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ATALAIA, Vila Nova da Barquinha, Portugal
Vivendo nesta terra há 30 anos vou perguntar à história e à tradição qual a origem desta localidade. Desejo saber quem neste atractivo sítio erigiu a primeira construção, quais as obras que foram nascendo, a sua idade e as mãos que as edificaram, quais os seus homens ilustres e os seus descendentes, quem construiu as estradas, os caminhos, as pontes e as fontes. Quão agradável será descobrir em cada pedra os nossos antepassados levantando com palavras o sonho do nosso futuro. Atalaia, 18-11-2007.

27.8.19

Almourol
Lenda do CRUEL DOM RAMIRO
Nos primeiros tempos da Reconquista, Dom Ramiro, um cavaleiro cristão, regressava orgulhoso de combates contra os muçulmanos quando encontrou mãe e filha, ambas mouras. A mais jovem trazia uma bilha de água, que assustada deixou cair, dada a rudeza com que o cavaleiro lhe pediu água. Irado, logo ali matou as duas pobres mulheres; e eis senão quando, surgiu um jovem mouro, que era nem mais nem menos, o filho e o irmão das vítimas, que de imediato foi aprisionado.
Dom Ramiro levou o cativo para o seu castelo, onde viva com a sua esposa e filha; às quais o prisioneiro mouro planeou assassinar em represália. Contudo, se à mãe passou a dar-lhe um veneno de ação lenta, acabou por se apaixonar pela filha, a quem o pai planeava casar com um cavaleiro da sua fé. Correspondido pela jovem, que entretanto tomara conhecimento dos planos do progenitor, os apaixonados deixaram o castelo e desapareceram para sempre.
Reza a lenda que, nas noites de São João, o casal pode ser visto abraçado no alto da torre de menagem e, a seus pés, implorando o perdão, o cruel Dom Ramiro.

(Fonte: Portugal Antigo e Moderno”, PINHO LEAL, Augusto Soares D’Azevedo Barbosa de).

2.7.19

Os três concelhos que se fundiram num só

Na origem dos concelhos estão as outorgas das cartas de foral ou de privilégios, em circunstâncias muito especiais quer por senhores quer pelos monarcas tendo por objetivos a recompensa dos serviços prestados, o chamamento de pessoas para o povoamento de um lugar, no sentido de lhe dar estabilidade e perenidade bem como criar as condições para a sedentarização das gentes numa clara politica de ordenamento do território tendo por sentido último a defesa estratégica de um reino a florescer. 
Por isso a origem dos concelhos tem a sua génese na outorga destes documentos, as cartas de foral ou privilégios dos concelhos de Atalaia, Paio de Pelle e Tancos.

No período antecedente à reforma liberal vigorou o regime jurídico criado pelo Regimento dos oficiais das cidades, vilas e lugares destes reinos de 1504, cujas normas passaram posteriormente a constar das ordenações Manuelinas e Filipinas..
Os concelhos foraleiros de Atalaia, Paio de Pelle e Tancos foram extintos pela Reforma de Passos Manuel, através do Decreto de 6 de Novembro de 1836, que dissolveu 498 concelhos em Portugal Continental. 
O objeto de tal diploma era a criação de maiores circunscrições municipais procurando suprimir a existência de “concelhos pobríssimos” de modo a possibilitar que esta fusão os munisse de melhores meios financeiros. É nesta data que é criado um novo concelho no nosso território com a designação de Vila Nova da Barquinha e que anexa os anteriores três concelhos. 
O país foi assim dividido em distritos, concelhos e freguesias, sendo os distritos dirigidos por um administrador-geral, os concelhos por um administrador e as freguesias por um regedor. Os órgãos passaram a ser a junta administrativa, a câmara municipal e a junta da paróquia.
Por alvará de 27 de junho de 1839 será, três anos depois, concedido o título de Vila à Barquinha e criado o seu brasão de armas que podemos ver acima.



22.12.18

A Pesca em Payo de Pelle - Praia do Ribatejo


Resultado de imagem para Albrecht Dürer c. 1490-1493
Em 1462 (1) D. Afonso V impõe que os caniços dos canais da pesca dos sáveis no Tejo e no Zêzere fossem construídos de rama ou verga como as mantas da terra, com um palmo de largura e espaçados de dois dedos. Nesses caniços não se podia colocar esteiras ou outro objeto de forma a não matar as “savatelhas” (sabogas ou pequenos sáveis), que nadavam para o mar onde se criavam, e ter-se-iam de deitar vivas ao rio se ficassem presas nos caniços. Em Carta régia, D. Afonso, sustentou que acontecia que os sáveis que fugiam das “avargas e savaares e nassas” avançavam rio Tejo acima, onde desovavam, e que por agosto e setembro as “savatelhas” que se geravam seguiam pelos rios até ao mar onde se iam criar. Refere ainda que os que tinham canais faziam caniços de verga fechados e muito juntos e lançavam-lhes esteiras e redes miúdas dobradas, fazendo com que o pequeno peixe ao entrar nelas morresse provocando um desequilíbrio para o crescimento da espécie. Estes pequenos peixes eram vendidos como se fossem sardinhas, levando à diminuição de sáveis, ano após ano.Sabemos que D. Afonso V, em 1474, persistiu nesta questão e proibiu outras formas de apanhar os sáveis, impedindo os pescadores do rio Tejo de empregarem “bogueiros” (2) e “lavadas” (classe de redes) e que utilizassem “copéis” (3) nas redes, onde a semente do sável poderia morrer, pois estes eram feitos de redes de malha extremamente miúda impedindo a fuga de peixes muito pequenos e acabando por desequilibrar o ecossistema piscícola (4).
Apesar destas limitação, atuais cotas europeias de pescado, a maioria da população de Paio de Pelle, atual Praia do Ribatejo, desde tempos de antanho, dedicou-se à pesca:
“ Quase todos já de antiquíssimos tempos se tem empregado no serviço da pesca do que tiram muito maiores vantagens, do que na cultura de terras …” uma vez que os terrenos circundantes, pelo relevo e declive acentuado das propriedades rústicas (essencialmente no Zêzere) eram “bastantemente áridas e estéreis, e em que somente muitos braços, muitos gados, e muitos estrumes poderão concorrer para que elas dêem algum interesse ao lavrador”. O locais de pesca dos nossos antepassados, tal como na atualidade “ … é às vezes no rio Zêzere, e muito principalmente no Tejo … no pego de Almourol” Parte da população de Paio de Pelle emigrava para jusante do rio “onde chega a maré”. A sua atividade era exercida entre Vila Franca de Xira e Salvaterra de Magos e “pescam sáveis desde o Natal até ao Santo António, e mugens desde este tempo até ao S. Martinho. A imensa quantidade de varinas, e de chinchas (pequenas redes de arrastar), e de outras redes desta ordem, chamadas de arrastar, que desde o Alqueidão até a Barquinha se empregam na pesca dos sáveis no seu tempo competente faziam parte do cenário de antanho.   

Fontes:
Folha Informativa n.º 3, 2013, do Instituto Politécnico de Santarém
Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa, Tomo VIII, 1823
Imagens de Albrecht Dürer c. 1490-1493 e da DGPC, 1862

1 História Florestal, Aquícola e Cinegética, vol. II (1439-1481), doc. 417 de 12 de Junho de 1462.
2. Sacos para apanhar bogas e outros peixes mais pequenos.
3. Sacos de rede miúda que se punham nas redes de arrastar.
4. História Florestal, Aquícola e Cinegética, vol. II (1439-1481)

16.12.18

A Barquinha e o Tejo



A localização dos portos fluviais foi decisiva para o desenvolvimento das comunidades ribeirinhas taganas. Os portos do Tejo compreendidos entre Rossio ao Sul do Tejo e Azambuja são separados entre si por distâncias mais ou menos iguais, nomeadamente os de Constância, Tancos, Barquinha, Chamusca, Santarém e Valada-Salvaterra de Magos. Cada um destes portos deveu a sua localização às áreas geográficas que serviu. Não surgiram ao acaso mas antes pela complementaridade com a rede de acessos viários a cada uma dessas mesmas áreas.
Não há por isso aleatoriedade mas rigor funcional na definição dos factores de localização de cada um destes portos, quer porque aí existiu anteriormente um vau, um acesso fácil ao leito, a confluência de dois rios (como por exemplo o Tejo e o Zêzere), ou uma boa
profundidade das águas num determinado ponto (como por exemplo em Valada e Salvaterra de Magos).
A localização do porto de Vila Nova da Barquinha, tal como o de Tancos, foi junto ao leito maior do rio, e cresceu ao longo do Tejo. O porto da Barquinha foi posteriormente vítima de um acentuado assoreamento, o que obrigou à construção de embarcadouros que ligavam perpendicularmente a Barquinha ao rio, sendo disso exemplo o porto da Barca – referido pelo mestre José Marques -, o porto do Dr. Pombeiro e o porto situado junto à Rua da Barca, muito perto da casa do calafate que aqui homenageamos, e que ele tantas vezes referiu nas entrevistas que nos concedeu.
A forma como a urbanização evoluiu nestes portos assemelha-se bastante... Na verdade, a evolução urbana em cada um destes aglomerados seguiu o mesmo processo, dando origem a um cais, a ruas que seguem o seu percurso paralelas ao rio, a largos que constituem nós de ligação destas vias, e a travessas que unem essas ruas, constituindo um reticulado – se assim se pode considerar – que obedeceu a uma lógica de racionalidade na organização do espaço urbano e na articulação deste com o espaço do porto fluvial.
Como corolário refira-se o legado toponímico que evoca a relação íntima da Barquinha com o seu rio e com as actividades a ele ligadas: Rua da Barca – onde, nas palavras de mestre José Marques, tudo começou -, Rua do Tejo, Rua do Sal, Rua Miratejo…

O Último Calafate da Barquinha – Memórias do Mestre José Marques, João Monteiro Serrano, 2016

Sirgadouros



E evolução de embarcações nos portos fluviais do Tejo evoluiu durante o período filipino, durante o qual se estudou seriamente a possibilidade de tornar o Tejo navegável entre Alcántara, depois Toledo, e Lisboa. É público e célebre o interesse de Filipe II nessa obra, tendo-se empenhado na construção de obras para melhorar a navegabilidade em troços mais difíceis do Tejo, por exemplo com a construção de sirgadouros nos pontos críticos. Os trabalhos foram dirigidos pelo Eng.º Juan Bautista Antonelli, e permitiram remover obstáculos difíceis no percurso, criando condições para estabelecer a ligação fluvial entre Lisboa e Alcántara.
Gaspar (1970) conseguiu pessoalmente obter informações no Rossio de Abrantes e Alvega que deram conta que “em meados do século passado [XIX] o transporte do minério de Alcántara para o porto de Lisboa era feito exclusivamente por barcos portugueses, na maioria pertencentes ao Rossio de Abrantes e proximidades (Pego e Alvega). Esse tráfego fazia-se em comboios de pelo menos uma dezena de barcos (cerca de 20-30t cada), para que nos momentos difíceis (rápidos a transpor) todas as tripulações se pudessem ajudar na carga” (Gaspar, 1970, p.160).
Ainda hoje existe uma importante estrutura de sirga – carregada de história – no concelho de Nisa, com cerca de três quilómetros, entre Fratel e a Barca da Amieira. Este tipo de estrutura, como se descreverá e testemunhará neste trabalho, foi um importante suporte à navegabilidade tagana nos trechos mais difíceis do trajecto do rio. As manobras eram aí apoiadas por homens ou mesmo juntas de bois, que rebocavam as pesadas embarcações permitindo ultrapassar os obstáculos naturais do percurso.
No decurso do século XVII – e até à restauração da independência portuguesa – os reis filipinos, e em particular Filipe II, dedicaram especial importância ao projecto de navegabilidade do Tejo, para permitir o acesso mais fácil ao Atlântico das mercadorias do interior das terras castelhanas atravessadas pelo rio.

Fonte: O Último Calafate da Barquinha, Memórias do Mestre José Marques, obra de João Monteiro Serrano

3.12.18

Castelo de Almourol



Castelo de Almourol 
Manuel J. Gandra

A partir de 1169, os Templários tornaram-se detentores de um vastíssimo domínio que lhes deu o controlo de parte considerável do vale do Tejo, de uma das vias medievais mais concorridas, justamente aquela que  atravessava o vau do rio nas imediações da Cardiga e se dirigia para Coimbra pela Ladeia, bem assim como de vários dos caminhos que corriam de Leste para Santarém, paralelamente à margem direita do Tejo.
Esse amplíssimo território resultou da confirmação da doação de Tomar, concomitantemente com o prolongamento do domínio até ao curso do Tejo, mediante a concessão perpétua do castelo de Ozezar, ou Zêzere.
O teor do documento afonsino, que delimitou o dito termo, é o seguinte: “Em primeiro lugar pela foz do Beselga, e daí pela estrada que se chama de Penela, até Alfeigiadoa, e daí, pelo cimo do monte de Alfeigiadoa, pela vertente das águas do lado de Tancos, e daí, como o monte entra até ao fundo do pego de Almourol, e daí, pelo meio do Tejo até à foz do Zêzere, e daí, do Zêzere até à foz do Tomar [Nabão], e daí, pelo Tomar [Nabão], como vai até à foz do Beselga onde primeiramente fizemos começo.”
Ciente do valor estratégico do território em apreço, Gualdim Pais terá concretizado de imediato (1171-1172) um programa construtivo, decerto previamente delineado, edificando, ou reabilitando, os castelos do Zêzere, de Almourol, da Cardiga e do Pinheiro 1, e, igualmente, algumas torres com função semafórica (Atalaia, Santa Maria do Olival, Langalhão 2, Dornes, etc.), susceptíveis de alertar, em caso de necessidade, toda a região que integrava as bacias do Tejo, da Zêzere e do Nabão (então denominado rio Tomar).
O foral concedido em 1174 ao castelo de Ozezar decerto potenciou a instalação de significativa população residente, porventura de origem franca, a aquilatar pela onomástica das testemunhas que o avalizaram (Boninus, Broes, Arlote e Pouvas).
Uma igreja havia de ser edificada no local, consagrada a Santa Maria do Zêzere, a qual o Papa Urbano III (1185-1187) isentou de toda a jurisdição ordinária, integrando-a no nullius dioceses de Tomar, pela bula Justis petentium desideriis, de 1186, ou 1187.
Ainda assim, a sede administrativa da comenda de Ozezar foi instalada em Almourol, aí tendo permanecido até, pelo menos, o séc. XIV, uma vez que as parcas notícias sobre cavaleiros comendadores não consignam expressamente qualquer nome para o Zêzere e para a Cardiga, mas apenas para Almourol 3.

1 Lapignera na bula Cum pro Defensione, local que disporia, no seculo XII, de uma estrutura fortificada, da qual nao se encontra qualquer outra noticia ou vestigio.
2 Ver Manuel J. Gandra, Guia Templário de Portugal, v. 1, Mafra – Rio de Janeiro, 2015.
3 Cf. Frei António da Encarnação, Relação […], citada por João José Alves Dias, As Comendas de Almourol e Cardiga, das Ordens do Templo e de Cristo, na Idade Média, in As Ordens Militares em Portugal (Actas do 1º Encontro sobre Ordens Militares – Palmela, 3 a 5 Março 1989), Palmela, 1991, p. 103. Acham-se documentados os nomes de uns quantos cavaleiros comendadores de Almourol, a saber: D. Gil (1188); João Domingos (1201); Irmão Beltradus (serviu de testemunha no foral de Ega, em 1231); Gonçalo Fernandes (1302); Frei João Lourenço (1333); Frei Rodrigo (1372); Frei Rui Gonçalves (1374); Bernal Foçim (1383), irmão de João Focim, capitão da frota de D. Fernando durante a guerra com Castela (cf. Fernão Lopes, Crónica de D. Fernando, cap. LXXIV); Frei Martim
Gonçalves (1385); Frei Diogo Gonçalves 1390, 1409 e 1445 = concórdia da Ordem de Cristo com concelho de Tomar); Frei Lopo Dias (1426); Frei Gonçalo Velho (idem); Rui Velho (1467), sobrinho materno de Frei Gonçalo Velho; Simão (filho do anterior); entre outros.

19.11.18

Centro de Interpretação Templario de Almourol - Abertura

O Castelo de Almourol, Gualdim Pais e a Cavalaria espiritual
Centro de Interpretação Templário - de 18 de novembro de 2018 a abril de 2019
Esta região afirmou-se na história de Portugal devido à sua importância estratégica, quer pelo atravessamento de boas vias de comunicação, de que são exemplo as vias romanas e as estradas reais, quer pela complexidade dos tráfegos comerciais realizados através do rio Zêzere e Tejo. Este último, “pelo qual se vai para o mundo” parafraseando Fernando Pessoa, é símbolo de grandeza e de missão histórica de Portugal.
Junto a ele construiu a Ordem do Templo o Castelo de Ozêzere, o Castelo de Almourol, o Castelo da Cardiga, a Torre do Pinheiro Grande e a Torre da Atalaia. Gualdim Pais, o Grão-Mestre dos Templários, fez destas posições o centro nevrálgico da expansão de Portugal para sul.
“Tagus, Tejus, Tejo. Muitos nomes, um mesmo rio.
Fenícios, Cartagineses, Romanos e Árabes rasgaram as suas águas, fazendo dele uma estrada de eleição (...) A história do Tejo é uma história milenar de que a maioria dos mortais apenas pode fazer vagas suposições, muitas delas baseadas no saber adquirido pela experiência de ver os elementos a interagirem com o rio e com a terra. Ao longo de séculos, os homens sulcaram as suas águas, fintado a sua braveza, servindo-se do obstáculo que constitui para definirem fronteiras e barreiras contra exércitos, inimigos ocasionais e todo o tipo de perigos, alguns mesmo imaginários…”(1)
É também aqui que se inicia a epopeia dos descobrimentos. Estes só foram possíveis graças às pessoas, aos meios e às técnicas de navegação dos nossos antepassados. As primeiras viagens foram feitas em barcas e só mais tarde, já com embarcações robustas e capazes de navegar com
ventos contrários, as caravelas.
Proeminente nesta missão foi Gonçalo Velho, Comendador do Castelo de Almourol e da Quinta da Cardiga, corajoso cavaleiro da Ordem de Cristo, ousado mareante da Escola de Sagres e egrégio companheiro do Infante Dom Henrique, que construiu as primeiras embarcações na sua Comenda junto do Rio Zêzere, perto do lugar de Frade (atual Limeiras) e de Fernando Eanes (atual Outeiro) e daqui levou as nossas gentes para esta colossal epopeia, a expansão ultramarina.
É essencial para Vila Nova da Barquinha, e para os seus dirigentes autárquicos, perceber que a valorização do património é um recurso económico que deve ser aproveitado.
A cultura e o turismo têm um valor económico significativo, são um privilegiado campo de atuação, potenciadores de inovação e desenvolvimento.
Por ser ambicioso e original este Centro de Interpretação, contou com a prestimosa colaboração
do Turismo de Portugal e de instituições consagradas, o Exército Português e o Convento de Cristo. Importa verbalizar que o nosso território regional já está profundamente pensado sob diferentes ângulos de atuação, mas, infelizmente não dispõe, neste momento, de uma visão de conjunto fundamentada numa ampla e segura caracterização, permanentemente atualizada de modo a defender uma estratégia que passa por saber cativar os visitantes do Castelo de Almourol, do Convento de Cristo e da Torre Templária de Dornes, para que eles permaneçam na nossa região.
Certo é que “Ninguém ama o que desconhece”.
Dar a conhecer impõe-se como o primeiro ato devido a quem tem responsabilidades de decidir ou influenciar.
Dar a conhecer e desenvolver é também uma obrigação de serviço público autárquico e por isso estratégia da realidade em que se intervém.
O Centro de Interpretação que hoje inauguramos é um bom exemplo do dar a conhecer e do afeto das nossas gentes aos templários e ao desenvolvimento do Turismo Militar em Portugal.

(1)     IN “OS AUTOS DA BARQUINHA”, DE EMÍLIO MIRANDA

26.10.18

Centro de Interpretação Templário de Almourol











Portugal teve um papel protagonista no mundo durante séculos a fio, criando monumentos, gerando rotas, emigração de gentes, mutuação de fauna e de flora.
Essa epopeia mudou o mundo deixando vestígios em todos os continentes.
Vila Nova da Barquinha tem na sua génese o gosto pela coisa militar. Desde os primórdios da nacionalidade, na reconquista, com o Castelo de Almourol, reconstruído por Gualdim Pais em 1171. No século XV, com Frei Gonçalo Velho, Comendador de Almourol e da Cardiga, que mandou construir na foz do Zêzere, as primeiras galeotas que partiram à descoberta dos Açores. No século XIX, no Polígono Militar de Tancos, com os pontoneiros. No século XX, com o Corpo Expedicionário Português (CEP) protagonista do “Milagre de Tancos” e da “Cidade de Paulona”, com a arma de Engenharia e a sua Escola Prática, com a Força Aérea (ex-Base Aérea n.º 3) e as Tropas Paraquedistas que completaram 62 anos de presença no nosso concelho.
Viveram neste território milhares e milhares de cidadãos que cumpriram a sua missão ao serviço da Pátria e que, com saudade, recordam esses tempos.
A este trajeto coletivo, assente nos laços hodiernos de familiaridade e de estima, somamos o campo institucional da defesa da causa pública, princípios e valores que, quer a instituição militar quer o Município partilham e comungam.
Assim, quando, em 2010, fui um dos desafiados para fazer parte do Projeto “Turismo Militar” para posterior feitura de uma Carta Nacional, abracei tal ideia por entender que esta matéria era estratégica para Vila Nova da Barquinha, para a região e para Portugal.
Entretanto, está a concluí-se a requalificação da ilha e do Castelo de Almourol.
Em 2018 foi aprovada, pelo Turismo de Portugal, a candidatura ao “Centro de Interpretação Templário de Almourol”, o único espaço sobre esta temática, em Portugal. De imediato foi elaborada uma estratégia museográfica que incluiu achados em Almourol, exibição, museografia e conteúdos, trabalhos sob a curadoria do Profº, Manuel J. Gandra, e que se encontram concluídos.
A sua inauguração irá ocorrer no dia 18 de novembro de 2018. 


23.10.18

Livro de Atalaiense publicado no Brasil




Paulo Rogério Ayres Lage publica, no próximo dia 25 de outubro, em Ouro Preto, Brasil, o livro “A vida e a obra de Antônio José Vieira de Carvalho, Cirurgião-Mor do Regimento de Cavalaria Regular da Capitania de Minas Gerais, Primeiro Professor de Anatomia, Cirurgia e Arte Obstetrícia do Brasil no Hospital Real Militar de Vila Rica”.
Filho de José Gomes Vieira e Catharina Roza. Nascido em 1756 em Atalaia, Vila Nova da Barquinha, além de cirurgião, Vieira de Carvalho foi também um empreendedor, tendo-se aventurado na mineração e criado a Cerâmica Saramenha. “Cada detalhe do livro - o tamanho caudaloso e apresentação gráfica do título, que nos remete de imediato aos livros portugueses do século XVIII; o projeto gráfico primoroso e a cuidadosa produção de belíssimas ilustrações nos mostra, sem sombra de dúvida, que temos em mão uma delicada jóia da bibliografia. Por tudo isso, este é um livro precioso, desde já destinado a ocupar um lugar de destaque na historiografia mineira - Amílcar Vianna Martins Filho”

2.1.18

António José Vieira de Carvalho, nasceu em Atalaia, Vila Nova da Barquinha, em 1781

Figura 1 - Carta Regia
“Bernardo José de Lorena, Governador e Capitão General da Capitania de Minas Gerais. Amigo. Eu o Príncipe Regente vos envio muito saudar. Atendendo a grande falta que há de Cirurgiões hábeis, e inteligentes nessa Capitania, por nela não haver Aulas Públicas, em que se expliquem as doutrinas respectivas a esta Faculdade; e conformando-me com o vosso parecer, e do vosso Antecessor, constantes dos ofícios, que subiram à Minha Real Presença com datas de vinte e quatro de maio, e sete de outubro de mil setecentos e noventa e sete: sou servido estabelecer no Hospital de Vila Rica uma Cadeira, Anatomia e Arte Obstetrícia; nomeando para ela o atual cirurgião-mor do Regimento de Cavalaria de Minas Gerais, Antônio José Vieira de Carvalho, por nele concorrerem as circunstâncias, e requisitos necessários, para bem reger a dita Cadeira, ao qual estabelecerei o competente ordenado, que deve ser pago pela Junta da Fazenda dessa Capitania. Escrita no Palácio de Queluz aos dezessete de junho de mil oitocentos e um.”
Príncipe.

Figura 2 - Folha de Rosto de livro - Observações sobre as Enfermidades dos Negros: suas causas, seus tratamentos, e os meios de as prevenir. Leia-se: “…Traduzidas na língua portugueza, debaixo dos auspícios e ordem de Sua Alteza Real, o Príncipe Regente N. S., por Antônio José Vieira de Carvalho, cirurgião mór do regimento de Cavalleria Regular da Capitania de Minas Geraes; e lente de anatomia, cirurgia, e operações no Hospital Real Militar de Villa Rica…”.

António José Vieira de Carvalho nasceu em Atalaia, Vila Nova da Barquinha, em 1781. Aos 27 anos de idade, iniciou-se como ajudante de cirurgião-mor. Além da Medicina, Carvalho era proprietário de uma fábrica de cerâmica em Saramenha.
Segundo documentação do Arquivo Ultramarino de Lisboa, o Governador Lorena o possuía em muito apreço, o que favoreceu sua nomeação em 1801 (Pieruccetti F. Em Minas, o início do ensino médico no Brasil. Ver Med Minas Gerais. 1992; 2(3):191-4)
Curiosamente, e talvez como retribuição da Coroa à tradução, a nomeação de Carvalho ocorreu no mesmo ano da publicação da versão portuguesa da obra de Dazille (Eugênio A. Ilustração, escravidão e as condições de saúde dos escravos no Novo Mundo. Varia História. 2009; 25(41):227-44.)
Jean-Barthélemy Dazille, cirurgião francês das tropas na ilha de São Domingos, teve seu livro “Observações sobre as Enfermidades dos Negros: suas causas, seus tratamentos, e os meios de as prevenir” publicado em Paris em 1776 pela Coroa Francesa. E 25 anos depois, Carvalho, com o patrocínio da Coroa portuguesa, lançou a tradução do mesmo em Lisboa. (Nogueira A. Universos coloniais e ‘enfermidades dos negros’ pelos cirurgiões régios Dazille e Vieira de Carvalho. Hist Ciências Saúde – Manguinhos. 2012; 19:179-96).
No espaço colonial francês, o manual de Dazzile, escrito com base na sua experiência profissional em São Domingos, destacou-se por ser um dos primeiros textos médicos cujos conhecimentos poderiam contribuir para a diminuição dos altos índices de mortalidade dos escravos. Dazille tentava fazer os colonos reconhecerem que a diminuição desses índices dependeria da sua compreensão da necessidade da humanização dos seus métodos de exploração do trabalho escravo. (Eugênio A. Ilustração, escravidão e as condições de saúde dos escravos no Novo Mundo. Varia História. 2009; 25(41):227-44.)

Vieira de Carvalho era leitor atualizado e cosmopolita (falecido em 1818, o testamento13 do cirurgião inclui biblioteca com 127 títulos de importância crucial para a Medicina da época), sendo que, movido pelas mesmas preocupações de Dazille, deixa claro – em nota inicial de sua tradução – que não apenas a alta mortalidade dos escravos, mas também o sofrimento destes, eram fatores que justificavam seu impresso: Felizmente o meu destino me havia levado a occupar nas Minas Geraes o emprego de Cirurgião Mór do Regimento de Cavalleria, que guarnece a Capital daquella Capitania; onde exercendo, a par da minha profissão, a Medicina prática, pude vêr com os meus mesmos olhos, quanto a especie humana soffre na inumerável multidaõ dos Negros, que alli transporta a escravidaõ, e o commercio. A mudança de clima; a differença de tratamento; hum trabalho continuo, e desmedido; e até a fome raríssimas vezes interrompida; junto à triste consideração do seu penoso estado, saõ outras tantas causas das singulares e gravissimas enfermidades, a que he sujeita entre nós esta raça desaventurada de homens; e que fazendo-lhes a vida pezada, e adiantando-lhes a morte, levaõ à sepultura o melhor dos cabedaes daquella, e das outras Colonias da America Portugueza; enterrando com elles o mesmo ouro, que os seus braços haviaõ desenterrado; e seccando assim na sua origem hum dos primeiros mananciaes das riquezas da Coroa, e do Estado. Estimulado pois desta fatal experiencia, e do sincero, e ardentissimo desejo de me dar todo ao serviço de Vossa Alteza Real, me subministrou o meu zelo a lembrança de traduzir para a Lingua Portugueza o Tractado […].
Ancorado na sua experiência em terras coloniais e também em conhecimento teórico, António não se contentou em ser mero tradutor da obra do cirurgião francês. Ao longo das páginas de “Observações sobre as Enfermidades dos Negros”, Carvalho introduziu notas explicativas, ambientando o leitor ao contexto das Gerais. Como exemplo, quando Dazille comenta que a alimentação dos negros era baseada em raiz de mandioca pisada e geralmente malcozida, Carvalho expõe que: No Brazil, especialmente em Minas Geraes usaõ os Negros de differente alimento por que em lugar da mandioca, elles tem o milho, que depois de moído em moinhos proprios, e peneirado o cozem simplesmente com água, mexendo-o atè o ponto de se formar huma massa em boa consistencia, a que chamaõ angù […]. Há também notas em que Carvalho dialoga sobre sua experiência na prática cirúrgica e de dissecação. Por meio de suas observações, Vieira de Carvalho deixa-se indiretamente classificar como profissional que atua em causa da humanidade, numa postura típica das fronteiras do Iluminismo. Porém, diferentemente dos objetivos humanísticos e científicos do cirurgião, sustenta-se a ideia de que a Coroa Portuguesa objetivava, tanto com o apoio à tradução da obra quanto com a criação das Aulas de Anatomia de Vila Rica, apenas aumentar o tempo de vida útil dos escravos, tentando evitar um colapso da mão-de-obra colonial em momento no qual o comércio mundial era desconexo com o tráfico escravocrata. Esse momento culmina, inclusive, com a proibição do Tráfico Negreiro em 1850, pela Lei Eusébio de Queirós. 

Transcrição da Obra: História da Medicina - Antecedentes Históricos do Curso de Medicina da Universidade Federal de Ouro Preto
Historical background of the Course of Medicine at the Federal University of Ouro Preto Márcio Antônio Moreira Galvão, Breno Bernardes de Souza
DOI: 10.5935/2238-3182.20140110



18.8.17

A Padroeira da Atalaia



A Assunção de Nossa Senhora ao céu é celebrada anualmente a 15 de agosto, data escolhida, também, para ser o dia da freguesia da Atalaia.
Acontece que em 24 de dezembro de 2012 escrevi um artigo neste blog "Desde quando existem templos religiosos na Vila da Atalaia?" - , vide http://atalaia-barquinha.blogspot.pt/2012/12/os-templos-religiosos-na-atalaia.html onde referi que: "Outra questão deveras curiosa é a questão da padroeira da Atalaia.
Hoje temos por designação que é Nossa Senhora da Assunção. Porém, a imagem de pedra, de boa escultura, atribuível a Diogo Pires, o Velho, que assenta numa mísula renascença, figura proeminente na sua capela-mor da Igreja da Atalaia é Nossa Senhora com o menino ao colo e, seguramente, não é a padroeira. Conforme escreveu Frei Agostinho da Santa Maria no Santuário Mariano, “a sua forma não diz com o mistério, porque tem sobre o braço esquerdo o Menino-Deus”. Assim, apesar da sua beleza, é descabido denominar-se de padroeira a imagem da escultura de pedra do altar-mor. Esta é, seguramente, Nossa Senhora da Atalaia. Singular é referir que nos painéis de azulejos inferiores há duas imagens da Virgem que caracterizam o novo oráculo e o antigo, Nossa Sr.ª da Rosário, o antigo, e Nossa Sr.ª da Assunção, o novo. Porque será que a Padroeira foi relegada para 2.º plano? Não sei responder. Certo é que a fundação e o povoamento de Portugal coincidiram com um grande devoção mariana motivada pelo ideal da idade média de exaltação da mulher, cujo exemplo perfeito era a Virgem Maria.
Por conseguinte seria lógico que Maria Santíssima fosse escolhida para padroeira de quase metade das igrejas das terras sucessivamente incorporadas no território português e que, também, a nossa Igreja da Atalaia lhe seja dedicada."
Agora, a Prof. Manuela Poitout, a trabalhar numa obra sobre a cronologia do Entroncamento (então Casal da Vaginhas) facultou-me  cópia de  um registo baptismal  de 1549, já referenciado pelo Dr. Luís Batista, deveras interessante para esta temática e que passo a transcrever:
“Aos 8 dias do mês (de) deze(m)bro da era de 1549 anos bautizei / Eu joão da Rosa cura a Simoa f(ilh)a de fernão p(e)r(e)z E de sua molher briatiz g(onça)ll(ve)z moradores nos casais das bajinhas/ E forão padrinhos E madrinhas luis a(fons)o e lianor Simoa / E c(atharin)a f(e)r(nande)z todos fregueses de nossa Sen(n)ora d’atalaia. (Primeiro Livro de Registo de Baptismos da Paróquia da Atalaia).”
Assim, temos por certo que no ano de 1549 a padroeira era nossa Senhora da Atalaia facto que não deve ter passado despercebido, em 1941, aos técnicos da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais que colocaram a imagem da Nossa Senhora da Atalaia no lugar central, no altar mor, daquele monumento nacional e Nossa Senhora da Assunção num lugar lateral.
Sabemos que a grande maioria dos títulos atribuídos a Nossa Senhora tem a sua origem na veneração popular. Nossa Senhora da Atalaia ou Nossa Senhora da Assunção, estas duas qualificações dizem respeito à mesma pessoa que é a Virgem Maria,  Mãe de Jesus Cristo, e que desde tempos ancestrais vem sendo venerada pelos Atalaienses. Também estes no dia 15 de agosto de 2017 disseram, mais uma vez, presente!