biblioteca Nacional

4.5.09

8.000 Visitas

Agradeço a todos os que me ajudaram, e têm apoiado, na feitura dos vários artigos deste blogue. Só digo que são muitos e bons. Portanto, não devo arriscar a indicação de qualquer nome sob pena de grave omissão.
A todos o meu BEM-HAJA

24.4.09

OS PREÇOS DOS BENS ESSENCIAIS NA NOSSA VILA NO SÉC. XIX

“Estuda o passado se queres prognosticar o futuro”
Confúcio
Compulsando as actas da Câmara da Atalaia consegui apurar o preço dos géneros na época de 1834. Colhi, portanto, alguns factos históricos que ofereço aos leitores para que efectuem contas à vida da época dos nossos antepassados.
Certo é que, em meados do século XIX, existia grande movimento de barcos nos Portos da Barquinha, Tancos e Punhete. Rio Tejo abaixo e rio Tejo acima. Também, algum movimento de almocreves nos concelhos de Paio de Pele, Tancos e Atalaia. Estes transportavam, de umas para outras terras, os vários produtos alimentares e comercias. Devido à nossa situação geográfica, certamente, efectuar-se-ia o transporte de peixe para o interior e, no sentido inverso, cereais, bem como o transporte de mercadorias agrícolas e artesanais.
É verdadeiramente interessante verificar, nestes documentos, as importantes diferenças de preço, em réis por arrátel, das principais carnes consumidas na nossa Vila da Atalaia, em meados do século XIX.
Carne de Vaca 70 Réis/ Arrátel;
Carne de Carneiro 40 Réis/ Arrátel;
Carne de Capado (porco para engorda) 40 Réis/ Arrátel;
Carne Cabra 35 Réis/ Arrátel.
Verificamos que nas carnes os preços mais acessíveis eram, naquele tempo, as de cabra e de carneiro.
Para acompanhar uma refeição é indispensável o pão feito à base de cereais. Estes, os cereais, foram durante séculos os mais valiosos aliados vegetais do homem contra a fome. Na nossa Vila e nos campos adjacentes eram conhecidas as técnicas da lavoura, muitas de cariz braçal, que permitiam a feitura do alimento mais importante para o seu humano, o pão. Ainda hoje não ter o pão-nosso de cada dia significa, para muitas populações, a miséria (veja-se por exemplo o continente africano frequentemente fustigado por este flagelo). O pão tanto podia ser feito de trigo, como de milho ou cevada.
Para a moagem dos cereais existiam 6 moleiros conforme consta dos censos de 1822. Os moinhos localizavam-se junto da ribeira e ainda hoje se podem ver as suas ruínas ao longo da sua margem.
Os preços dos cereais na Atalaia, em 1834, eram os seguintes:
Cada Arrátel (a) de Pão de Trigo 30 Réis
Cada dois Arrateis de pão de milho 35 Réis
Cada Alqueire (b) de Trigo 480 Réis;
Cada Alqueire de Milho 300 Réis
Cada Alqueire de Cevada 220 Réis
Cada Alqueire de Centeio 300 Réis.
O pão consumido era feito à base de milho e centeio.
O azeite, produto tipicamente mediterrânico, sempre foi utilizado como ingrediente básico na nossa alimentação e ocupava uma posição primordial à data.
O seu preço era o seguinte:
1 Canada de Azeite 18 Réis
Cada Alqueire de Azeite 740 Réis.
Por último o vinho, sempre elemento primordial na mesa de um bom português, pois aquele que se bebe com medida jamais foi causa de dano algum.
Na nossa Vila o preço era o seguinte:
Cada Almude (c) de Mosto 160 Réis.
Disse HIPÓCRATES (460-370 a.C.) "O vinho é bebida excelente para o homem, tanto sadio como doente, desde que usado adequadamente, de maneira moderada e conforme seu temperamento." pelo que, fazendo eu contas, ao preço que este licor está hoje em dia, ao mesmo preço do azeite, felizes eram os nossos antepassados que compravam o saboroso néctar a ¼ do preço.

(a) Arrátel 0.4590 Kg
(b) Alqueire - equivalente a seis Canadas, aproximadamente 15,732 litro, embora varie de região 1 Canada, cerca de 2,622 litros
para região.
(c) Almude - Cerca de 25 litros.

14.4.09

A MISERICÓRDIA DA ATALAIA E SEUS EXPOSTOS

Dorme, dorme meu menino
Foi-se o sol nasceu a lua
Qual será o teu destino
Qual sorte será a tua
” (1)
Ao reviver o passado “dos expostos na Roda” fiz um reencontro com o presente. É neste reencontro que a nossa atitude tolerante e humanista engrandece.
Todos estamos conscientes que está nas nossas mãos a defesa dos inocentes e das crianças. Como educadores devemos preservar e perpetuar as nossas raízes humanistas, as tradições de tolerância, a nossa memória patriarcal-maternal e a nossa cultura. É esta mensagem que devemos transmitir aos nossos descendentes recordando que, ainda hoje, há um mundo injusto onde existem muitas crianças abandonadas por falta de recursos financeiros, por conflitos persistentes entre os povos e por denegação de princípios e valores dos seus progenitores.
As crianças abandonadas nas porta­rias dos conventos ou na Roda das misericórdias, ou noutros lugares públicos designavam-se por expostos.
Tal facto, inconcebível para a civilização actual verificou-se na nossa Vila, no País e em toda a Europa até meados do século XIX.
Para regularizar esta situação real e concreta é publicada uma Lei, com data de 30 de Maio de 1783, que obrigava à criação de casas da Roda em todas as Vilas e cabeças de concelho. Este Decreto de 1783 procura ainda garantir o anonimato de quem ali depositava a criança. Normalmente quem colocava a criança na Roda eram pessoas momentaneamente incapacitadas financeiramente para a sustentar ou quem não a queria assumir publicamente (o denominado enjeitado, nascido fora do casamento ou filho de pais incógnitos).
A assistência o tais crianças estava entregue às Misericórdias. Até aos 7 anos estavam ao cuidado de amas. Dos 7 aos 12 regressavam aos hospícios e Misericórdias, ficando sobre a protecção dos Juízes dos Órfãos até aos 21 anos.
O abandono de crianças era um facto social plenamente aceite pelas comunidades até cerca do ano de 1850, e o estudo deste fenómeno social é significativo do estado e da evolução de uma dada comunidade.
Em Alvará de 31 de Janeiro de 1775, determinava-se que: “ As crianças expostas gozam dos direitos dos legítimos e são reputadas em direito como livres e legítimas, porquanto, devendo-se na dúvida preferir o mais favorável, é de crer que os expostos nasceram de matrimónio legítimo e de homens livres, e que, por isso, devem ser admitidos, sem dispensa alguma, não só às ordens sacras e benefícios eclesiásticos, mas também a quaisquer honras e ofícios civis”
A criação dos expostos na nossa Vila era financiada pela Câmara da Atalaia, cabendo a sua administração à Misericórdia da mesma Vila.
A fonte histórica para tal conclusão é o AUTO DA CÂMARA DA ATALAIA, de 14/8/1833. Aí se determinava que: “João António Rebelo Farinha, Juiz dos órfãos desta Vila servisse inteiramente como escrivão da câmara, por impedimento de Rodrigo António da Silva.”
E, no mesmo auto, mais se determinava que:
“Se man­dasse o Recebedor dos Bens de Raiz entregar ao Recebedor do Cabeção (imposto extraordinário anual para perfazer o que não se recolhe das Sisas dos Bens de Raiz e é preciso para preencher as avenças com o Património Real), capitão José Gregório da Silva a quantia de 2496 Réis, para pagamento dos ordenados dos expostos.”
A alimentação das crianças recém recebidas e nascidas obrigava a que existissem amas-de-leite. Existiam vários tipos de amas, as internas ou de dentro, estas limitavam-se a cuidar das crianças enquanto estavam na casa da roda ou as amas externas ou de fora que se ocupavam das crianças até aos 7 anos. Os seus salários eram mutáveis e eram acertados caso a caso. No ano de 1833, na Atalaia, importava acrescentar 2496 Réis aos ordenados (recorda-se que à data um kg. de carne de vaca custava 50 Réis) pelo que, pelo valor desembolsado, se afere da importância dos expostos na nossa Vila.
Muitos atalaienses desconhecem (?) a existência da sua Misericórdia. Ela localiza-se num prédio confinante com a Sociedade Instrutiva e Recreativa da Atalaia, no lado norte, em frente à Casa do Patriarca.
Certamente, numa das suas paredes situar-se-ia o tambor giratório onde as crianças abandonadas eram deixadas, a denominada “Roda dos expostos”, normalmente construída em madeira, com uma abertura ampla para possibilitar a colocação da criança. A Roda estava montada num sistema giratório, e estava virada, certamente, para a Rua Patriarca D. José. Ao rodar quem estava na Misericórdia não via quem entregava a criança garantindo-se assim o anonimato do progenitor ou do depositante. Questionar-se-á, existia a Roda dos expostos na Atalaia? O autor não tem elementos históricos que o provem. Certo é que se não existiu Roda dos expostos então, seguramente, as crianças da Atalaia foram colocados à porta da sua Misericórdia, na actual Rua Patriarca D. José, decerto em cestos para aí serem recebidas, quase sempre sem se saber da sua proveniência ou origem.
Certo é que a nossa Vila teve um juiz de paz e de órfãos, até cerca de 1840, a partir desta data, com a mudança da sede de concelho para Vila Nova da Barquinha, passou aquela Vila a deter um juiz ordinário e dos órfãos.

(1) canção de berço – autor desconhecido.
Bibliografia:
Sá, Isabel de Guimarães, A Casa da Roda do Porto e o seu funcionamento, Revista da Faculdade de Letras : História, série II, 1985.
Foto da Roda - retirada da página da Santa Casa da Misericórdia de Santarém

9.4.09

1834- AUTO DE POSSE E JURAMENTO, do último Presidente e Vereadores, da CÂMARA DA ATALAIA

"As pessoas que nunca se preocupam com os seus antepassados nunca olharão para a posteridade".
Edmund Burke
A situação da País em 1834.
As invasões francesas, a exploração dos ingleses, a independência do Brasil, em 1822, destruíram todos os pilares da estrutura comercial, e nos anos seguintes, a agitação social da época vintista e a guerra civil de 1828-1834, não permitem que o País se desenvolva em termos produtivos, políticos, ideológicos e financeiros.
Estávamos, em 1834, perante uma estagnação económica.
A função real era exercida por D. Maria II, que tinha neste ano apenas quinze anos de idade. Tal cargo recaía sobre uma Rainha inexperiente.
As correntes políticas definidas eram duas: a moderada que defendia a vigência de Carta Constitucional de 1828 e a avançada que defendia a Constituição de 1822 (em que o rei tinha um papel diminuto). Alguns políticos mais destacados passavam do vintismo ao cartismo e do cartismo ao vintismo ao sabor da oportunidade. A maioria da população, parafraseando Prof. José Hermano Saraiva, vivia dos campos e da enxada.
Dos documentos que tive acesso, com data de 22/5/1834, consta de um AUTO DE CÂMARA da Atalaia, o seguinte:
Presentes o Juiz Ordinário, vereadores e mais oficiais da Câmara e outras pessoas. Foi dito que sendo restabelecidos os direitos da Senhora Dona Maria II e o Trono da Monarquia Portuguesa era chegado o momento de se fazer nesta Câmara a devida aclamação e reconhecimento ao Governo Legítimo da mesma Augusta Senhora … o que foi unanimemente acordado ... havendo por ilegítimo todo outro Governo que não seja desta Senhora estabelecido conforme a Carta Constitucional. (seguem-se 27 assinaturas)”
No auto seguinte, com data de 24/5/1834, consta:
O Presidente informou ter recebido um ofício do Doutor Corregedor interino da Comarca, de 17 de Maio, para se aclamar nesta Vila a Senhora Dona Maria II por legítima Rainha destes Reinos e para reintegrar na Câmara os que dela faziam parte em 1828. Ora, tendo o então Presidente, Capitão João Gregório da Silva, pedido isenção de cargo por então Recebedor do Cabeção, coube ao Presidente, de acordo com o Doutor Regedor da Comarca e com a Câmara, nomear outro Juiz Presidente assim como os vereadores que, por ausentes ou falecidos, não puderam tomar posse. "
Do auto de posse e juramento, com a data de 24/5/1834:
Sendo presente o Juiz Presidente José Augusto Marques e mais oficiais da mesma Câmara por eles foi dado posse à vereação de 1828, com excepção do Capitão João Gregório da Silva, substituído por José de Morais Sarmento, e o vereador Manuel Mendes, por morte de Manuel Maia Mação; e Manuel Rodrigues Nunes por ausência de João Filipe.
Prestam juramento de, com boa e sã consciência, servirem bem os seus cargos, administrando a Justiça conforme a Lei destes Reinos, havendo-se em tudo como convenha ao bem comum de Sua Majestade e da Nação.
Assinam,
José António Rebelo (Secretário)
José de Morais Sarmento (Presidente)
Manuel Mendes, Francisco dos Santos Marques, Manuel Rodrigues Nunes e João da Silva (Vereadores).

Julgamos ser estes os últimos representantes da Câmara da Atalaia, pois no dia 6 de Novembro de 1836, a rainha D. Maria II assinou um decreto que cria o concelho de Vila Nova da Barquinha.

AGRADECIMENTO: Ao meu amigo Carlos Ferraz que teve a gentileza de me ceder alguns autos da Câmara da Atalaia, o meu BEM-HAJA
Bibliografia: SARAIVA, José Hermano, História Concisa de Portugal, Lisboa, Publicações Europa-América, 1983.
Foto de: Grevedon, Henri,, 1776-1860 ... Título, [Dona Maria II], Biblioteca Nacional

30.3.09

O castelo da Atalaia (?)

A nossa geração deve procurar reviver os passos dos nossos antepassados.
Se assim procedermos poderemos compreender aquilo que somos e relativizar muitos dos nossos desgostos da actualidade. Recordando os duros tempos de antanho iremos buscar força e alento ao exemplo dos nossos antecedentes por tudo o que fizeram em prol da Pátria.
Os desafios agora são outros! Dir-me-ão. É verdade ! Todavia, sabendo como os nossos antecessores reagiram no passado estamos mais capazes de enfrentar as dificuldades e os escolhos da vida.
Imaginemo-nos no ano de 1139 …
« A Guerra quase contínua, dura há quase quatro séculos, entre sarracenos e cristãos. Paulatina, mas tenazmente, vai progredindo a Reconquista.
Lutas internas violentas rompem a unidade muçulmana no conjunto dos territórios hispano-marroquinos. Desguarnecendo arriscadamente a Península acodem fortes contingentes almoravidas a Marrocos, procurando sufocar o crescente poder da rebelião almoada (a).
Aproveitando tão favorável oportunidade redobram os reinos cristãos de esforço em sua ofensiva.
Corre ao tempo, segundo Viterbo, até hoje não desmentido, a fronteira sul portuguesa de Leiria por Ourém, ao Tejo, cerca do actual Entroncamento, acompanhando, em percurso reduzido o rio até a confluência de Zêzere. Daqui, subindo este último, inflecte depois para leste, procurando o Alto Côa.
Entre as duas fronteiras, moura e cristã, intercala-se, em léguas de largura, a terra de ninguém.
Estende-se a zona de guerra portuguesa do Mondego para o sul e, nela, baliza a sua primeira linha de resistência os castelos de Leiria, Ourém, Cera, Seia e Celorico, o terceiro dos quais hoje destruído, duas léguas ao norte da actual Tomar.
Á frente, como postos destacados de vigilância estratégica, parece erguerem-se já sobre o Tejo Médio, num sector de 10 Km , os três pequenos castelos de Cardiga (senão, talvez na Atalaia), de Almourol e de Zêzere, este ultimo, a cavaleiro da foz do mesmo rio e em frente do local onde depois se levantará Constância. Figuram esses castelos saliente agudo da cobertura estratégica de Afonso Henriques, apontando sobre o Alentejo. Facto interessante ê incluir este saliente dois vaus do Tejo, um, a leste, o da Praia, outro a oeste, o da Barquinha. Separado do primeiro pelo pego do Almourol, comunica o segundo com o mouchão entre o Tejo e a estreita vala do Tejo Velho, vinda do Arrepiado.” (1)
Não me custa admitir que li, sem espanto, no texto supra referido e noutros textos, a possibilidade da existência de uma fortificação ou castelo na Atalaia.
Ainda recentemente numa conversa com o Dr. Paulo Picciochi o tema foi abordado.
É muito bom saber que há quem, doutamente, como Ludovico Menezes, coloque esta hipótese histórica.
O facto é que este assunto está no limbo, como muitos outros da nossa terra.
Não existem dúvidas que a Atalaia foi conquistada aos Mouros por D. Afonso Henriques e que em 1159, o castelo e o território de Ceras foram doados pelo rei à Ordem do Templo com vista à defesa e povoamento do reino. Em 1169, juntava-se o dos castelos de Cardiga e Zêzere, e o de Almourol, reconstruído em 1171. A ordem do Templo passava a deter importantes posições estratégicas na margem direita do Tejo, com o controlo de acessos vitais a Coimbra, a Santarém e controlo das incursões dos povos vindos do sul do rio Tejo.
Poder-se-á questionar se no actual Picoto, local onde de avista o Castelo de Ourém, Cardiga e Santarém, ou em lugar próximo, existia uma torre, fortificação ou um castelo. Não existem vestígios de tal infra-estrutura embora haja quem suponha que no sítio denominado as Barrosas existem restos de paredes de um antigo castelo (2)
Sempre se dirá que este tema não é matéria de fácil esclarecimento, consabido que, por exemplo, e para não irmos mais longe, dos castelos de Cera (b) e do Zêzere (c), referidos nos texto supra, não restam quase nenhuns vestígios da sua presença.
Se existiu fortificação na Atalaia a sua construção seria, provavelmente, anterior à fundação da nacionalidade. Igualmente, se existiu, a fortaleza teria sofrido grandes estragos no decorrer dos séculos, além das devastações que, certamente, os sarracenos lhe aplicaram. Lembra-se, por exemplo, que o castelo de Torres Novas, é tomado pelos Mouros em 1184, e passado pouco tempo estes o abandonaram em grande estado de ruína.
Os Atalaienses gostam de histórias. Espero que também gostem de História e, essencialmente, que este tema nos estimule a todos, bem como aos arqueológicos, a tentar apreender melhor o que desapareceu nesta Vila extraindo daí um entendimento acerca de quem somos e para onde vamos.
a) Tendo conquistado o Norte de África até ao Egipto, apercebendo-se do insucesso dos Almorávidas em revigorar os estados muçulmanos na Península Ibérica, bem como em suster a Reconquista cristã, ocuparam sucessivamente grande parte do Al-Andalus.
b) Ceras, freguesia de Alviobeira.
c) Praia do Ribatejo.
BIBLIOGRAFIA
(1) Menezes, Ludovico de, “O Feito de Ourique “, Revista de Estudos Históricos, vol. 3, nº. 1/3, 1926.
(2) Picciochi, Margarida Gomes Coelho, Ata-laâ, Atalaya, Atalaia, Ed. Notícias do Entroncamento, 1987.

19.3.09

Termo do concelho da Atalaia, ano de 1694, desvio do curso do rio Tejo na Quinta da Cardiga.

Advertência
Não me podem censurar pela minha concisão e brevidade no tema abordado, e de outros anteriores, pois este (s) aqui inserindo (s) é (são) fruto de pequenas investigações na hora de descanso e alguns factos são cedidos por dedicados amigos.
Apenas anseio dar a conhecer um pouco da nossa história deixando aos sábios destas causas para, por si próprios, desenvolverem muitos mais conhecimentos.

Nos anos de 1543 e 1544 aconteceu no nosso rio Tejo, entre o Arripiado e a Golegã, uma gigantesca obra de engenharia, o desvio do curso do rio Tejo por mão humana, facto impressionante à data.
Tal obra foi ordenada pelo infante D. Luís e foi efectuada num percurso de cerca de 10 km a sul de Tancos, tudo conforme mapa ao lado (clicar para ampliar).
Nos trabalhos participaram entre 20000 a 30000 homens !
Por ordem do príncipe os trabalhadores desviaram o curso do Tejo mais de 1 km no sentido norte, aproximando-o da Barquinha e da Cardiga, e desviando-o da Carregueira, isto ao longo de 10 km.
Tais obras provocaram alterações significativas no leito do rio e posteriores intervenções 150 anos depois.
Passados poucos anos, e com o decorrer do tempo, as correntes do Rio Tejo foram “mudando o seu curso artificial”.
Nova paisagem surgia aos olhos das populações da beira rio (conforme se pode ver pela figura em anexo o leito aproximou-se da Barquinha e Cardiga).
No ano de 1694 reinava o rei D. Pedro II "O Pacífico”, (1683 a 1706), quando as águas do Tejo, através de erosão, entravam nas terras da Quinta, e já “ tinham levado mais de sessenta mois (1) de terra de semeadura”. Também, ameaçavam as casas da Quinta e havia uma grande preocupação por parte dos seus habitantes. Tornava-se eminente a ruína porque o rio ia indireitando contra elas e temia-se o desaparecimento dos ricos campos para a agricultura a jusante do Tejo, até à Golegã.
Perante a gravidade dos factos convocaram-se os técnicos nesta matéria, à data designados por “homens práticos e inteligentes”, do termo de Coimbra, para resolveram a situação.
A solução passou pela plantação de estacadas de tanchões (cunhas - pregos) de salgueiro e outras árvores.
Todavia, os barqueiros e mareantes das Vilas de Tancos, Alcochete e Abrantes, porque a colocação de estacas e tachões lhe prejudicavam a navegação no rio, cortaram-nas e arrancaram-nas com o argumento que sem estas era mais fácil levar os seus barcos à sirga (corda que serve para rebocar embarcações) e assim podiam melhorar as suas viagens no rio.
Perante a erosão contínua e já danos consideráveis na Quinta da Cardiga era necessário agir de imediato. Assim, não resta outra solução à Coroa do que fazer valer a sua força pelo que faz publicar um Alvará (2), com data de 6 de Agosto de 1694, para que se tomem providências para evitar os danos causados pelos pescadores e mareantes.
Para além da aplicação de coima, no valor de 2,000 réis, era imposta, também, uma pena de prisão por 20 dias, e em caso de reincidência aplicava-se o dobro da pena, fundamento bastante, para compelir os pescadores de tais propósitos.
Texto do alvará na íntegra na imagem ao lado (clicar para ampliar).
(1) Moio – antiga unidade de medida equivalente a 60 alqueires.
(2) Alvará – Vigência temporal de um ano, caso vigorasse ad-eternum, dizia-se Alvará com força de Lei.

Bibliografia
Fonte: Universidade Nova de Lisboa, Ius Lusitaniae - Fontes Históricas do Direito Português.
Dias, José Alves "Uma grande obra de engenharia em meados do Século XVI: A mudança do Curso do rio Tejo”, Estampa, Lisboa, 1984.

14.3.09

Data de construção do cemitério da Atalaia, 1746 ou 1835/1845?

Cemitério: Palavra de origem grega koimetérion "dormitório, quarto de dormir". No latim coemiterium ou cemeterium. Os cristãos crêem que é o local onde dormem aqueles que nos antecederam e viveram na fé cristã e que aguardam o dia da ressurreição.
Na nossa Vila, como em outros locais do país, os nossos antepassados eram sepultados dentro da Igreja ou no adro. Sepultar os defuntos dentro dos templos era, para a nossa sociedade predominantemente católica, um imperativo religioso. Numa população devota é fácil de entender que os restos mortais dos seus entes queridos fossem sepultados nos locais de culto. Ficavam, para o povo cristão, eternamente sob a protecção de Deus.
Aconteceu que , em 26 de Novembro de 1845, foi publicado o Decreto de reorganização da saúde pública em Portugal. Este diploma veio impor o enterro dos defuntos nos cemitérios, fora das vilas e aldeias, uma vez que o Decreto de 21 de Setembro de 1835, uma das primeiras iniciativas do Governo liberal, não foi cumprido pelas populações. Tal decreto ordenava que se estabelecessem cemitérios públicos em todas as povoações do País e cominou penas graves ao pároco ou qualquer eclesiástico que consentisse enterramentos dentro dos templos. Houve forte oposição quer ao Decreto de 1835 quer ao de 1845, sobretudo no Norte de Portugal. A contestação a este diplomas legais conduziram a várias revoltas, e a enorme agitação social, e deram origem, no ano seguinte, à chamada revolução da “Maria da Fonte”. Estas medidas, proibição do enterramento dos defuntos dentro das Igrejas eram, aos olhos do povo, um ultraje e sacrilégio uma vez que permitiam que se enterrassem pessoas no campo, em locais isolados, tal e qual como se fossem animais, afastandoa-as dos locais sagrados e dos templos religiosos.
Fiz este pequeno enquadramento histórico para introduzir, ex novo, a questão do tempo da construção do nosso cemitério e desde quando os nossos antepassados repousam em tal lugar.
Que foram feitos enterramentos no adro da nossa Igreja da Atalaia não existem dúvidas pois sabemos que apareceram ossadas aquando das obras envolventes.
Incertezas existem quanto à data da construção do cemitério. Tudo leva a crer que o nosso cemitério paroquial fosse construído por volta do ano de 1835/1845. E com que fonte histórica podemos afirmar este facto?
Sobre este assunto, das leituras de fiz, não encontrei nenhuma referência histórica à sua edificação.
Num dia solarengo matinal, ao visitar o cemitério, verifiquei que no lado sul ergue-se uma grande cruz de pedra. Analisando-a em pormenor pude verificar a seguinte inscrição “1746”.
Sabendo que o cemitério para o lado sul fora alargado no tempo do Sr. António Vital, atalaiense que muito prezo e respeito, essencialmente pela alegria quando fala das coisas da “nossa” Atalaia, abordei-o no sentido de acrescentar algo à história. Informou-me que aquando da ampliação do cemitério o cruzeiro fora deslocado e acompanhou o seu alargamento.
Hipótese verosímil é a possibilidade do cruzeiro ter sido transferido do adro da Igreja ou de algum cruzamento para o cemitério paroquial.
Assim, é provável que o nosso cemitério fosse construído entre 1835 a 1845. Com que fundamentos fazemos esta afirmação? A lei e os alvarás exigiam, naquele tempo, que o cemitério ficasse a pelo menos a 143m (200 passos) de distância das mais adjacentes habitações, e isto em razão de ser considerado um cemitério como estabelecimento insalubre de primeira ordem, categoria que a Atalaia devia ter à data. Acontece que a distância aproximada do nosso cemitério à nossa Igreja Paroquial e às primeiras casas residenciais, mormente a do Dr. Estáquio Picciochi e Dr. Zagallo, andará muito perto desta distância mínima imposta pelo Decreto de 1835, os tais 200 passos - 143 metros, o que nos levaria a concluir, em primeira hipótese, que o cemitério foi construído depois de 1835 e que a cruz de 1746 teria sido “deslocalizada” do adro da Igreja, ou de algum cruzamento de caminhos, para o cemitério paroquial, situação exequível consabido que na nossa Vila existiam vários cruzeiros.
Esta hipótese – construção depois de 1835 - colhe com as fontes presentes no terreno do cemitério, pelos menos com 2 campas em que a morte ocorreu nos anos de 1877 e 1884.
Assim, é convicção do autor que desde 1835, no actual cemitério, fizeram-se os enterramentos dos defuntos desta Vila. Depois, com o andar dos tempos, melhoramentos significativos foram efectuados por parte das autarquias.
Novas obras de ampliação e melhoramentos, iniciadas em Fevereiro de 2009, se estão a processar para o tornar mais digno.
Por último, sempre dir-se-á que o tema cemitério, ou morte, não é um tema agradável mas devemos reter que a piedade, o respeito e o culto dos mortos só nos dignifica enquanto vivos.
Para os nossos leitores, sempre atentos, este tema tão controverso fica em aberto …
“Plus vident oculi quam oculos” vários olhos vêem mais que um olho !

5.3.09

1808 Tancos – Torre de Almourol – Rio Zêzere - Punhete

Tancos fica numa língua de terra, a base de uma íngreme montanha junto ao Tejo. Tem sofrido consideravelmente com as inundações daquele rio. Mesmo em frente de Tancos, desagua no rio Tejo o rio Culebra e, após violentas chuvadas, precipita-se sobre os edifícios de Tancos com tal impetuosidade que já deitou abaixo muitas casas, agora em ruínas. Por isso, vários habitantes mudaram-se mais para baixo, para a Barquinha, e levaram consigo o espírito de comércio.”
Adam Neal refere que a Vila de Tancos sofria com a inundação do Rio Tejo, o que não é novidade. O que nos surpreende é a violência do rio Culebra (vindo do lado nascente do Arripiado), com a destruição de várias habitações de Tancos, isto antes de Novembro de 1808.
Eis uma sustentável explicação para compreender a ascensão da Barquinha, no adjectivo do mesmo autor “florescente aldeia da Barquinha”.
Há, face às constantes cheias que se verificavam na época, uma deslocalização de população mercantil de Tancos para a Barquinha. Certamente um local mais calmo, e menos fustigado pelas cheias, facto histórico que importa reter.
Mais adiante refere o atento autor,
Cerca de um quarto de milha adiante da povoação, a meio do Tejo, ergue-se uma rocha de granito coroada com as ruínas de um antigo castelo mourisco, chamado Torre de Almourol. Estas ruínas são extremamente pitorescas e um belo espectáculo quando vistas da colina acima de Tancos. Aproveitei um pequeno barco de pesca, cujo pobre dono me chamou quando eu ia pela praia, oferecendo-se para me levar até à ilha. Tem muitos choupos, e as ruínas estão cobertas de figueiras-do-inferno. Quando estas plantas se cobrem de flores amarelas, esta planta faz uma linda sebe. Dá um pequeno fruto, de sabor bastante agradável. As senhoras de Lisboa costumavam oferecer este fruto aos nossos jovens oficiais. Se lhes pegavam apressadamente, ficavam com os dedos muito feridos por um número infinito de picos minúsculos, invisíveis, que são muito difíceis de extrair. O pobre inglês berra, as jovens riem, mas os nossos compatriotas amaldiçoam a brincadeira. A este fruto chamam os portugueses figos-da-inferno, e bem merece o nome”.
Deveras curiosa é a descrição da ilha do Castelo de Almourol em 1808, nas suas palavras: “extremamente pitorescas e um belo espectáculo!”.
Recordamos que as primeiras descrições do Castelo constam nos registos paroquiais ou autos de posse do século XVIII e nos artigos de Dicionários de Américo Costa (1868-1869) e de Pinho Leal (1873-1890).
Na sua carta diz-nos, também, que existem inúmeros choupos e figueiras-do-inferno na ilha. Estas adornavam-na o que o levou, certamente, perante tal beleza, a falar das damas de Lisboa e das sua brincadeiras, isto apesar de vivermos em tempo de guerra.
Continuando na sua viagem à beira do rio Tejo, no sentido da sua nascente,
Diz Adam Neale,
Ao sair de Tancos, seguimos por uma extensa charneca até chegarmos às íngremes margens do rio Zêzere, bem cobertas de olivais. Depois de atravessarmos o rio numa ponte de barcas, entrámos na povoação de Punhete.
Punhete tem uma situação favorável, numa língua de terra formada pela junção do Zêzere com o Tejo. Na ponta extrema estão as ruínas de um velho castelo, junto do qual fica o porto de Punhete, que, quando por lá passámos, estava apinhado de barcos, que levavam carregamentos de marmelos, maçãs e castanhas para o mercado de Lisboa.”
As ruínas a que se refere o autor são as do castelo de Ozêzar que existia, pelo menos, desde 1169, data da sua doação.
Facto curioso é em Punhete (Constância) haver uma ponte de barcas que era montada na Primavera e desmontada no Outono.
Ora, no ano em que Adam Neale escreve a sua XXIV carta, mais precisamente em 3 de Novembro de 1808, neste dia, a ponte de barcas permitia atravessar o rio Zêzere.
Todavia, singular é que, um ano antes, em Novembro de 1807, quando Junot procurou atravessar o rio Zêzere, já a ponte das barcas estava desmontada, seguramente por astúcia dos portugueses tendo em vista retardar a chegada a Lisboa do Exército Napoleónico e permitir a fuga da família real para o Brasil.
Por último, acontecimento invulgar é o grande número de barcos nesse dia em Constância “o porto estava apinhado”. Ora se no dia anterior, 2 de Novembro de 1808, na Barquinha, nas suas ruas ecoavam os sons dos malhos de construção de barcos e o rio Tejo mostrava muitas velas brancas, tudo isto atesta, inequivocamente, que o rio era o meio privilegiado de circulação ao longo do qual se transportavam mercadorias (fruta, legumes, lenha, carvão, etc.) para abastecer os mercados de Lisboa e meio para a migração das populações dos campos para a cidade.
Para termos uma noção dos meios materiais e humanos que conviviam no rio vejamos os quadros infra:
A - Quadro de Adrien Balbi, "Essai Statisque", Paris, 1822:
Localidades:
Barquinha:Barcos = 25; Tripulantes=75
Tancos: Barcos = 14; Tripulantes=46
Paio de Pelle: Barcos = 77; Tripulantes=154
Atalaia: Barcos = 30; Tripulantes=260
B - Censos de 1822, conforme distribuição das profissões por localidades, Memórias da Academia Real das Ciências de Lisboa:
Localidades:
Tancos; Gentes do Mar= 41
Paio de Pelle; Gentes do Mar= 159
Atalaia; Gentes do Mar= 246
Enaltecemos a memória destas Terras, as Terras dos nossos antepassados e dos nossos egrégios ascendentes, fervilhante de vida e de comércio nas margens do Tejo, dignifiquemo-las para que os vindouros digam o mesmo de nós.
AGRADECIMENTO: AO MEU AMIGO JOSÉ LUIS ASSIS (UNIV. ÉVORA) QUE ME OFERECEU AS OBRAS ABAIXO INDICADAS, FICO ETERNAMENTE GRATO!
Bibliografia
- Sousa, Maria Leonor Machado, “A Guerra Peninsular em Portugal, Relatos Britânicos”, Casal de Cambra, Caleidoscópio, 2007.
- Neale, Adam, “Letters from Portugal and Spain” Comprising an Account of the Operations of the Armies Under Their Excellencies Sir Arthur Wellesley and Sir John Moore from the Landing of Troops in Mondego Bay to the Battle at Corunna. French Revolution Collection. London: Richard Phillips, 1809.
- Censos de 1822, in Memórias da Academia Real das Ciências de Lisboa.
- litografia de: MELO, Conde de, 1801-1865, Ruinas do castello d'Almorôl, sobre o Tejo [Visual gráfico / Conde de Mello copiou do natural ; Franco lith.. - [Lisboa?. : s.n., ca. 1830?] ([Lisboa] : Off. R. Lith. - 1 gravura : , Data atribuída segundo o período de actividade da impressora. - Dim da comp. sem letra: 12,2x16,6 cm (com esquadria) - Biblioteca Nacional
- Pintura de: HAY, Leith, fl. ca. 1820-1830 (?) Punhete from the oposite bank of Tagus [Visual gráfico / drawn by Colonel Leith Hay ; eng.d by W. H. Lizars. - London : John Hearne, [ca. 1825?]. - 1 gravura : água-forte, aguarealada - Biblioteca Nacional

28.2.09

A obra "Os Patriarcas de Lisboa"

No dia 26 de Fevereiro de 2009, na Sacristia nobre do Mosteiro de S. Vicente de Fora, o P.e José Manuel Laranjeira, José Luís Assis, Júlio Barata, António José Bernardo, Henrique Fortunato e Fernando Freire, estiveram presentes no lançamento do livro “ Os Patriarcas de Lisboa”, iniciativa do Centro Cultural do Patriarcado de Lisboa e da Alêtheia Editores SA, dia em que se comemorava o 30º aniversário episcopal de D. José da Cruz Policarpo.
Numa Sacristia, de enorme beleza, apinhada de ilustres convidados, fez o discurso de apresentação da obra a Dr.ª Leonor Beleza. Incidiu a sua intervenção no binómio poder temporal versus poder espiritual ao longo de 3 séculos de história que compreende os anos de 1716 a 1998. Por último, Dom José Policarpo fez uma breve intervenção, na qualidade que já nos habitou, onde referiu que é importante reavivar a memória pois toda a história humana é um contraste de luzes e sombras pelo que, sem esquecer as sombras, é essencial preservar a luz.
Ficámos deveras encantados com o trabalho realizado, pela Dr.ª Celina Bastos e Dr. João Soalheiro, sobre o 2.º Patriarca de Lisboa D. José Manuel da Câmara (1754-1758), natural da Atalaia e aqui sepultado (fls 23 a 32 do livro).
Do livro retirei a seguinte descrição do seu funeral:
"As cerimónias fúnebres ti­veram por palco principal o palácio da família e a Igreja Matriz. No primeiro, com as salas decoradas a damasco carme­sim e franjas de ouro, celebrou-se ofício de corpo presente, no dia 11, com participação de todos os párocos de Tor­res Novas e seu termo. Os religiosos arrábidos de Santo Antoninho, da mes­ma Vila, cantaram as vésperas, coube o primeiro nocturno de matinas aos car­melitas, o segundo nocturno aos fran­ciscanos de Santa Rita da Ericeira e de Santo Onofre da Golegã, e o terceiro aos antoninhos de Nossa Senhora do Loreto de Tancos, tendo o clero canta­do as laudes e restante ofício. No fim, o caixão do extinto patriarca foi encer­rado num outro, enviado de Lisboa, e de seguida trasladado à Matriz.
Nesta, a 12, celebrou-se missa de pontifical, a que presidiu o principal Faro.
Os despojos do segundo patriarca de Lisboa foram encerrados num túmulo erguido na capela-mar da Igreja Matriz de Atalaia.
O túmulo poderá ter sido encomenda do irmão do patriarca, o 1.º marquês de Tancos, que lhe sobreviveu, ou, como querem alguns, de sua devotada sobrinha, D. Constança Manoel, que re­colheu a sucessão da Casa de Atalaia, por morte de seu pai, D. João Manoel de Noronha, em 1761. E talvez não seja demasiado venturoso, atendidas as afinidades, ver na sua traça o engenho do arquitecto Mateus Vicente de Oliveira ou do arqui­tecto Joaquim de Oliveira, a quem anda atribuído o desenho da Igreja das Mer­cês, em Lisboa, tão ligada que se achou à família dos Manoéis…"

Publicação pioneira no panorama da historiografia religiosa em Portugal, de enorme qualidade científica e fotográfica, assegurada pela colaboração de prestigiados investigadores (as) nacionais, esta obra divulgará, pelo País, uma das mais Ilustres figuras históricas da nossa Vila da ATALAIA, D. José Manoel, e também a nossa Igreja Matriz – Monumento Nacional, in fls. 31, merecendo, certamente, a terra de todos nós, novos interesses por parte dos investigadores. A obra contribui para que sejamos mais conhecidos. Queiram os Atalaienses rever e renascer as tradições históricas da hoje florescente Vila ... eis o meu desafio.


Retrato do Patriarca D. José Manoel, a óleo sobre tela, Mosteiro de S. Vicente de Fora - Museu

23.2.09

1744 - Atalaya - Tombo da Quinta do Vale do Seixo


O Tombo abre assim,
A primeira folha com desenho, com o lema VALOR, VITÓRIA E IMPÉRIO, um escudo com as armas a vermelho, ouro, verde, amarelo, castanho e creme, pintado à mão e com a data de 1744, insígnia cardinalícia onde se encontra as armas dos Condes da Atalaia.
A segunda folha, com uma cercadura artisticamente desenhada, figurando fo­lhas, frutos, flores e laços e, no centro: “Tombo da Quinta do Vale do Seixo, que mandou fazer o Exm.º e Rev.º Principal D. José Manoel, do concelho de Sua Magestade, e Deão do Collegio da Santa Igreja de Lisboa” A vermelho e preto.
A folhas 3 surge a seguinte inscrição:
"Juiz Doctor Manoel de Faria Soutto - Anno de 1744.
Ano de nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo … aos 15 dias do mês do Junho … a instancia de D. José Manoel, do concelho de Sua Magestade, e Deão do Collegio da Santa Igreja de Lisboa … para que tombasse medida e demarcasse a sua quinta ..
As folhas seguintes, todas enumeradas e rubrica­das, estão escritas em português arcaico (melhor diríamos trabalhadas artisticamente) com largos floreados e arabescos.
O tombo conta que esta Quinta do Vale do Seixo está situada no termo do concelho de Atalaya e Torres Novas, tem casa de brasão, casas térreas, moinho, lagar de azeite, terras de pão, olivais, vinha, pomar, matos e pinhais.
Procede à sua demarcação, identifica os terrenos confinantes, (para este acto são chamados os seus representantes legais e colocados éditos) aplicados marcos na divisão, procede à identificação dos seus proprietários e mede toda a sua extensão.
O Tombo acaba com vários dizeres, duas assinaturas do mesmo Juiz. Antes das assinaturas tem como que um selo desenhado à mão e termina com uma cruz e quatro pontos no alto, certamente o selo de D. José Manoel. No final da última página, em baixo, está escrito que todas as páginas vão numeradas e rubricadas pelo proprietário. Segue-se a data: Atalaya 21 de Junho de 1744.
Este tombo da Quinta do Vale-do-Seixo, com 80 folhas de pergaminho, já amareladas pelo tempo, é um testemunho de que aqui existiu, no século XVIII, uma quinta dos Condes, com pelo menos 2 brasões, um dos quais se encontra colocado na parede interior, lado nascente, da Junta de Freguesia.

Agradecimento: Quero agradecer à D. Luísa e Sr. Manuel Oliveira (proprietários da Casa do Patriarca - Turismo Rural) que me fizeram o especial favor de ceder, para a consulta, o Tombo da Quinta do Vale Seixo donde foi possível extrair os elementos supra referidos.

9.2.09

A sedução pelo desconhecido e pelos Descobrimentos dos habitantes do nosso concelho.

No Século XV, mais precisamente entre 1414-1415, e no rio Zêzere, junto a Punhete (Constância), fazem-se os derradeiros preparativos para a conquista de Ceuta, cidade onde chegavam os produtos orientais vindos da Índia, pelas Rotas Caravaneiras do Sahara, terra onde abundava o ouro, as especiarias e, essencialmente, local estratégico que permitia controlar a navegação entre o mar Mediterrâneo e o oceano Atlântico.
Nas nossas terras, no Rio Zêzere, perto de Punhete, longe da capital do reino e dos espiões, procuravam os nossos patrícios não chamar a atenção dos estrangeiros e proteger a missão da sua curiosidade, o que de todo não foi conseguido.
Um relatório, redigido em Lisboa e datado de 23 de Abril de 1415, do espião castelhano Ruy Dias de Vega ao rei D. Fernando I de Aragão dava-lhe a notícia dos preparativos da Armada que então se constituía em Portugal e nas margens do nosso rio Zêzere (Sesar).
Dizia então o relatório: «EI Prior et los maestres mandan fazer senhas galeotas de sesenta rremos cada una, saluo el maestre de Santyago. Et fazenlas en el rryo de Sesar [Zêzere] que es cerça de Punete, et entra en Tajo aquel rrio a syete leguas de Santareno Et ellos estan todos en sus tierras, adereçando pela la partyda, que an todos de partyr con el rrey
Ora, se as embarcações eram feitas na nossa região e seguiam rio abaixo, para Lisboa, é certo, e natural, que os residentes acompanharam os preparativos secretos da armada criada no rio e daqui também nelas partissem nas suas guarnições (foram cerca de 20.000 homens que compuseram a expedição) e, obviamente, se envolvessem na novel aventura dos Descobrimentos.
O escritor, Diogo Gomes, conta-nos, também, o seguinte:
Em certo tempo o Infante D. Henrique desejando descobrir lugares no Oceano Ocidental, com o intuito de averiguar se existiam ilhas ou terra firme pra além das descritas por Ptolomeu, mandou caravelas a procurar essas terras. Seguiram viagem e viram a ocidente trezentas léguas além do Cabo Finisterra e vendo que eram ilhas, entraram na primeira. Aquelas caravelas voltaram a Portugal a comunicar ao referido Infante as descobertas que tinham feito, com o que ele folgou muitíssimo.... O Infante D. Henrique mandou certo cavaleiro por nome de Frei Gonçalo Velho, para capitanear as caravelas que conduziam animais domésticos que se distribuíram por cada uma das ilhas...” .
Consabido que Frei Gonçalo Velho povoou as ilhas Ocidentais dos Açores e que era Comendador de Almourol, poder-se-á ter como certo que o mesmo levou animais e gente da sua comenda para a aventura dos Descobrimentos fazendo participar na maior empresa nacional de todos os tempos os filhos desta terra.

Bibliografia:
Silva, Joaquim Candeias, Abrantes na Expansão Ultramarina, Gráfica Gil Ldª, 1992
Dias, João José Alves, Paio de Pele - A vila e a região do Séc. XII ao Séc. XVI, Assembleia Distrital de Santarém, 1989
Gravura retirada da página da Direcção-Geral de Arquivos.

25.1.09

As ordenanças e milícias – os nossos Capitães

Por meio de um aviso (carta oficial) expedido em 22 de Outubro de 1785, Francisco Xavier Teles de Melo, secretário do Conselho de Guerra ao Visconde da Lourinhã, ao tempo governador das Armas do Alentejo, definia o que eram as ordenanças:
«as Ordenanças não são verdadeiramente Corpos militares, e só se devem considerar como um viveiro de Paisanos, donde saiem, e para onde se recolhem os indivíduos, que hão-de ir servir nos Corpos regulares, e Auxiliares, e para onde voltam os que se inutilizam», sendo que «os Oficiais destes Corpos [não têm] senão o nome de Oficiais, honrando-se com aqueles Títulos para se encarregarem das divisões, e subdivisões em que for preciso dividirem-se todos estes paisanos para melhor se compreenderem, e sem confusão se poder dispor deles …”
Também, no Auto das Cortes, Cidade de Lisboa, em Dezanove de Setembro de 642, Estado do Povos, Lisboa, António Alvarez Impressor Del Rey N.S., 1645, descrevia:
«Que suposto o Reino contribuio com o dinheiro para vinte mil infantes, e dois mil e oitocentos cavalos, não serão obrigados os povos, nem os lavradores acudir as fronteiras, senão nas ocasiões precisas, que se declaram no Regimento das Décimas, tirados os auxiliares, pessoas desobrigadas, que se hão de tirar de cada companhia [de Ordenanças] en todas as Comarcas para estarem prevenidos, e armados para sem opressão dos povos acudirem nas ocasiões, e aos lugares onde for necessario.» págs. 22 e 23, e Doc. n.°3 - Alvará de 24 de Novembro de 1645.
Os oficiais que integravam das Ordenanças faziam parte da nobreza local.
Eis a lista dos militares do nosso concelho que, à data, tinham um poder de patrocínio social nas comunidades locais, poder certamente invejado uma vez que eram estes que escolhiam quem ia para a guerra ou quem ficava dispensado de tal dever.
Atalaia
LUIS DE BARROS DA SILVA, Capitão de Ordenanças da vila da Atalaia, comarca de Tomar, que vagou por morte de José Ferreira Maia. Em 13-VIII-1775.
MANUEL ESCUDEIRO DE SOUSA, Capitão de Ordenanças da vila de Atalaia, que vagou por morte de Luís de Barros da Silva. Em 11-V-1807.
Paio de Pele
FRANCISCO DE MELO CARRILHO VELASCO, Capitão de Ordenanças, que vagou por morte de Belchior Garcia. Em 03-III-1760.
JOSÉ SIMÕES LOBATO, Capitão de Ordenanças, que vagou por morte de João da Silva Barbosa. Em 02-XII-1806.
JACINTO MANUEL FRANCISCO, Capitão da 14.ª Companhia de Ordenanças. Em 27-IV-1830.
Tancos
FERNANDO JOSÉ DA MOTA FIGUEIREDO, Capitão de Ordenanças, que vagou por morte de António Marques Anjo. Em 03-III-1760.
MANUEL DA SILVA, Capitão de Ordenanças, que vagou por morte de Fernando José da Mota Figueiredo. Em 07-VIII-1789.
EUSÉBIO DA SILVA CARDOSO, Capitão de Ordenanças agregado. Em 30- XI -1806.

Bibliografia: Borrego, Nuno Gonçalo Pereira, As Ordenanças e Milícias em Portugal – subsídios para o seu estudo, Guarda-mor, 2006
Fotografia: Imagem retirada da página on-line da Direcção-Geral de Arquivos

16.1.09

A população do nosso concelho, in censos de 1822, 1883, 1940 e 2001


Há 125 anos, corria o ano de 1883, a Barquinha detinha 962 habitantes (almas) era cabeça de concelho (concelho que viria a ser extinto em 21-11-1895 e renascido por Decreto de 13-1-1898), pertencia à Comarca da Golegã, tinha estação de caminhos-de-ferro (linha de leste), direcção de correio e estação de telégrafo.
Naquele tempo a freguesia da Atalaia tinha 1319 habitantes. Recorda-se que em 6 de Novembro de 1836, por decreto assinado por Dona Maria II, dá-se a reorganização distrital sendo criado o Concelho da Barquinha e extintos os concelhos de Atalaia, Paio de Pele e Tancos, os quais passaram a freguesias do novo Concelho.
A Praia do Ribatejo (Paio de Pelle) possuía 1148 habitantes, em Tancos residiam 246 habitantes, era campo de exercícios militares e possuía estação de telégrafo.
Há 68 anos, por censos de 1940, Barquinha possuía 1173 habitantes, a Atalaia 1068 habitantes, a Praia do Ribatejo 2697 habitantes e Tancos 280 habitantes.
Há 7 anos, por censos de 2001, a Barquinha detinha 1426 habitantes, a Atalaia 1735, a Praia 2087 e Tancos 295.
Pelo gráfico acima podemos verificar que a população da Barquinha tem vindo progressivamente a crescer, a da Atalaia teve uma quebra em 1940 mas a partir dessa data aumentou, a da Praia desde 1940 tem vindo a diminuir e, por último, a população de Tancos, durante 125 anos, mantêm-se estável.
Neste pesquisa encontra-se omitidos os dados referentes à população da Moita do Norte, freguesia criada por Lei n.º 30/88, de 1 de Fevereiro já que em 1883 e 1940 pertencia à freguesia da Atalaia. Por censos de 2001 apresentava, esta freguesia, uma população de 2.080 habitantes.
No mapa supra (lado direito - carregar para ampliar) pode ver-se a distribuição das profissões por localidades, conforme consta dos Censos de 1822, in Memórias da Academia Real das Ciências de Lisboa. Da amostra é deveras interessante fazer uma pequena análise. O elevado número de "gente do mar" na freguesia da Atalaia (246), o grande número de oleiros (16) o que demonstra que esta terra sempre foi dedicada a esta arte, os carpinteiros (16) a que não será alheia a construção de embarcações para levar a lenha da Barquinha para Lisboa, e os moleiros (6) que, certamente, laboravam junto da ribeira da Atalaia, onde ainda hoje se podem ver vários moinhos em ruínas. Por último um dado curioso, e que se repete hoje em dia, o número de viúvas em 1822 era de 111 e os viúvos era de 34, ou seja há uma proporção de 3/1. Face a estes dados estatísticos podemos afirmar que as mulheres têm uma longevidade bem acentuada ... Perante estes factos, e consabendo que os homens ainda vão obtendo certas vantagens, será justo falar de um "sexo fraco"?
Fontes: Diccionario da chorographia de Portugal contendo a indicação de todas as cidades, villas e freguezias... / coord. por J. Leite de Vasconcellos. - Porto : Livraria Portuense de Clavel, 1884.
Picciochi, Margarida Gomes Coelho, Ata-laâ, Atalaya, Atalaia, Ed. Notícias do Entroncamento, 1987.
Instituto Nacional de Estatística

3.1.09

Bom ano de 2009 - "dinamismo e empreendedorismo"



E num ápice chegámos ao ano de 2009.
A minha mudança de ano ocorreu na capital da Europa, em Bruxelas, onde tudo se inicia e onde, quase tudo, se decide.
Hoje vou dissertar sobre a diáspora belga e do seu exemplo que quero reter neste novo ano de 2009. Na sequência da guerra nas províncias ultramarinas, e nos princípios da década de sessenta, muitas famílias portuguesas procuraram uma vida melhor na Bélgica e na França.
Mas, ao contrário do que acontecia na França, o governo belga nunca limitou a criação de empresas, sociedades ou do exercício individual de comércio aos emigrantes portugueses. Aliás, a Constituição Belga era já uma das mais liberais à época. Concedia a liberdade de actividade comercial a todos os residentes não permitindo qualquer discriminação entre cidadãos belgas ou de outras nações.
A excelência das capacidades profissionais e morais levaram os portugueses, rapidamente, a afirmarem-se na sociedade belga.
Quando estes atingiram uma dimensão significativa surgiram, também, junto dos bairros onde estes se instalaram pequenos espaços comercias (cafés, restaurantes, lojas, etc.) que passaram a ser explorados por portugueses e eram, e são, locais de encontro e de debate de causas nacionais. Com a adesão à CEE e com o benefício da livre circulação de bens, pessoas e serviços, e com a implementação da moeda única a comunidade portuguesa quase duplicou.
A sua presença, e influência, não passa despercebida ao simples transeunte. Os nomes desses locais de comércio vão desde os nomes de muitas de terras portuguesas à de símbolos nacionais.
São pessoas que não querem perder as suas raízes e as suas referências.
Gente com dinamismo e empreendedorismo que dão fruto numa terra que não é deles.
Transportemos para a nossa vida o valor do TRABALHO e do profissionalismo dos homens da diáspora e façamos, nós os residentes, de Portugal uma nação mais próspera.
Tudo depende de organização e vontade. Tenhamos estes princípios e valores, destes homens e mulheres, na nossa mão neste ano de 2009. Apelemos ao cumprimento dos nossos direitos mas também ao cumprimento dos nossos DEVERES. Teríamos, concerteza, um Portugal mais justo, mais rico e mais fraterno.

13.12.08

Homenagem a João Caetano

Não sei com que verbo hei-de fazer este artigo depois do que já disse, neste blog, sobre o Sr. João Caetano.
Há uma lei da natureza, mística e maravilhosa, que nos diz que três das coisas pelas quais nós mais ansiamos na vida – felicidade, liberdade e paz de espírito – são sempre alcançadas quando as damos a outra pessoa” autor desconhecido.
Numa época em que existe descontentamento, cepticismo, decepção, mal-estar e insegurança internacional é bom pegarmos no exemplo deste homem, ser de coragem para inovar, e acreditar que nesta terra a mudança é possível.
Todos nós temos que crer. De desanimados e espectadores desta mudança devemo-nos converter neste grande palco que é o mundo em sãos actores.
Foi isto que soube fazer o Sr. João durante 50 anos como oleiro, actor e cidadão.
Olhando para trás, nos anos 40 e 50, a vida era bem mais dura que na actualidade. Nem por isso o homenageado deixou de ir à luta e enfrentar todas as dificuldades que lhe apareciam no caminho da vida. Neste dia 7 de Dezembro de 2008 fiquei com a sensação, melhor certeza, que este homem viveu uma vida com prazer, com um sabor de felicidade e realização. No universo dos presentes, perto de 4 centenas de convivas, houve lágrimas sentidas dos novos e velhos companheiros, abraços de amigos, de gerações de artistas, houve festa em honra do Sr. João “Avança”.
Também, aqueles que se encontravam longe quiserem participar. À Quinta da Ponte da Pedra, na Atalaia, chegaram mensagens de Itália e do Brasil.
Reescrevo, pela enorme grandeza, a do seu amigo Sérgio Duarte: “João, poderia dizer muita coisa e afinal nem sei como dizer... Sei que a nossa querida Ivone Silva, que conheci graças a ti, era capaz de dizer melhor que eu e punha o pessoal a rir. Sei que outros artistas transmitiriam de outra forma diferente, mas temos a honrar da prata da casa. Peço a essa exímia fadista de Vila Nova da Barquinha, por quem sinto um carinho enorme e que daqui do Rio Grande do Sul lhe mando um abraço tão grande, como a extensão de oceano que nos separa, que cante para o nosso querido João um fado tão bonito e que a sua alma artista sabe dizer e ele sentir, como é o ... "Eu queria cantar-te um fado".... (escolha o tom).Por favor... não me emocionem mais, que as lágrimas... essas já estão nos meus olhos, ao escrever estas palavras. Vamos Julieta.... Vamos cantar esse fado ao nosso querido João. Julieta ao palco!.... Palmas a esta artista e....SILÊNCIO, CANTA-SE O FADO, na voz da Julieta!...”.
A mensagen foi cumprida e tanto a Julieta, como todos os outros artistas, (Teresa Tapadas, Sidónio Pereira, António Caeiro, Henrique Leitão, Maria José Valério, Raul Caldeira, João de Sá, João Chora, Luísa Soares, João Paulo Marques, Silvina de Sá, Tina Jofre, Pedro Correia, Rita Inácio e Manuel João Ferreira), actuando a título gratuito, cantaram e encantaram.
Era um dia de alegria e de paixão.
Em todas as actuações o João deixava vaguear os olhos enamorado por este panorama real.
A medalha que transportava ao peito, medalha de honra do concelho, as lembranças e as dádivas são pequenos símbolos para tão grande homem.
Justa homenagem da SIRA a quem arriscou e conseguiu ir demasiado longe !
Justa festa a quem, muitas vezes, fechou a cortina do palco mas também conseguiu ver a cortina que se abriu !

23.10.08

Maestro Arnaldo Gomes Coelho Zagallo Duarte Silva


Foi, manifestamente, o maior músico que passou pela Vila da Atalaia.
Na sua obra havia criatividade, dimensão e diversidade.
Um Homem que tinha a capacidade de compor música numa proximidade quotidiana com uma calma brilhante e sentido de vida.
Já em 1941 participava em diversos eventos musicais às vezes acompanhado da sua concertina e acordeão.
Aquando da sua presença em terras de África, nomeadamente em Nampula, Moçambique, a arte, para ele, não podia ser palavra fútil entre os seus pares e a sua família de Ferroviários.
Na final da década de 40 fazia-se ouvir com o seu piano em público e em variados concertos na sua terra adoptiva, Moçambique.
Parafraseando um seu velho amigo “Tinha uma excepcional paixão pela música clássica, culto, entusiasta pela vida, excepcional chefe de família, católico praticante, funcionário dedicado dos Caminhos de Ferro Moçambique, de educação esmerada, era enfim um homem com quem apetecia conviver. Era um homem de outros tempos, no nosso tempo.”Homem do mundo e para o mundo, não se estranhou a sua envolvência no Clube Ferroviário. Neste Clube existiam as secções de Orfeão, Banda de Música, Orquestra de Dança e Variedades, Grupo Bandolinista, Teatro, Coreografia e Educação Física.Maestro Arnaldo Duarte Silva, com a dinâmica que a todos contagiava, foi dirigente do Clube e um dos obreiros do seu Orfeão que ele muitas vezes ensaiou e dirigiu com brilhante proficiência.Associava sempre à sua enorme estrutura moral, francamente cavalheiresca – onde a nobreza de carácter, pendor cívico e dignidade impoluta avultavam – uma vasta cultura e boa formação intelectual.
Foi com a sua preciosa ajuda que o Cine-Clube de Nampula se tornou num pólo cultural do Norte de Moçambique.
Outra faceta peculiar do Maestro era o gosto pelos aviões pois cultivava o risco do perigo e espírito de aventura que o levavam a apaixonar-se pelas máquinas voadoras.
De regresso a Portugal foi vereador da Câmara Municipal de V.N.Barquinha e membro dos corpos sociais da Santa Casa da Misericórdia. Era a outra face do homem músico - homem cidadão.
Sabemos que a música é uma forma de potencializar determinadas expressões, aumentar a sensibilidade do homem e ao mesmo tempo perceber as suas próprias emoções. Com ela existe a alegria de conhecer os sons, e a alegria de transmiti-la é uma forma de liberdade. Foi isto que nos quis transmitir o Maestro.Diz a máxima latina “Mors omnia solvit” a morte tudo apaga, tudo faz desaparecer. Com a mistura maravilhosa de música, poesia e exemplo o Maestro Arnaldo contraria esta máxima.
Que o seu ensinamento vá passando de geração em geração. Que cada um de nós saiba perpetuar a sua memória para que no futuro se lhe dê apreço.
Homenagem, pois, a tão nobre Atalaiense.

13.9.08

A Barquinha e a Cardiga em 1808

Adam Neale (1) era um médico militar britânico. Em 1809, na sua obra "Cartas de Portugal e Espanha", descreve-nos factos do ano de 1808 sobre a Golegã, Cardiga, Barquinha e Tancos. Na sua viagem pelo país vai fazendo uma observação “clínica” do estado de Portugal, das suas gentes e da sua paisagem.
Da sua experiência na Guerra Peninsular, enquanto elemento da retaguarda do Exército Britânico, fez história , de enorme beleza, e descreve-nos, numa antítese brilhante, um país pacífico e ... um país que se encontra em guerra !
Tradução do original - Lina Palhota (2):
“ A estrada da Golegã passa por uma terra, quase coberta na sua totalidade por oliveiras, até chegar a uma aldeia, Cardiga, situada nas margens do Tejo. Também aqui os camponeses andavam na apanha da azeitona.
Na Cardiga existe um bonito e velho convento com uma altíssima torre redonda, suspensa sobre a estrada e que sobressai numa das paisagens mais bonitas do Tejo. Ao atravessar o pequeno curso de água para a Cardiga, deparamo-nos com uma paisagem soberba. Uma pequena ponte e a torre redonda apareciam em primeiro plano, numa paisagem onde se via à distância umas colinas bastante bem cultivadas, no meio das quais se podia ver, bem integrada, no outro extremo do já referido rio Tejo, a alva aldeia da Barquinha.
Muitas velas brancas, como que esvoaçando pelo límpido rio abaixo, em cujas margens, cobertas de canaviais, acena um alto bosque de choupos pretos e por baixo dos seus ramos a estrada conduzia-nos à Cardiga.
Barquinha é uma pequena mas próspera aldeia que floresceu com a decadência da antiga vila de Tancos.
Deparámo-nos aqui com uma grande azáfama e actividade.
Pelas ruas ecoavam os sons dos malhos de construção de barcos e os ásperos berros dos barqueiros que apinhavam os pequenos barcos que se encontravam na margem, à medida que iam embarcando as suas cargas de lenha, destinadas ao fornecimento de Lisboa.
Quando se deixa a Barquinha para trás a estrada serpenteia ao longo do Tejo junto do declive abrupto de uma montanha de granito, e mais ou menos a meia-légua de distância, chegámos a este lugar (Tancos), onde pernoitaremos.”
(1) Neale, Adam, “Letters from Portugal and Spain” Comprising an Account of the Operations of the Armies Under Their Excellencies Sir Arthur Wellesley and Sir John Moore from the Landing of Troops in Mondego Bay to the Battle at Corunna. French Revolution Collection. London: Richard Phillips, 1809.
(2) O meu muito obrigado à minha querida prima pela tradução do Inglês da época de 1800.

31.8.08

Férias nas ilhas


Depois de umas merecidas férias volto à presença dos leitores. Durante o mês de Agosto deliciei-me com a visita a 5 ilhas dos Açores: São Miguel, Santa Maria, Faial, Pico e São Jorge. Quão agradável foi apreciar a beleza das suas paisagens, a temperatura das suas águas cristalinas e a lhaneza dos seus habitantes. É verdade que tive o privilégio e inconfundível acompanhamento de mão amiga. Mas a vida é isso mesmo, a possibilidade de fazer amigos que nos acompanham nos bons e nos maus momentos. Em S. Miguel foi o Carlos, a Helena e a Inês, que nos trataram como príncipes e, inclusive, nos mimaram com iguarias comensais e regionais divinais. No Pico foi o Paulo, pois sabendo que estava na ilha, e depois de atravessarmos o Canal, foi-nos buscar ao cais da Madalena, serviu de guia para a visita às célebres quintinhas, património mundial, convidou-nos a visitar a “adega” e a provar o inconfundível néctar do Pico e, como se não bastasse, nos ofertou com umas vejas (peixe frito) de estalo.
Nas ilhas de águas tépidas, onde os peixes brincam com os humanos, era obrigatório o banho ao pôr-do-sol, rito que eu e o meu filhote realizámos em todas elas.
Entretanto, aproveitei para por a leitura em dia.
Como no ano anterior tida lido o primeiro romance de Miguel Sousa Tavares, “O Equador”, este ano deliciei-me com “Rio das Flores”. A obra, oferecida à minha cara metade, é uma enciclopédia histórica sobre 30 anos da história de Portugal com incidência na ditadura do Estado Novo, da problemática e do confronto sangrento da Guerra de Espanha e das potencialidades dessa nação imensa e sublime que é o Brasil.
Da sua leitura, que vivamente recomendo, retiro esta máxima inscrita a pág.527:
Há decisões que se tomam e que se lamentam a vida toda e há decisões que se amarga o resto da vida não ter tomado. E há ainda ocasiões em que uma decisão menor, quase banal, acaba por se transformar, por força do destino, numa decisão imensa, que não se buscava mas que vem ter connosco, mudando para sempre os dias que se imaginava ter pela frente.”
Até tive tempo para ler “O Ingénuo” de Voltaire, obra de forte pendor filosófico.
Por último, era de leitura obrigatória a obra oferecida pela Atalaiense, Maria Filipa Oliveira, “Não tenho nada a ver com isso ! …”, edição de 2005.
Para quem não conhece a escrita da nossa conterrânea nada melhor que reescrevê-la:
Eu sou aquela que poucos viram, que poucos conheceram e conhecem. De mim, geralmente, vêem só o exterior, pois nada mais mostro. Ninguém fora de casa sabe quando eu me sinto mal ou bem, doente ou saudável, triste ou alegre. A minha cara nunca o deixa entender.
É por isso que as pessoas me apelidam de antipática, mal disposta, brusca …
O que eles não sabem, é que até sou simpática, bem disposta, meiga e muito suave. Também não sabem, é que eu me pareço com o bambu, maleável quanto baste.
É que eles não sabem o que eu sei, nem nunca o saberão
”.
Afastado o tema leitura, tive a curiosidade em saber as novidades da Atalaia.
A festa anual correu bem mas houve menos lucros que no ano anterior. Ficará a comissão com menos capacidade financeira para socorrer os menos afortunados pelo destino.
A festa das “sopas”, na SIRA, teve boa concorrência o que significa que a colectividade se encontra viva e recomenda-se.
A UDA empatou 3-3, com a Meia-Via, em encontro amigável, e a equipa promete.
Com as baterias (re) carregadas principiemos um novo ciclo.

7.7.08

JOÃO CAETANO RECEBERÁ MEDALHA DE HONRA DO MUNICIPIO DA BARQUINHA

Em 20-2-2008, neste blog, escrevi:
Sr. João … pessoa de cultura e cidadão do mundo, por todos conhecido pela sua capacidade de acção a nível cultural e recreativo, sempre em prol das instituições do concelho e da freguesia. Uns dias é dirigente, noutros actor, por vezes comediante e sempre organizador. Mil disfarces para um homem onde a arte e o carinho de moldar o barro se confunde com a arte da encenação”.
O Municipio de Vila Nova da Barquinha vem reconhecer a sua obra, os seus actos altruístas e vai prestar homenagem a este Grande Atalaiense.
Tenhamos esperança que o seu exemplo seja guia no porvir, acreditando que a sua arte e o seu saber servirão de lição aos vindouros.
Honra, pois, ao homem generoso que, sacrificando os seus tempos de sossego e de convivência familiar, deu outra grandeza aos direitos de cidadania e aplica, na sua verdadeira acepção, a noção de democracia.

Transcrição integral do artigo do jornalista Lopes da Silva, no Jornal Notícias do Entroncamento, edição de 4-7-2008
Anda há mais de sessenta anos a moldar o barro com as mãos, restando a sua olaria como ultimo foco de resistência na Atalaia, e há cinquenta a dedicar-se às lides artísticas e às causas comunitárias. Chegou a hora de ser reconhecido oficialmente por essa vida em prol dos outros e das artes em extinção. O oleiro atalaiense João Caetano do Rosário Silva vai receber a medalha de honra do município de Vila Nova da Barquinha, distinção que rende homenagem a uma vida cheia de “fazer sempre o bem sem olhar a quem”. João Caetano do Rosário Silva, cidadão da Atalaia, onde nasceu há 71 anos, vai ser distinguido com a medalha de honra do município de Vila Nova da Barquinha. Mais conhecido por João Avança, alcunha herdada do pai e das corridas de mulas de antanho, dirige a última olaria atalaiense, onde laboram consigo dois seus irmãos, Fernando e Francisco, a derradeira duma geração de oleiros que chegou a atingir mais de três dezenas de oficinas artesanais do género na viragem do século XIX para o século XX. A medida, sob proposta do seu presidente Rui Picciochi, foi votada por voto secreto em recente sessão da Assembleia Municipal de Vila Nova da Barquinha, com dezasseis votos a favor e um em branco. Sendo a distinção de maior reconhecimento concelhio e apenas concedida a vultos excepcionais, na ocasião foi lembrada a acção que João Caetano tem desenvolvido ao longo das décadas em prol dos jovens e do seu lançamento nas lides musicais, até em programas de rádio de âmbito nacional, numa acção contínua que começou, nas actividades artísticas, há meio século (Fevereiro de 1958) num grupo de teatro da Sociedade Instrutiva e Recreativa Atalaiense. Depois disso nunca mais parou, ligado ao teatro, aos espectáculos de variedades, às passagens de modelos, às noites de fados, às festas infantis e juvenis e aos bailes de Inverno e às festas e romarias religiosas de Verão na sua terra e no seu concelho.
Ligado ainda a Associação dos Bombeiros Voluntários de Vila Nova da Barquinha e à Comissão de Culto da Igreja Paroquial da Atalaia, João Caetano tem dedicado muito de si dos outros, facto bem patenteado na estufa de flores (crisântemos e gladíolos) que cultivou para venda durante largos anos nas traseiras da olaria, com vista a financiar as obras de construção da casa mortuária da Atalaia e do restauro da capela do Senhor Jesus da Ajuda.
Exímio oleiro nas loiças de água (bilhas, cântaros e infusas), vasos e pegas de ornamentação, João Caetano tem sido igualmente um aclamado encenador e actor, prevendo-se que até final deste ano organize uma festa evocativa aos 50 anos da sua actividade artística. Referiu ainda recentemente ao boletim da autarquia barquinhense "Barquinha Viva" que deseja "trabalhar até poder e representar até saber ". Em Outubro de 2004, o Rotary Club do Entroncamento condecorou-o com o diploma de profissional do ano, procurando homenagear uma profissão que se encontra em vias de extinção e um homem que se dedica àquela profissão há mais de sessenta anos. Disse-se na altura que era uma espécie de rotário sem o saber, pois na sua qualidade de pessoa simples e boa, tem-se entregue às causas comunitárias dos outros sem olhar a pobre ou a ricos e fazendo sempre o bem sem olhar a quem. Observando o lema rotário “Dar de si antes de pensar em si”, João Caetano, que consta em pequeno queria ser médico mas que se terá realizado plenamente em muitos dos seus outros sonhos, tem uma sessão solene específica para a imposição da condecoração, que confere a consagração de mérito municipal a alguém que tem com as próprias mãos moldado sublimemente o barro vermelho e também os desígnios mais louváveis do seu destino, devotado as suas convicções pessoais e às causas culturais e sociais.

3.7.08

4.000 Visitas

É por um ditame de equidade que me proponho o gesto agradável do reconhecimento a todos os leitores por no período curto e temporal de 8 meses chegássemos às 4.000 visitas no presente blog. Mas a presunção é fácil e recomenda comedimento na leitura plural da condição humana.
Portanto, a todos os leitores e amigos o meu BEM-HAJA.
Fernando Freire

30.6.08

22JUN2008. O DESEJO DE PODER CONTAR COM OS APOIOS DAS AUTARQUIAS LOCAIS PARA MATERIALIZAR A FEITURA DE UM LIVRO

Depois de estar envolvido na iniciativa impar para as gentes da Atalaia, 250 Anos da Morte do Cardeal Patriarca D. José Monoel da Câmara, e de afazeres profissionais, volto à presença dos leitores para contar como decorreram as cerimónias.
Como era público procurava a comissão organizadora com este evento valorizar a memória do Patriarca, o seu legado histórico e a sua personalidade. Procurava-se, também, dar a conhecer a Igreja da Atalaia e a nossa terra a todos quantos nos quiserem visitar neste dia único para a nossa Vila.
De madrugada, pelas 6 horas da manhã do dia 22 de Junho, já a azáfama era intensa com a colocação de 417 vasos de flores junto da Igreja Matriz e ao longo da Rua Patriarca D. José. O Sr. António Vital e o Sr. Fernando disponibilizaram os meios de transporte, o Sr. João Caetano cedia todo a panóplia de flores das mais variadas qualidades e um grupo significativo de Atalainses (não faço a sua discriminação pois posso esquecer-me de alguém) a força braçal. Quando os Atalaienses saíram à rua encontraram-na enfeitada de mil cores. Pelas 9 horas já o meu amigo Zé Luís andava em bolandas com o protocolo e com o relatório da minudência em cima do pormenor não fossemos nós … “meter a pata na poça”. Socorro aqui, auxílio acolá, lá fomos resolvendo os pequenos detalhes do evento.
Pelas 15 horas, os gastos sinos da Igreja tocaram pela mão do Sr. António Vital. Recordo que nunca ouvi nesta terra um bater de sinos como aquele.
Passados breves instantes à nossa Vila chega Sua Eminência o Cardeal Patriarca D. José Policarpo. A população respondeu à sua presença aderindo, em grande número, às Comemorações. A Igreja estava cheia de fiéis e convidados. Todos queriam associar-se a este evento. O Pe. Laranjeira saudou os presentes. Referiu que é justo que nos orgulhemos do passado e das visitas Ilustres do presente, mas recordou que o orgulho, só por si, tende a separar, suscitando invejas e desconfianças. Ora o que se queria e quer é proporcionar encontro e estreitar laços. Encontro com o passado, avivando a memória e conhecendo a seiva que alimenta a alma comum de que somos herdeiros. E estreitar os laços no presente que nos é dado construir. Se assim for, ficaremos mais fortes e mais capazes de amar e servir a terra que nos coube em herança e que nos compete entregar aos vindouros, como casa comum, que queremos feita de Fraternidade, Justiça e Paz. O coro de Tancos cantou e encantou.
Pelas 17 horas tivemos um recital de música barroca e clássica pela Academia de Ordem de Cristo de Tomar. Momento de descontracção e de beleza pois os artistas foram sublimes. Desde já o meu agradecimento ao meu amigo e insigne músico José Soares.
Posteriormente, fomos chamados a ouvir e a estudar o património religioso, cultural, social e espiritual desta Vila da Atalaia. Quão agradável foi descobrir em cada palavra dos comunicantes os nossos antepassados, as suas obras e as pedras que aqueles moldaram.
Os conferencistas da 1.ª parte foram o Dr. João Soalheiro, membro do Centro de Estudos de História Religiosa, da Universidade Católica Portuguesa, e a Dr. Celina Bastos, investigadora do Museu Nacional da Arte Antiga. Demonstraram, por palavras, o seu contentamento por poderem fazer uma intervenção sobre D. José Manoel. Referiram que tinham ainda maior alegria por poderem contar com a presença tão distinta do Sr. Cardeal Patriarca de Lisboa D. José Policarpo. Em intróito exprimiram o desejo de poder contar com os apoios das autarquias locais para materializar a feitura de um livro que englobasse os temas das intervenções: “ A Vida e a obra do II Cardeal Patriarca de Lisboa” e “a Igreja da Atalaia”. (Desejo que é corroborado pela feitor do presente blog pelo que todos devemos diligenciar para que as palestras sejam publicadas.)
Contaram-nos os conferencistas que D. José Manoel da Câmara nasceu em Lisboa, segundo a opinião da maioria dos historiadores mas por testemunho, aparentemente incontroverso, do prior ao tempo desta terra, Bernardo Marques de Carvalho, conforme consta das Inquirições paroquiais de 1758, nasceu na Vila da Atalaia no dia 25 de Dezembro de 1686. Era o segundo filho de D. Luís Manuel de Távora, quarto Conde da Atalaia, e de D. Francisca Leonor de Mendonça. Estudou em Coimbra. Em 10 de Abril de 1747 foi criado Cardeal por Bento XIV. A partir deste momento não utilizaria mais o apelido “Câmara”. Foi eleito Patriarca de Lisboa em 7 de Março de 1754. Segundo o jornal “Gazeta de Lisboa”, D. José fez a sua entrada solene na patriarcal no dia 7 de Setembro de 1754 e durante 3 noites sucessivas iluminaram-se todas as ruas da cidade de Lisboa para celebrar este acontecimento.
Após ser nomeado Cardeal de Lisboa, no início de Setembro, deixa o Palácio da sua família, o palácio dos Marqueses de Tancos, para se instalar num palácio onde hoje é a Igreja de S. Roque que fora destruído pelo terramoto de 1755. Aquando do terramoto D. José encontrava-se neste palácio, no seu quarto e sentado numa cadeira. O telhado caiu. Dois criados transportaram-no para fora do quarto e logo após terem saído do edifício o mesmo veio a ruir, não o atingindo milagrosamente. O Patriarcado, após o terramoto, é mudado para uma barraca de madeira com oratório e mais tarde é deslocado para o Palácio da Junqueira juntamente com o núncio apostólico. D. José manda construir a Patriarcal no Príncipe Real e para aí muda, mas mais tarde este edifício irá ser destruído pelo fogo. A seguir ao terramoto presta auxílio espiritual à sua população. Um dia o Ministro do Rei, Sebastião de Carvalho e Melo, mais conhecido por Marquês de Pombal, interroga o Cardeal Patriarca se os mortos devem ser enterrados em valas comuns ou metidos em batelões e lançados ao mar. O Cardeal num gesto de grande sabedoria e de saúde pública advoga pela última hipótese pois se os corpos fossem sepultados em valas comuns contaminariam as águas do subsolo e tal facto, certamente, geraria elevado número de mortos. O Cardeal opta, à época, por uma solução sanitária, lúcida e determinada. Em confronto com algumas posições assumidas com o Marquês de Pombal, e gravemente doente, retira-se para a Atalaia onde veio a falecer em 8 de Julho de 1758.
A Mestre Amélia Casanova e o Mestre Horácio Peixeiro contaram-nos toda a história da edificação da Igreja da Atalaia mandada construir, cerca de 1528, por D. Pedro de Meneses, conde de Cantanhede. Falaram da sua traça, elaborada por João de Castilho, da decoração do portal principal e do arco cruzeiro, da autoria de João de Ruão, e foram até ao mais ínfimo pormenor do templo. Desde o simples capitel até à minúscula imagem gravada na pedra dos altares laterais. Uma investigação que apanhou de surpresa todas as pessoas que julgavam conhecer este belo monumento nacional e que afinal tem tanto para contar. Abreviando, foram preclaras investigações dignas de serem publicadas para memória futura, assim os homens tenham querer.
Posteriormente, serviu-se um Porto de Honra na Casa do Patriarca, aberto a toda a população. A D. Luísa, o Sr. Manuel e os seus incansáveis filhos receberam-nos num ambiente acolhedor e pleno de carinho. Decoraram o belo jardim e apresentaram lindas iguarias. A antiga casa de D. José Manoel da Câmara estava belíssima para receber o actual Cardeal de Lisboa e os convidados que assinaram o livro de honra.
Perante tamanha despretensiosa efeméride a Atalaia cresceu e escreveu mais uma página na sua História.
Aos homens e mulheres Atalaienses que colaboraram no evento, aos amigos que tudo fizeram para que o evento decorresse sem reparos, expressa a Comisão os seus sentidos agradecimentos. Pela minha parte, tive muito orgulho e honra em participar e em fazer o caminho juntos. Com a serenidade que fluí do trabalho realizado e com a consciência de que faremos sempre o melhor que nos for possível com os meios disponíveis, estou certo de que iremos prosseguir as nossas vidas procurando levantar uma Atalaia mais bela.

1.6.08

D. José Manuel da Câmara, II Cardeal Patriarca de Lisboa

Quem foi este Homem?
D. José Manuel da Câmara, segundo Patriarca de Lisboa, nasceu no dia 25 de Dezembro de 1686, era o segundo filho de D. Luís Manuel de Távora, (quarto Conde da Atalaia) e de D. Francisca Leonor de Mendonça. Estudou em Coimbra, como porcionista do colégio de S. Pedro, de onde passou a deão da insigne colegiada de S. Tomé, na capela real. Em 10 de Abril de 1747 foi criado Cardeal por Bento XIV.
Eleito Patriarca de Lisboa em 9 de Março de 1754, tomou posse por seu procurador o principal D. João de Melo, em 2 de Junho do mesmo ano, e foi sagrado a 25 de Julho na sua capela pelo núncio apostólico, assistido dos bispos de Constantina, D. José Henriques, e de Macau, D. Fr. Hilário de Santa Rosa. Dois dias depois foi-lhe imposto o palio pelo Arcebispo de Lacedemonia.
Fez a sua entrada solene na patriarcal no dia 7 de Setembro do mesmo ano.
Sobrevindo no ano seguinte o fatal terramoto que destruiu grande parte de Lisboa e reduziu a cinzas a igreja patriarcal, foi este prelado incansável em tomar da sua parte as possíveis providências para remediar tantos desastres que uns após outros se sucederam.
Os historiadores referem que o cardeal foi muito louvado pelo zelo com que acudiu, entre o ruir da cidade, às necessidades espirituais da população pois esta ajuizava com um castigo do Céu a imensa catástrofe.
Á data existiam graves acusações gravíssimas sobre os jesuítas, acusações que se baseavam em factos propositadamente excessivos para descrédito da Companhia de Jesus.
No fundo pretendia-se conseguir que o patriarca perseguisse os jesuítas. Certamente a instâncias do Marquês de Pombal que já lhes proibira que pregassem na igreja patriarcal, depois de serem proibidos de pregar na capela real. O patriarca D. José Manuel, pela sua parte, os não tinha em mau conceito. Isto infere-se do facto de nomear dois deles, os padres Machado e Romano, examinadores prossinodais, já depois daquela proibição. No princípio de Junho tentou-se arrancar ao patriarca uma ordem violenta de perseguição aos Jesuítas, a de suspender os jesuítas de confessar e pregar na diocese de Lisboa. O marquês de Pombal dirigiu-se ao paço patriarcal e ali instou por semelhante decisão, recorrendo a todos os meios que lhe inspirava a sua perversidade. Disse ao prelado que era aquela a vontade de El-Rei, e que seria irremediavelmente destituído da patriarcal se não cumprisse. D. José Manuel, mais de septuagenário e doente, hesitou perante a ameaça, e pediu tempo par deliberar. O ministro, vendo que ele fraquejava, redobrou de esforços, até que o obrigou, depois de cinco horas de resistência, a dar a ordem naquela mesma, tarde. Mesmo de noite a imprimiram, e na manhã seguinte apareceu afixada por toda a cidade de Lisboa.
Os próprios termos da ordem prelatícia acusam iniludivelmente a coacção em que foi dada. É do teor seguinte: “Por justos motivos, que nos são presentes e muito do serviço de Deus e do público, havemos por suspensos do exercício de confessar e pregar em todo nosso patriarcado aos Padres da Companhia de Jesus, por ora, enquanto não ordenarmos o contrário. E para que chegue a noticia de todos …”, etc. Esta ordem tem a data de 7 de Junho de 1758 ( Colecção dos Negócios de Roma, p. I, pag. 59). Vemos que o patriarca não especificava os motivos, e dava à sua resolução carácter temporário.
Esta coacção desgostou profundamente D. José Manuel e apressou-lhe talvez a morte.
Refere o autor das Anedotas do Ministério do Marques de Pombal que, por ocasião de receber o Sagrado Viático, o patriarca declarou publicamente a inocência dos jesuítas, e fez atesta-la num auto a que mandou dar toda a publicidade, para desengano dos povos e descargo da sua consciência. Será desnecessário acrescentar que tal documento nunca apareceu.
Os trabalhos a que se consagrou e as amarguras que sofreu contribuíram talvez para se lhe agravarem as moléstias que padecia. Finalmente abreviou-1he os dias da vida o desgosto das violências que o obrigaram a cometer contra os jesuítas. Foi a ares para o palácio da sua casa na vila da Atalaia.
Aqui, na Atalaia, a sua sobrinha, a Marquesa de Tancos, foi sem dúvida uma das pessoas que o amparou e confortou na dor e na doença durante um período de três anos vindo a falecer, nesta Vila, preparado com os sacramentos da Igreja, em 9 de Julho de 1758.
O túmulo de D. José da Câmara encontra-se no interior da Igreja da Atalaia junto à Capela-Mor.
Imputa-se a construção do monumento funerário a D. Constança Manuel, Marquesa de Tancos e sobrinha do patriarca e que na data da morte do prelado era herdeira da Casa da Atalaia.
A sua sobrinha para demonstrar a sua gratidão ao Patriarca honrou-o na morte com a construção de uma sumptuosa sepultura no lugar mais nobre da Igreja.
No monumento consta, em latim, a seguinte inscrição e da qual se dá a devida tradução:
"D. José Manuel I, Cardeal Presbítero da Santa Igreja Romana, Patriarca da Santa Igreja de Lisboa. Rege a Patriarcado durante 4 anos 1 mês e 19 dias, viveu 72 anos e 6 meses e 14 dias, faleceu no ano do Senhor de 1758, no dia 9 de mês de Julho, Sua Eminência faleceu em Atalaia e foi a 2° Patriarca de Lisboa, fora eleito em 1754 e foi cardeal em 1747”.
Bibliografia:
ALMEIDA, FORTUNATO (1970) - História da Igreja em Portugal, Academia de Ciências de Lisboa, Volume II, Livraria Civilização, Porto e Lisboa.
Boletim da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (1941), n.º 24, Ministério das Obras Públicas e Comunicações.

26.5.08

Azulejos da Igreja da Atalaia


Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Assunção, Atalaia
A igreja foi mandada edificar por D. Jorge de Meneses, filho de D. Pedro, Conde de Cantanhede, em 1528. O monumento foi engrandecido, durante os anos de 1630-1660, com azulejos de diversos tipos o que fazem deste templo um precioso tesouro de arte azulejar.
Nas paredes das naves laterais estão vastos tipos de tapetes e painéis como os da figura do lado.
“Todavia, o que sobretudo distingue a colecção azulejar da Igreja são os painéis, com figuração policroma, que se incorporaram nos tapetes ou que se colocaram na parte alta da nave central e no arco cruzeiro. Os painéis das naves laterais são de dimensão vária. Na parte alta vêem-se 9 painéis, de 10 x 9 cada incluindo a cercadura de cadeia. Estes pretendem ilustrar os primeiros versículos do Livro dos Génesis e ali vemos:
a) A criação do Homem.
b) Adão e Eva no Paraíso
c) Eva colhendo as maçãs.
d) Adão e Eva expulsos do Paraíso.
e) Caim matando Abel.
f) Construção da arca de Noé.
g) Dilúvio.
h) A arca no monte Ararat.
i) A Santíssima Trindade (este sobre o arco triunfal).
Esta série de painéis foi trocada do seu primitivo local e alterada a ordenação, a qual se apresentava menos respeitosa da cronologia bíblica. Foram estes trabalhos efectuados quando da reparação e reintegração da igreja feita em 1942. Por esta altura, e obedecendo a arbitraria fantasia dos responsáveis pela direcção dos trabalhos, foram colocados azulejos nas novas mesas dos altares colaterais. São azulejos antigos, aproveitados de alguma demolição e que, portanto, nada tem a ver com o primitivo recheio.”(1)
Segundo pesquisa efectuada pelo feitor do presente blog, os azulejos ali colocados são provenientes da antiga e desaparecida Igreja da Portela, Lisboa, cujo padrão era muito semelhante aos que decoravam a nossa Igreja.
Em consequência da intervenção de 1942 foram alteradas as localizações de diversos painéis.
“Ao nível da nave estão painéis figurados policromos com representações varias, cada qual mais saborosa na sua ingenuidade: Assunção, Baptismo no Jordão, Santa Catarina e São Domingos, alegoria Eucarística - esta muito notável -, Cena da Circuncisão e o Milagre da Mula”.
(1) J.M. dos Santos Simões, Azulejaria em Portugal no Século XVII, 2.ª edição, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1997.

1.5.08

Assinado o contrato de financiamento para a construção do Centro de Dia, Creche e Serviço de Apoio Domiciliário a idosos, na Atalaia.


A ADESFA - GÉNESE DO PROJECTO
Por escritura de 13 de Abril de 1999, publicada em Diário da República n.º 134, de 11-6-1999, III Série, pág. 12534-(5), foi criada a "Associação para o Desenvolvimento Cultural e Social da Freguesia de Atalaia" (ADESFA) que tinha como objecto a promoção de estudos e projectos para a implementação de acções de natureza social, nomeadamente o apoio à terceira idade, o apoio à educação e o apoio à cultura, podendo ainda praticar e promover quaisquer acções de desenvolvimento local, visando o fomento e a prosperidade da freguesia e o bem-estar da sua população.
Fizeram parte deste projecto da ADESFA, e espero não me esquecer de ninguém, os sócios fundadores: Alberto Nogueira, Anabela Nanques Lopes, António da Graça Vital, António Costa, Camila Dias, Fernando Freire, Henrique Fortunato, João Gralha, Joaquim Costa, Júlio Barata, Manuel Honório, Manuel Miranda, Maria Helena Deus, Nuno Gameiro, Olinda Vital, José Manuel Laranjeira, Rui Maia Faria e Vitorino Monteiro.
Em 14-02-2001, face à dinâmica da ADESFA, com a realização de eventos para recolha de receitas, por deliberação da Câmara Municipal de V.N.Barquinha, foi-lhe cedido um terreno na freguesia de Atalaia com cerca de 1800 m2 para a construção de um equipamento social.
Todavia, à data, havia grande dificuldade da ADESFA se constituir como IPSS.
Assim foi convocada uma Assembleia-Geral da ADESFA para o dia de 6 de Julho de 2001. Nessa reunião foi efectuado um caloroso debate sobre a questão da evolução da ADESFA para IPSS ou a opção de parceria com a Santa Casa da Misericórdia da Barquinha ou com Comissão Fabriqueira da Igreja da Atalaia. A vontade dos sócios, por maioria, foi pela última hipótese. Posteriormente, os corpos sociais da ADESFA vêm convidar a Paróquia para ser esta a avançar com a criação de um Centro Social ou Comunitário, mantendo-se a ADESFA como solidária cooperante.
Aconteceu que uma grande parte dos membros dos corpos sociais transitou da ADESFA para o Centro Social e Paroquial da Atalaia (CSPA).

A CRIAÇÃO DO CSPA
Os estatutos do CSPA vieram a ser aprovados pelo Bispo de Santarém, em 25 de Novembro de 2001. Em 8-11-2003, conforme publicado em Diário da República, III Série, n.º 259, pág. 24041, por declaração do Ministério da Segurança Social e do Trabalho, foi a CSPA reconhecida como pessoa colectiva de utilidade pública e procedeu-se ao registo definitivo dos Estatutos de IPSS.
O projecto nasceu, assim, da confluência de boas vontades, entre a ADESFA e a Paróquia da Atalaia e na mobilização de várias tendências e forças vivas da freguesia, para um projecto que se quer de todos e para todos.
Dos seus corpos sociais fizeram ou fazem parte, e espero não me esquecer de ninguém, Anabela Nanques Lopes, António da Silva Pereira, António José Bernardo, Carlos Lopes, Cristina Grilo, Fernando Freire, Henrique Fortunato, Júlio Barata, Manuel Miranda, Nuno Gameiro, José Manuel Laranjeira, Júlio Silva, Maria do Carmo Ramalhete, Sandra Neves, Serafim Marques e Valter Caldeira.
A CSPA tem como objectivo essencial dar expressão organizada ao dever moral de solidariedade e de justiça social entre os indivíduos, nomeadamente, no âmbito da administração de serviços de apoio a crianças, Atelier dos Tempos Livres (ATL). Numa 1.ª fase avançou com projecto pioneiro o ATL junto da escola do 1.º ciclo de Atalaia, projecto que ainda decorre.
Para que os objectivos pretendidos fossem alcançados o CSPA apostou na particularidade dos seus serviços e na vertente solidariedade, tentando dar respostas às necessidades humanas, trabalhando em prol das crianças e idosos, em especial das famílias mais carenciadas, prevenindo, compensando e remediando problemas que as afectam.
O CSPA assumiu uma grande responsabilidade perante a freguesia da Atalaia.
Dos seus Estatutos consta que deverá sobrelevar o espírito de convivência e de solidariedade social como factor decisivo do trabalho comum, tendente à valorização integral das pessoas, das famílias e demais agrupamentos e da comunidade, cfr. art.º 3.º, tarefa que procura cumprir com acção e a pensar nos outros.

A CANDIDATURA AO PROGRAMA PARES II
No ano de 2007 o CSPA efectuou a candidatura PARES II - Programa de Alargamento da Rede de Equipamentos Sociais que apesar de várias dificuldades veio a ser aprovado conforme notificação de 14 de Novembro de 2007.
Posteriormente, procedeu-se à assinatura do Contrato entre a Segurança Social e o CSPA, evento que teve lugar em Santarém no pretérito dia 24 de Abril de 2008.
O equipamento social ficará localizado entre as ruas Vale e Azevedo e Patriarca D. José, num espaço com cerca de 2300 m2.
Grande parte do terreno fora cedido pela Câmara Municipal mas para implementar o projecto era necessário mais espaço. O Sr. Júlio da Silva, num gesto de generosa grandeza, fez a doação de terreno confinante que passou para a posse do CSPA.

O PROJECTO APROVADO
O projecto prevê os seguintes espaços distintos: Centro de Dia, Creche e Serviço de Apoio Domiciliário.
O valor estimado para o custo da obra é de cerca de 600.000 euros. Para as infra-estruturas calcula-se um valor de cerca de 530.000 euros, para equipamento móvel, projectos de arquitectura, engenharia, fiscalização, etc. os restantes 70.000 euros.
As entidades públicas impulsionadoras deste arrojado projecto foram e são o Instituto de Segurança Social, o Centro Social Paroquial de Atalaia, a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia.
O financiamento por parte da Segurança Social é de cerca de 350.000 euros.
O prazo de execução da obra será de 2 anos pelo que se prevê a sua abertura para meados de 2010.

A LIGA DE AMIGOS
Para além dos membros da actual Direcção do CSPA, segundo os estatutos , existirá uma Liga de Amigos cujos objectivos serão os de apoiar e colaborar na prossecução das actividades do Centro, quer através de trabalho voluntário quer de contribuição pecuniária.
Recordamos que só as infra-estruturas custarão cerca de 600.000 € e que a comparticipação da Segurança Social é de 350.000 €.
Portanto, Atalaienses falta suportar os restantes custos da obra!
Assim, será essencial que todos nos envolvamos neste projecto - um projecto social de todos nós -inscrevendo-se na Liga de Amigos, pois uma participação activa da nossa comunidade fará, certamente, fazer acontecer esta obra que será uma riqueza para os presentes e para os vindouros.

28.4.08

1.º Evento "250 anos do falecimento do Patriarca D. José Manuel da Câmara"

Nesta vila de Atalaia nasceu o Sr. D. José Manuel da Câmara, segundo Cardeal Patriarca de Lisboa.
Também, na Igreja da Atalaia, Monumento Nacional desde 1926, na nave lateral do lado do Evangelho, se encontra o seu túmulo, pelo que cremos ser o único Cardeal sepultado fora da cidade de Lisboa.
No dia 27 de Abril promoveu-se o 1.º evento das comemoração dos 250 anos da morte deste Cardeal Patriarca, ocorrida em 9 de Julho de 1758.
Esteve presente entre nós o Grupo "Sine Nomine " da Holanda.
Este grupo interpretou cantos do século XVIII que fizeram a delícia das pedras do templo e a de todos os presentes.
Foram interpretes Bernadette de Koning, soprano; Annete, contrauto; Arthur Eijs, tenor; e Rob, baixo.
A Comissão organizadora agradece a amável presença deste Grupo Holandês a título desinteressado bem como à D. Maria Helena a sua nobreza e gentileza para com a gentes da Atalaia.
Bem-Hajam.

19.4.08

Relvado sintético na Atalaia

O Campo de Futebol da Atalaia vai ter um piso de relvado sintético. A obra custará um valor aproximado de 549 270,54 euros, sem IVA. O anúncio do concurso foi publicado no Diário da República, 2.ª série — N.º 77 — de 18 de Abril de 2008.
"II.1) DESCRIÇÃO
Arrelvamento do campo de jogos de Atalaia.
....
Principal local de execução, de entrega ou da prestação dos serviços: Campo de Futebol de Atalaia, Atalaia - Vila Nova da Barquinha. ....
II.1.5) Breve descrição do contrato ou das aquisições: Arrelvamento do campo de futebol em relva sintéctica, incluindo respectivas marcações, construção de pavimento desportivo envolvente e vedação do recinto
." ...
II.3) DURAÇÃO DO CONTRATO OU PRAZO PARA A SUA EXECUÇÃO
Período em dias: 120 (a contar da data de adjudicação).
Esperamos que com esta obra a Atalaia fique com condições de excelência para a prática desportiva, essencialmente para os escalões de formação (miudagem) porque devemos preservar o lema “ corpo são mente sã ".

5.4.08

Atalaienses presentes e ausentes


Gregário por condição própria o ser humano não se limita, como os outros animais, a formar grupos somente para os fins primários de defesa e de busca de sustento. A família, próprio grupo básico por ele formado, tem já em si mesma condi­ções de formação, de funcionamento, de permanência e continuidade que a dife­rencia, e distingue, dos outros grupos formados pelos animais não humanos.
O ser humano é tão fundamental e essencialmente sociável que só em sociedade, só formando grupos ou associações, consegue satisfazer a maior parte das suas neces­sidades uma vez que elas são tão variadas e tão complexas no campo social, económico, moral, intelectual, estético, político, altruístico, etc., que nem um indivíduo, por si só, nem uma só família, isolada das outras, as conse­guem satisfazer.O homem sempre tem lutado pelo direito de se «reunir» e de se «asso­ciar».

Estes pressupostos associativos levaram à fundação da Sociedade Instrutiva e Recreativa Atalaiense - SIRA – fundada no ano de 1930.
Durante estes largos anos grande número de Atalaienses participaram na vida cívica e cultural da nossa freguesia. Alguns eram naturais desta Vila e outros que, apesar de aqui não nascerem, sempre estiveram empenhadas em elevar bem alto o seu nome .
Porque o encontro de gerações era motivo para fazer festa e para reviver o passado realizou-se, no pretérito dia 5 de Abril de 2008, um almoço convívio e artístico subordinado ao tema “Atalaienses presentes e ausentes”.

A sala estava repleta. Vieram atalaienses de França. Alguns já não se viam à dezenas de anos. Aconteceu festa e diversão.
Foi uma tarde maravilhosa com a promessa de novo encontro para breve.
A todos quantos colaboraram gratuitamente para que este encontro fosse uma realidade os corpos sociais da SIRA expressam a sua enorme gratidão.




1.4.08

A Casa do Patriarca


A história

Esta casa senhorial foi comprada aos Condes da Atalaia em 1892 pelo Dr. António Zagallo Gomes Coelho, que era médico em Vila Nova da Barquinha, casado com Maria Luísa Lamas. A casa sofreu grandes alterações deste a sua construção, que se calcula ser dos finais do século XVI, início do século XVII. Os extensos jardins que a rodeavam estão hoje mais pequenos, mas a sua traça exterior foi mantida e preservada pelo gosto de quem, ao longo dos tempos, tentou não esquecer a história. A conversa com os proprietários indicia, de facto, todo o cuidado que existiu, especialmente a partir do momento em que decidiram criar o Turismo Rural, em preservar toda a tradição e história. A compilação de factos históricos, a manutenção da traça e características da casa, através da sua decoração e ambiente gerais, demonstram o cuidado interesse em não descorar pormenores que possam desvirtuar o conceito de Turismo Rural que aplicaram a esta casa senhorial. O nome Casa do Patriarca surgiu como homenagem ao Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Manuel da Câmara. O Cardeal Patriarca nasceu nesta casa em 1686. Era filho do quarto Conde da Atalaia D. Luiz Manoel Távora e de D. Francisca Leonor de Mendonça. Foi eleito patriarca de Lisboa em 1754 e voltou para a Atalaia para passar a última parte da sua vida com a sua sobrinha, D. Constança Manuel, marquesa de Tancos, que na data do seu falecimento (1758) já herdara a Casa da Atalaia. Como casa brasonada, um dos brasões foi entregue a D. Duarte de Atalaya por volta de 1935, outro poder-se-á ver incrustado numa das paredes da junta de Freguesia da Atalaia e outro ainda pertence a um particular. No interior, fruto da pesquisa de familiares, podem observar-se árvores genealógicas das famílias dos proprietários. Na genealogia dos Zagallos, encontra-se, por exemplo, o nome de Bernardim Ribeiro, enquanto na família Gomes Coelho, surge o nome de Júlio Dinis.

A recuperação e o projecto

Em 1976, quando o casal anfitrião regressou de Moçambique, a casa não tinha condições de habitabilidade. Mas quando há 12 anos decidiram, com a concordância dos 5 membros desta família, elaborar o projecto, sabiam que o processo seria difícil mas compensador. Com o apoio do ADIRN (Associação para o Desenvolvimento Integrado do Ribatejo Norte) candidataram-se ao projecto Leader 1, de fundos europeus para o desenvolvimento das economias rurais. Em 1995, a Casa do Patriarca estava a funcionar em pleno. Para garantir a qualidade do serviço que prestam, desde a fase de projecto, que os proprietários têm participado em acções de formação variadas: desde atendimento, hotelaria, seminários de turismo, até arranjos florais e restauração de móveis.A recuperação foi feita, tendo sempre em atenção a traça original, como já referimos. Esse esforço foi feito com todos os intervenientes na obra, desde arquitectos a pedreiros e com a orientação cuidada dos proprietários. Para manterem sempre este local como desejam, há que fazer um esforço de constante remodelação e conservação, que nesta altura, com os conhecimentos adquiridos e com o prazer que ressalta das suas palavras, é feita pelos próprios.

O Alojamento

Esta unidade, equipada com aquecimento central, tem seis quartos, com casa de banho privativa e televisão com recepção via satélite. Cada quarto tem o seu nome, quer baseado na decoração, quer em algum pormenor: Patriarca, Quinta, Namoradeiras, Saua Saua, Oriente, Almirante. Vejamos a explicação para o quarto das namoradeiras: existem no quarto duas namoradeiras de pedra junto à janela. Estas serviam para as meninas se sentarem da parte de dentro da janela (a fingir que bordavam) e os pretendentes a passarem (casualmente) rua acima, rua abaixo. Também tinha a função de pôr em dia os enredos que se passavam na terra. Já o quarto Saua Saua adquiriu o nome de uma praia lindíssima do norte moçambicano e está decorada com motivos daquele país africano. Há uma sala de estar, com mesa para os pequenos-almoços, onde pode conversar, ler, jogar... O jardim é totalmente cuidado pelos proprietários, com especial relevo para o filho mais novo, Luís Filipe, e há um trabalho realizado sobre todas as espécies que ali se podem encontrar. Existem ainda diversos artefactos antigos, e um tanque convidativo a um mergulho bem refrescante, para os dias mais quentes.Os hóspedes da Casa do Patriarca são na sua maioria estrangeiros, sendo que alguns são já clientes habituais. De qualquer forma, o casal refere que se tem notado ao longo dos anos que os portugueses apreciam cada vez mais este tipo de turismo e a adesão tem vindo a aumentar, não existindo, no entanto, uma faixa etária predominante. De qualquer forma, o ambiente acolhedor transparece em cada palavra do casal que nos recebeu com tanta amabilidade.
(In Jornal Imobiliário: http://www.imonews.pt/, artigo publicado em 3-1-2008.

Concedida autorização para transcrição no presente blog).

19.3.08

Atalaya - Inquirições Paroquiais de 1758

A mando de D. José I e de Sebastião José de Carvalho e Melo (mais conhecido por Marquês de Pombal) no ano de 1758 foram efectuados os interrogatórios ou inquéritos paroquiais a todas as vilas e aldeias de Portugal, documentos que actualmente se encontram no Arquivo Nacional da Torre do Tombo em Lisboa. As questões eram as seguintes:
1º. Em que Provincia fica? a que Bispado, Comarca, Termo, e Freguesia pertence?
2º. Se he del Rei, ou de Donatário, e quem he ao presente?
3º. Quantos visinhos tem, e o numero das Pessoas.
4º. Se está situado em Campina, valle, ou Monte; e que Povoações se descobrem della e quanto dista?
5º. Se tem termo seo: que lugares ou aldeas comprehende: como se chamão: e quantos visinhos tem?
6º. Se a Parochia está fora do Lugar, ou dentro d'elle ? e quantos Lugares ou aldeas tem a Freguesia, e todos pelos seos nomes?
7º. Qual he o seo Orago: quantos altares tem, e de que Sanctos: quantas Naves tem: Se tem Irmandades: quantas, e de que Sancto?
8º. Se o Parocho he cura, vigario, ou Reitor, ou Prior, ou Abbade e de que appresentação he, e que renda tem?
9º. Se tem Beneficiados: que renda tem; e quem os apprezenta?
10º. Se tem Conventos, e de que Religiosos, ou Religiosas; e quem são os seos Padroeiros?
11º. Se tem Hospital: quem o administra; e que renda tem?
12º. Se tem casa de Misericordia, e qual foi a sua origem, e que renda tem? e o que houver de notavel em qualquer destas cousas.
13º. Se tem algumas Ermidas, e de que Sanctos; e se estão dentro, ou fora do Lugar, e a quem pertencem?
14º. Se acodem a ellas Romagens sempre, ou em alguns dias do anno, e quaes são estes?
15º. Quaes são os fructos da terra, que os moradores recolhem com maior abundancia.
16º. Se tem Juis Ordinario da Camara: ou se está sujeita ao governo das Justissas de outra terra; e qual he esta?
17º. Se he couto, cabesa de Conselho, Honra, ou Behetria?
18º. Se ha memoria de que florecessem, ou della sahissem alguns homens insignes em virtude, Letras, ou armas?
19º. Se tem Feira, e em que dias, e quantos dura, e se he Franca, ou Captiva?
20º. Se tem correio, e em que dias da semana chega, e parte? e se o não tem, de que correio se serve; e quanto dista a terra aonde elle chega?
21º. Quanto dista da Cidade Capital do Bispado; e quanto de Lisboa, Capital do Reino?
22º. Se tem alguns privilegios, antiguidade, ou outras couzas dignas de memoria.
23º. Se ha na terra, ou perto della, alguma fonte, ou Lagoa celebre; e se as suas aguas tem alguma especial virtude.
24º. Se for Porto do mar; descreva-se o sitio, que tem por arte, ou por natureza; as embarcações que o frequentão, e que pode admittir?
25º. Se a terra for murada, diga-se a qualidade de seos muros, se for Praça d'armas descreva-se a Fortificação; se ha nella ou seo destricto algum Castello, ou Torre antiga, e em que estado se acha ao presente.
26º. Se padeceo alguma ruina no Terremoto de 1755, e em que: e se está já reparada.
27º. E tudo mais, que houver digno de memoria, de que não faça menção o presente Interrogatorio.

Respostas ao Inquérito sobre a Villa de Atalaya (texto adaptado):
“Desta vila de Atalaia que pertence ao Patriarcado de Lisboa, está situada num monte distante do Rio Tejo quase meia légua ao Norte, e da Corte que é a sua Capital, dezanove léguas. Foi da Coroa até o ano de mil quinhentos quarenta e dois, em que o Sr. Rei D. João III fez troca com o Sr. D. Fradique Manoel ascendente dos Exmos. Sr.s Condes de Atalaya, hoje Donatários dela, dando-lhes Sua Majestade as vilas de Atalaya, Tancos, Aceyceyra, e o Cazal de St. Marta (de Monção no termo de Santarém) com todas as suas rendas, privilégios, e isenções de juro, e herdade que são muito amplos, pela villa de Salvaterra de Magos.
É governada por um Ouvidor, e dois Juízes Ordinários que apresentam os Ex.mo Sr. Marques de Tancos, D. João Manoel de Noronha (6.º Conde de Atalaia e 1.º Marques de Tancos, mercê com que foi agraciado a 22 de Outubro de 1751. Era filho de D. Pedro Manoel de Ataide e de D. Margarida Coutinho. Foi general de batalha e mestre de campo general, governador e capitão general de Angola, governador da Torre de Belém, alem de outros títulos e cargos.) É termo das comarcas de Tomar. Desta vila se avistam as da Golegã que é a uma légua, a da Chamusca que são duas, a de Santarém que são cinco e tão bem se avistarão as labaredas do fogo em Lisboa na ocasião do Terramoto que houve no ano de mil, e setecentos, e cinquenta, e cinco, e a vila de Ourém que dista desta três léguas. A sua Igreja Matriz se acha dentro da mesma vila tem por Orago Nossa Senhora da Assunção. Com três naves e cinco Altares colaterais, uma com o Nome de Jesus, outro de Nossa Senhora do Rosário da parte do Evangelho, com a Epistola, uma do Espírito Santo, e outro de St.° António. Tem um Prior apresentado pelo Ex. Sr. Marques de Tancos, e um Cura, que apresenta o mesmo Prior, e tem de renda quinhentos réis ao todo. Tão bem tem casa de Misericórdia de que são Provedores alternativos o Exmo. Sr. Cardeal Patriarca, e o Exmo. Sr. Marques de Tancos, e tem anexo um Hospital (albergaria, local de abrigo e hospedagem) para os passageiros, e Casa para todo o Religioso que vai de passagem pedir para pernoitar, cuja renda liquida é cada ano trinta mil reis e teve seu principio no ano de mil, quinhentos, oitenta, e oito.
Estão dentro da vila a Ermida de S. Sebastião que algum dia serviu de Matriz, e uma Capela de Nossa Sr.ª da Esperança de que é administradora no presente Isabel Godinho do lugar da Moita desta Freguesia. Junto à mesma vila, nos seus arrabalde, estão duas Ermidas, uma de S. Luís (já desaparecida) de que são administradores os Exmo. Srs Condes de Atalaya; e outra de Nossa Sr.ª da Ajuda, em que se venera a Milagrosa Imagem do Sr. Jesus, com uma romagem todas as sextas feiras do ano, da qual foi Instituidor um homem particular chamado Nuno Velho desta mesma freguesia. Além destas há mais quatro Ermidas dispersas pelos povos donde se administra o Sacro Viático aos enfermos, uma de S. João no lugar da Baginhas (Entroncamento), outra de Nossa Sr.ª dos Remédios no lugar da Moita, outra de St.° António no lugar da Barquinha, e outra de Nossa Sr.ª do Recamadouro (N.ª Sr.ª do Rocamador) entre o lugar da Mouta e Barquinha. Nesta freguesia se achão os Lugares da Barquinha, que é um grande porto de comércio por ficar junto ao Rio Tejo, o Lugar da Moita, Baginhas, Pedregoso, Tojeira e Laveiros, e contarão em si todos com a vila seiscentos, e dois fogos, e mil nove centos, noventa, e sete pessoas de confissão. Os frutos que há na terra em maior abundância é azeite que só deste comerciarão os seus moradores, porque o pão, e vinho é muito pouco, e muitos anos não chega para a terra. Nesta mesma villa nasceu dos Exmos. Sr.s Condes de Atalaya, o Sr. D. José Manoel que hoje se acha elevado a Sagrada Purpura de Cardeal Patriarca de Lisboa. Por ela passa o correio quando vai para a Beira às terças-feiras e nas quartas quando volta para Lisboa todas as semanas, mas não tem saco fixado, e se usa de um particular em que o estafeta leva as cartas dos moradores deste termo.
Há só uma feira nesta villa a vinte de Janeiro, três dias franca, e no Terramoto de 1755 não experimentou ruína notável. O Rio Tejo que nasce em Castela, com os rios Nabão e Zêzere que se juntam"em Punhete (Constância) é navegável de Abrantes até o mar, aonde em Valada perde o nome. Há em todo ele muitas pescarias de sável de Janeiro até ao S. João, fataça e mugem em todo o tempo, de cuja pescaria vive a maior parte dos moradores desta freguesia. Dentro deste termo se achão doze lagares de azeite, dois de seco, e dois de água, e sete moinhos de pão, em duas ribeiras que só quando chove muito são arrebatadas, e de Verão muitas vezes lhe falta a água, e tão bem quatro moinhos de vento. Tem muitas excelentes águas de fonte, e muitas abundantes, porém mal estimadas pela incúria dos seus moradores. Estas são as coisas que se achão na minha freguesia de que posso dar relação e as mais de que o folheto pede nota, e eu aqui não toco, é porque as não há neste termo. Deus Vos Guarde e Abençoe. Atalaia 2 de Abril de 1758. O Prior Bernardo Marques de Carvalho

10.3.08

Sociedade Instrutiva e Recreativa da Atalaia (SIRA)


Plano de actividades para o ano de 2008
Na continuidade de esforços vão os órgãos sociais procurar manter o funcionamento da Sociedade com estabilidade, com uma convicção que assente num projecto cultural que exalte a comunidade e a qualidade de vida dos cidadãos da freguesia da Atalaia.
As apostas vão para actividades que conferem à Cultura espaço, oportunidade e edificabilidade.
Também, um desafio contínuo e persistente, o de recolha de fundos para o melhoramento das infra-estruturas da sede da Sociedade, palco único para a realização de eventos na nossa terra.
Objectivos do Plano
1. Crescimento do Associativismo.
Desenvolver a cultura, a distracção e fomentar o associativismo.
Incrementar actividades e projectos em interacção com o meio local, social e institucional.
2. Benfeitoria nas infra-estruturas
Afirmar que todos os rendimentos sejam (re)investidas nas infra-estruturas e nos equipamentos;
Pretensão de candidatura à comparticipação por parte do Estado para a instalação de equipamentos de utilização colectiva (Despacho n.º 7187/2003 – 2.ª Série, DR n.º 86, de 11 de Abril de 2003.)
3. Recursos financeiros
Subsídios do Estado e de outras entidades oficiais ou particulares, os auxílios financeiros das autarquias locais, quotas dos associados, receitas provenientes: da exploração dos espectáculos, do bar, da venda de flores, produto das heranças, legados e doações instituídas a seu favor.
4. Calendarização - As actividades serão calendarizadas ao longo do ano de 2008.
5. N.º de pessoas que participam no plano: Activas = cerca de 50 pessoas. Passivas = cerca de 1000 pessoas
6. Idades abrangidas: Todas as idades
7. Eventos projectados durante o corrente ano de 2008:
Baile de Carnaval - 4 de Fevereiro de 2008. Música de baile.
Desfile de Carnaval –5 de Fevereiro de 2008. Máscaras e prendas aos infantis. Animação
Almoço convívio – 5 de Abril de 2008. Porque o encontro de gerações é motivo para festa e reviver o passado pretende a Direcção da SIRA efectuar um almoço convívio e artístico subordinado ao tema “Atalaienses presentes e ausentes”.
Teatro – 2 peças a apresentar durante o ano
Noites de Fado - 2 eventos a realizar durante o ano
Festa da Flor – 2 eventos a realizar durante o ano
Festa comemorativa do 50.º aniversário do actor, dirigente e benemérito, Sr. João Caetano.
Para a realização deste evento irá solicitar-se o apoio da Câmara Municipal e da Junta de Freguesia
Exposições - A designar
Venda de flores – Parque Ribeirinho - Aos fins-de-semana
Corridas de carros eléctricos - Na sede na SIRA aos fins-de-semana
Estamos cientes da Vossa certa colaboração ao presente plano de actividades a realizar, no ano de 2008, na freguesia de Atalaia.

25.2.08

Os últimos oleiros da Atalaia



A palavra oleiros deriva da palavra latina “olla” que significa aquele de fabrica loiça grosseira. Nos terrenos da Atalaia havia e há abundância de greda (argila), material próprio para tal fabrico.
Por censos de 1882, e conforme publicação das Memórias da Academia Real das Ciências de Lisboa, existiam as seguintes construções e número de oleiros na Atalaia:
Construções ou fogos na Atalaia = 307. Oleiros= 19.
A Atalaia detinha, à data, um elevado número de pessoas dedicadas à olaria, certamente devido à abundância de greda na nossa região.
A abundância deste produto reflectia-se no tipo de edificação das casas, pois segundo Picciochi, Margarida Gomes Coelho, Ata-laâ, Atalaya, Atalaia, Ed. Notícias do Entroncamento, 1987: “Antigamente, as casas da Atalaia eram de um só piso, constituídas em adobe, porque o solo era rico em greda. Esta era amassada e deitada dentro dos moldes rectangulares de 35 por 30 cm que, depois de secos ao sol, formavam blocos de argamassa. Com eles se formavam as paredes e as casas ficavam à prova de humidade e bastante confortáveis … provavelmente também o chão era de adobe”. São ainda hoje visíveis algumas construções deste tipo junto à estrada nacional 110 na Rua Patriarca D. José. Segundo a mesma autora “ O primeiro oleiro que aqui se estabeleceu foi no século XVIII, no Rossio da vila e chamava-se Estanislau, de apelido. O filho, João Maria teve uma olaria muito grande, a qual foi passando dos filhos para os netos, até que acabaram com o negócio em 1954.” Mais adiante refere que: “Só existem – em 1987 – três firmas deste ramo, as quais não terão continuação. E assim, acabar-se-ão os oleiros da Atalaia. São seus proprietários – e os últimos de uma geração tão antiga: Moisés, filho e neto de oleiros, João e Amadeu Maia Faria, Francisco Manuel, João Caetano e Fernando Rosário Silva (irmãos).”
O vaticínio da autora há 20 anos era, infelizmente certo.
Neste momento o negócio já não gera rendimento para uma economia de estrutura familiar, consequência da concorrência e da introdução de novas tecnologias e empresariação do barro e das importações de países asiáticos.
Um dos últimos oleiros é o Sr. João. Trabalha na oficina, e na profissão, desde os seus 8 anos de idade. Conhece o ofício como poucos. Aprendeu essa profissão com os seus antepassados todos eles também oleiros. Pessoa de cultura e cidadão do mundo, por todos conhecido pela sua capacidade de acção a nível cultural e recreativo, sempre em prol das instituições do concelho e da freguesia. Uns dias é dirigente, noutros actor, por vezes comediante e sempre organizador. Mil disfarces para um homem onde a arte e o carinho de moldar o barro se confunde com a arte da encenação.
Seja-me, pois, permitido prestar a minha homenagem a todos os oleiros que perpetuaram esta arte na Atalaia . Tenho a certeza que a sua obra será deliciada pelos vindouros até porque sei, por conhecimento próprio, que existe espólio para expor.
Contemplai os últimos oleiros, hoje eles ainda aí estão, certo é que se encontram em extinção!
Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara” (Livro dos Conselhos).

24.2.08

D. João Manuel de Noronha

D. João Manuel de Noronha, 6.º conde de Atalaia, 1.º marquês de Tancos.
O título de Marquês de Tancos foi criado pelo Rei de Portugal, D. José I, em 22 de Outubro de 1751.
No reinado de D João V e durante a Guerra da Sucessão de Espanha, em 1711, era governador das armas da Província de Trás-os-Montes.
Notabilizou-se, à data, pela tomada de Miranda do Douro aos Castelhanos.
Esteve presente nos cercos de Alcântara e de Cidade Rodrigo e foi feito prisioneiro na batalha de Almanza, batalha realizada entre o exército aliado, luso-inglês-holandês e o exército franco-espanhol, concluída com a vitória espanhola.
Foi governador de Angola de 23 de Fevereiro 1713 a 1717 sendo conhecidas as suas desavenças com a Companhia de Jesus.
Era filho do 5.º conde de Atalaia, D. Pedro Manuel de Ataíde, e de sua mulher D. Margarida Coutinho.
D. João nasceu em 6 de Março de 1679 e faleceu em 19 de Janeiro de 1761.

18.2.08

Moro

Moro foi uma antiga Cidade situada nas ribeiras do Tejo, de cujas ruínas a maior parte dos Geógrafos dizem se levantou o Castelo de Almourol, posto que pela semelhança do nome, parece mais fundação dos árabes.
Cuidam alguns que existira onde agora vemos, ou Punhete, ou Tancos, ou Payo de Pelle.
Estrabo no livro 3. da sua Geografia lembra-se dela quando disse que Bruto fizera de Moro fronteira para conquistar os Lusitanos
( Padre João Batista de Castro, Mapa de Portugal Antigo e Moderno, ano de 1762)