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ATALAIA, Vila Nova da Barquinha, Portugal
Vivendo nesta terra há 30 anos vou perguntar à história e à tradição qual a origem desta localidade. Desejo saber quem neste atractivo sítio erigiu a primeira construção, quais as obras que foram nascendo, a sua idade e as mãos que as edificaram, quais os seus homens ilustres e os seus descendentes, quem construiu as estradas, os caminhos, as pontes e as fontes. Quão agradável será descobrir em cada pedra os nossos antepassados levantando com palavras o sonho do nosso futuro. Atalaia, 18-11-2007.

2.10.16

Vila Nova da Barquinha

O contexto geográfico e histórico da Barquinha é favorecido pelo cruzamento de eixos principais de autoestradas e caminhos-de-ferro. Isso potencia a sua integração em rotas turísticas nacionais ou internacionais, como é exemplo a rota dos Caminhos de Santiago (no monumento nacional – Igreja da Atalaia), Rota dos Templários (no monumento nacional – Castelo de Almourol), e o Museu Nacional Ferroviário, na cidade do Entroncamento. Estes monumentos, e o museu, representam um potencial de alavancagem do turismo no nosso território que aproveita as sinergias e as complementaridades de produtos endógenos já estabilizados e reconhecidos pelos diferentes operadores turísticos.
Temos, no nosso concelho, vários estabelecimentos de turismo em espaço rural, com 118 camas no total, segundo os últimos dados do Turismo do Centro. Estes novos dados revelam uma potencial de oferta de alojamento em espaço monumental e natural com notável proeminência para os rios Zêzere e Tejo. Revelam, ainda, a capacidade do turismo temático (percursos pedestres, canoagem, BTT, etc.) que percorre as freguesias da Praia do Ribatejo, Tancos, Barquinha e Atalaia.
A congruência estrutural de uma educação de excelência no concelho, na sequência dos avanços obtidos por via da requalificação física do nosso parque escolar; a aposta contínua na temática “Barquinha é Ciência e Arte” que tem vindo a ser adotada como desígnio estratégico para as nossas Escolas; a criação do Parque de Esculturas Contemporânea Almourol; a fruição artística do Parque, com o Centro de Estudos de Arte Contemporânea e a residência de artistas e, no ano de 2017, o alargamento do projeto das artes às freguesias, numa parceria com a Fundação EDP, são fatores de desenvolvimento que devemos relevar e estimular.
A reabilitação urbana tem sido também um dos eixos prioritários de desenvolvimento para o Município, com a sensibilização dos proprietários para o seu dever de conservaçã
o dos imóveis e com a realização de levantamentos das construções degradadas, com a cedência de incentivos fiscais para quem recuperar, e agravamento para quem não conservar. O trabalho da Divisão Municipal de Serviços Técnicos em conjunto com o Gabinete de Apoio e Desenvolvimento ao Empreendedorismo Local (GADEL) nos investimentos em áreas de atividades económicas, agrícolas e não agrícolas, tem sido inexcedível.
Com a aprovação do recente Plano de Ação de Regeneração Urbana (PARU) e com intervenções já asseguradas com fundos comunitários, na reabilitação do espaço público – na Rua da Misericórdia, Praça República, Largo José da Cruz/Largo Marechal Carmona e na reabilitação integral de imóveis com mais de 30 anos, atualmente devolutos, vamos instalar um Ninho Empresas e lojas de produtos locais – estamos, assim, a combater as fragilidades do espaço público do centro histórico da vila e a incentivar os privados a recuperar os seus imóveis. Podemos acrescentar que registamos com grande agrado uma estimulante revitalização do edificado privado.
Desejamos um concelho com um modelo híbrido de povoamento, que integra realidades urbanas e rurais numa interação que deverá aprofundar os objetivos da revitalização económica e da sustentabilidade da vivência campestre.
Vila Nova da Barquinha tem vindo a ser reconhecida como zona cultural, com qualidade de vida e com uma relação equilibrada com a natureza. Queremos continuar a apostar num lugar cultural diferenciado, coeso e com espaços de oportunidades de negócio, capaz de afirmar e gerar vida urbana e rural com qualidade de vida e bem-estar.

3.7.16

Vila Nova da Barquinha

Pela sua localização geográfica junto ao nó da A23 com a  A13 e servido pela linha de caminhos-de-ferro, e pela sua história, o nosso concelho tem uma magnífica centralidade e é detentor de um vasto e rico património natural, arqueológico e arquitetónico.
No período da Reconquista Cristã, foram aqui erguidas fortificações, cujo melhor exemplo é o Castelo de Almourol, monumento que é o nosso ex-líbris, assim como a Igreja Matriz de Atalaia, edificada em 1528, uma obra de João de Ruão e João de Castilho, construtores com 3 edificações premiadas pela Unesco e que constam da Lista do Património Mundial: Mosteiro da Serra do Pilar, Convento de Cristo e Mosteiro dos Jerónimos.
A beleza das margens ribeirinhas do Rio Tejo, desde o Cafuz até à Cardiga, oferecem ao visitante a possibilidade descobrir um território de rara beleza patrimonial e natural. Desde os estaleiros donde partiu a armada para a conquista do norte de África em 1415, passando pela Foz do Zêzere, Praia do Ribatejo, Almourol, Tancos e Parque Ribeirinho, há abundante fauna e flora para encontrar e apreciar as belíssimas paisagens rurais e ribeirinhas.
Mas “ninguém ama o que desconhece”. Portanto, temos de perceber que a valorização do património arqueológico, edificado, móvel e integrado, imaterial e paisagístico, e até do rico associativismo presente nas nossas comunidades são um recurso económico que deve ser aproveitado, divulgado e valorizado.
É isso que está a acontecer neste mês de junho nosso concelho.
Foi a festa Kuri Kuri, o Campeonato Nacional de Motonáutica, a Feira do Tejo, o Campeonato Nacional de Canoagem, a Festa Templária em Almourol, que trouxeram milhares de visitantes ao nosso concelho e à nossa região.
Isso implica promover a animação e a implementação de eventos de desenvolvimento de iniciativa e base local, regional e nacional. O nosso concelho constitui-se como um território onde importa continuar a dinamizar a cultura e o lazer, onde interessa fortalecer as associações – as nossas forças vivas – estimulando o seu funcionamento em rede.
Só com a promoção e realização de eventos regulares de dimensão regional e nacional podemos contribuir para o incremento de oportunidades oferecidas à comunidade, à restauração e ao turismo e dar a conhecer aquilo que amamos.

O turismo em Vila Nova da Barquinha


Verificou-se no ano de 2015, na região centro, um crescimento de 15% de turistas. Estamos a trabalhar para que os resultados de 2016 sejam, ainda melhores. O turismo cultural na nossa região, como é público e notório, é um dos segmentos crescentes e uma indústria atrativa dado o seu estímulo à atividade cultural e o seu papel inegável na economia local com a prática reiterada de atos de comércio, que geram enorme riqueza.
O “fatalismo” que marcou durante décadas a promoção da cultura no nosso território está, nos dias de hoje, superado.
Nas margens da Barquinha, junto do rio Tejo, outrora um local subaproveitado, onde em tempos de antanho, era praticada a agricultura, nasceu um Parque Ribeirinho com 7 hectares, ao qual foi atribuído o Prémio Nacional de Arquitetura Paisagista em 2007. Desde a sua inauguração, visitaram o Parque milhares de pessoas, quer pela zona envolvente e proximidade do rio, quer pelas condições dos cais onde chegam milhares de canoas que descem o Tejo, quer pelas zonas de lazer, parque de merendas e quiosques inseridos em sombras de árvores centenárias, quer pelo espaço onde as crianças podem brincar em liberdade plena.
Entretanto, foram criados à volta do parque infraestruturas para acompanhar o fluxo de pessoas de que são exemplo o posto de turismo, loja, quiosques, cervejaria, centro náutico, hotéis, alojamento rural, banco, clínica, loja do cidadão, escola de música, etc.
Em 2012, tendo em vista a regeneração urbana da vila, foi criado o Parque de Escultura Contemporânea Almourol e a Galeria do Parque, um espaço para exposições gerido em parceria com a Fundação EDP. Nesse mesmo ano era criado o Centro Integrado de Educação em Ciências.
Em 2013 foi inaugurado o Centro de Estudos de Arte Contemporânea, em parceria com o Instituto Politécnico de Tomar, com ateliês de desenho e pintura, marionetes, teatro e fotografia/vídeo.
Em 2015 surgem as residências artísticas também resultantes da parceria com a Fundação EDP, e a Galeria de Santo António, junto da Igreja Matriz de Vila Nova da Barquinha.
Em 2016 começam a surgir as primeiras casas regeneradas. A aposta na regeneração urbana, com incentivos fiscais, é determinante para o crescimento e qualidade de vida em Vila Nova da Barquinha.
Também não foi olvidada a aposta na gastronomia, como produto turístico. Têm sido desenvolvidos anualmente eventos ligados aos recursos endógenos: “Mês do Sável e da Lampreia”, “Festival do Peixe do Rio” e “À mesa com azeite”.
Ademais, as particularidades naturais de Vila Nova da Barquinha proporcionam grande número de atividades desportivas pelo que, quer no rio (canoagem e motonáutica), quer no solo (BTT e caminhadas), quer no ar (paraquedismo e saltos tandem), vamos continuar a incentivar estas atividades de desporto e lazer.
Pensámos em valorizar e a preservar o Castelo de Almourol. Concluída a sua recente musealização, vamos avançar com beneficiações paisagísticas na ilha, bem como criar melhores condições de mobilidade para os turistas. A animação não será esquecida, pelo que durante o verão irão ocorrer eventos culturais ligados à época medieval – teatro e música.
Estamos a valorizar as visitas guiadas à Igreja da Atalaia.
Fizemos reuniões com os agentes económicos para criar sinergias de oferta de produtos em rede (gastronomia, alojamento, paraquedismo, hipismo, canoagem, etc.)
No dia 18 de fevereiro colocámos nas redes sociais o vídeo “Vila Nova da Barquinha – Terra de Sorrisos”, https://www.youtube.com/watch?v=ti8qfBLuDIM, que, após o seu lançamento, já atingiu 100.000 visualizações.
Certos estamos que valorizando o nosso potencial endógeno e preservando o património histórico, cultural e artístico estamos em condições de rentabilizar os nossos produtos e serviços (exportação) e rentabilizar o nosso património (turismo e cultura).

6.7.15

Apresentado o livro “Os Maias da Atalaia” de José Mota Maia




"José Mota Maia, engenheiro de formação, apresentou este domingo na Casa do Patriarca na Atalaia o seu livro “Os Maias da Atalaia”, “um livro de histórias centradas numa família Maia que passou por esta Vila Velha de Atalaia”, como definiu o general e engenheiro António Maia Mascarenhas que fez a apresentação do autor e da obra.
Antes do autor falar sobre o seu livro, Fernando Freire, Presidente da Câmara de Vila Nova da Barquinha, felicitou o autor pela iniciativa de escrever sobre a Atalaia, aquela que é a sua Vila de adoção e sobre a qual, também ele está a escrever um livro, que iniciou há 6 anos e já tem 360 páginas escritas.
Na mesa de honra estiveram para além dos oradores, Elisabete (Betinha) Maia, prima do autor e organizadora do evento e o Presidente da Junta de Freguesia de Atalaia, Manuel Maria Honório.
José Mota Maia, com um entusiasmo de quem tem o livro que acabou de lançar na alma, revelou algumas das histórias e facetas da obra, “para aguçar o apetite” a quem vai adquirir o seu livro, “que deve ser lido nas calmas e sem pressas”, e que revela muito da história da Velha Vila da Atalaia, uma das mais antigas da península ibérica.
Depois da sessão de autógrafos foi servido um lanche aos convidados, no bonito espaço da Casa do Patriarca."


In Entroncamento online
http://www.entroncamentoonline.pt/portal/artigo/apresentado-o-livro-%E2%80%9Cos-maias-da-atalaia%E2%80%9D-d

22.6.15

Origens Geográficas dos Açorianos



Hoje fui surpreendido pela chegada de uma encomenda com origem nos Açores.
Aberta a mesma deparei com uma obra de Carlos Melo Bento (1)
A obra é um trabalho de investigação e de identificação dos primeiros povoadores das ilhas açorianas.  Conseguiu identificar 281 pessoas com a sua origem geográfica num trabalho que fica para a memória futura daquelas ilhas tão belas.
Rezava a história que os portugueses começaram a povoar as ilhas por volta 1432, oriundos principalmente do Algarve, do Alentejo, da Estremadura e do Minho. O autor defende que as datas iniciais são os anos de 1439, 1444 e 1474, e os primeiros povoadores vieram do Porto, Lisboa, Guimarães, Beira, Alentejo, Entre o Douro e Minho, Algarve, Ribatejo, Trás-os-Montes e Estremadura, sendo identificados pelo nome e sua genealogia. 
Uma obra que vou ler com toda a atenção ademais quando na obra 6 páginas são fruto da minha investigação e do António Roldão contando, ainda, com a ajuda do Manuel João. Da nossa parte demos a informação que tínhamos e, certamente, contribuímos para que a história dos açorianos seja mais rica.


  (1) Autor de diversas obras, no campo da Arqueologia e História dos Açores. Medalha de Honra da Ordem dos Advogados Portugueses e ex-presidente do Concelho Deontológico e Conselho Distrital dos Açores da Ordem dos Advogados.

22.2.15

O atalaiense, Custódio Maldonado Freitas

Natural da freguesia de Atalaia, concelho de Vila Nova da Barquinha, nasceu nesta terra em 13 de Julho de 1886 e veio a falecer na cidade das Caldas da Rainha, com 78 anos, em 15 de Abril de 1964.
Licenciou-se em Farmácia no Porto, em 1886.
Estabelece-se na cidade das Caldas da Rainha por volta de 1905.
Quando é proclamada a República, em 1910, já Custódio Maldonado Freitas tem ali instalado a sua farmácia naquela cidade, à data em franco desenvolvimento.
Com fortes e convictas ideias republicanas, membro maçónico, da qual se manterá até à sua morte é um adepto indefectível da carbonária. Ainda no período da monarquia é preso durante setenta dias. Nada, porém, o desvia nem faz abafar as suas convicções republicanas, pelo que vem a ter acção destacada na proclamação da República.   
Em 1911 fez parte duma comissão para a aprovação da Lei da separação da Igreja do Estado
Em 1913, por Portaria é nomeado para Vice-Presidente do Conselho Administrativo das Caldas da Rainha assumindo a presidência a 30 de Setembro desse ano.
Na Rotunda de Caldas, em 1915, lidera um grupo de marinheiros, conseguindo a devolução da Câmara aos Republicanos.
Em 1915 era extinto o semanário “Viroscas” após os tumultos que se verificaram no dia 2 de Abril desse ano, nas Caldas: “Houve troca de tiros ao cimo da Praça da República, depois de uma procissão bastante concorrida nessa Sexta-feira de Paixão, entre sujeitos ligados ao Partido Democrático e ao Partido Republicano Evolucionista, resultando num morto afecto a este último partido”.
Por causa deste facto, foram enviados para a prisão do Limoeiro, em Lisboa, alguns nomes afectos ao Partido Democrático, como Custódio Maldonado Freitas e José dos Santos Germano (partindo os disparos mortais deste último), bem como outros correligionários como Amândio de Carvalho, António Alves Cunha, Branco Lisboa, Etelvino dos Santos, Joaquim José de Sousa, José Rodrigues, Salvador Sousa de Figueiredo e António Lopes de Oliveira. “Este último foi o fornecedor das bombas encontradas na redacção de O Defensor, jornal local afecto ao Partido Democrático” … “o povo, supondo que o líder dos distúrbios fosse o farmacêutico Custódio Maldonado Freitas, se dirigiu à sua farmácia, intimando-o a abandonar as Caldas”, mas Maldonado Freitas subiu ao telhado, “alimentando uma luta que se seguiu com bombas de dinamite e tiros”, disse. O grupo de cidadãos acabou por entrar na farmácia e na redacção de O Defensor, “provocando estragos”. Quanto ao farmacêutico, “foi descoberto no dia seguinte dentro de uma chaminé num prédio vizinho, pelas forças militares e da Guarda Republicana, que se deslocaram às Caldas”.
Em Janeiro de 1919 a Comissão Administrativa da Câmara Municipal passa a ser presidida por Custódio Maldonado Freitas.
Nesse ano em Agosto assume a Presidência da Comissão Administrativa do Hospital das Caldas.
Em 13 de Abril de 1921 torna-se sócio gerente da empresa de Limas União Féteira, Lda.
Foi presidente da Comissão Concelhia dos Bens da Igreja.
Criou e dirigiu os Jornais o “Direito do Povo” e o “Regionalista”.
Em 1930, possui-a uma Farmácia na vila de Óbidos.
O atentado ocorrido contra a linha férrea e telegráfica em Pataias, no dia 13 de Janeiro de 1931, envolveu personalidades do meio sociopolítico tendo sido referenciado pela polícia política Custódio Maldonado de Freitas, farmacêutico, das Caldas da Rainha.
Voltou ao cárcere entre 21 de Março de 1947 a 24 de Abril de 1948.
Do seu casamento com Margarida Pereira de Sousa Freitas nasceram 5 filhos, o primeiro António Maldonado Freitas, nascido em 1910, e já falecido, foi um destacado dirigente do Partido Socialista. O segundo com o mesmo nome do pai, também já falecido, foi membro do PCP e fundador do MDP-CDE, de que fui destacado militante.

Fontes:


16.2.15

O atalaiense, Eng.º Luís Gomes de Carvalho

Nasceu em 15 de Abril de 1771, em Atalaia, Vila Nova da Barquinha, e faleceu em 17 de Junho de 1826, em Leiria.
Foi engenheiro militar. Efetuou levantamentos topográficos em Trás-os-Montes e nos castelos principais da fronteira portuguesa: Outeiro, Vimioso, Bragança, Montalegre e Monforte, e executou a “Carta topographica da parte da provincia de Trás os Montes compreendida entre o Douro e o Sabor até Bragança”. Completou a planta de Bragança e de Chaves, com muitas similitudes com a anteriormente levantada, que tinha anexa a do castelo, três vezes mais detalhada.
Foi responsável pela obra da Barra e do porto de Aveiro. O assoreamento estava a matar a cidade e provocava uma grave insalubridade nas áreas pantanosas que não deixam as águas do mar entrar no interior. Por estudos exaustivos levados por si levados a cabo, em 3 de Abril de 1808, abriu a Barra, num local estrategicamente definido. Com a construção do molho sul, sobre a sua direção, pretendeu normalizar as correntes, a fim de manter o canal de acesso à Ria sempre desimpedido, de modo a facilitar o escoamento das águas interiores. Estudou a bacia da ria quanto às marés, a sua cartografia, o movimento das ondas e dos ventos.
D. José I, a 27 de Maio de 1756, atendendo às reclamações dos nossos antepassados, resolveu criar a Superintendência da Barra e lançar o imposto do real para ser pago por todas as Câmaras da Comarca de Esgueira, a fim de se custearem as despesas com a abertura de uma nova barra em São Jacinto.
Os trabalhos não se puderam então fazer, devido a uma grande cheia: as ilhas e as salinas da ria, os campos do Vouga e os bairros baixos de Aveiro ficaram inundados por muito tempo; as águas represadas causaram enormes danos. Apenas em Janeiro de 1757 o  capitão-mor de Ílhavo, que era o aveirense João de Sousa Ribeiro da Silveira, foi autorizado a abrir um regueirão na areia, onde antes, na Vagueira, tinha estado a barra; mas tudo isto se tornava muito precário.
Doze anos após, o Senado Municipal representou a El-Rei sobre a falta de estabilidade e de segurança da barra; e a este pedido outros mais se seguiram, pois os infortúnios ocasionados sobressaltavam constantemente a região. Os aveirenses e a sua Câmara não desistiram das pretensões sobre a abertura de uma barra capaz; por isso, a 16 de Abril de 1794, a Câmara encarregava o Dr. Manuel Joaquim Lopes Negrão de conseguir do Príncipe Regente, mais tarde D. João VI, as providências necessárias para a efectivação das desejadas obras.
Ante a miséria geral e as doenças que dizimavam a população, a 2 de Janeiro de 1802, o ministro D. Rodrigo de Sousa Coutinho, depois Conde de Olivares, encarregava os engenheiros Coronel Reinaldo Oudinot e Capitão Luís Gomes de Carvalho de separadamente procederem a estudas para a abertura da nova barra, os quais desistiram do sítio da Vagueira e escolheram um outro perto de São Jacinto, próximo da anterior localização no século XVI, a 17600 metros a norte da barra velha. O Eng.º Oudinot enviaria ao Governo o seu projecto a 6 de Março; e a 17 de Abril o Eng.º Gomes de Carvalho remeteria a sua «Memória descritiva ou notícia circunstanciada do plano e processo dos efectivos trabalhos hidráulicos empregados na abertura da barra de Aveiro segundo as ordens de S. A. R. o príncipe Regente Nosso Senhor».
Entretanto, os homens de Aveiro estavam impacientes por via da insalubridade das águas pantanosas da laguna, pelo prejuízo na feitura do sal e pelas inundações na cidade. A própria Confraria de S. Miguel resolveu a 7 de Fevereiro de 1802, já após aquela decisão superior, que, no primeiro ano depois da abertura da barra nova, se desse a Sua Alteza Real a terça parte líquida do sal das suas marinhas, «como prova de gratidão pela munificência que por essa obra havia tido aquele Príncipe». E a 8 de Abril o Príncipe Regente ordenava a demolição das antigas muralhas de Aveiro, que ameaçavam ruína, devendo utilizar-se a pedra nas obras da barra; diríamos hoje que foi uma triste decisão que as condições do tempo obrigaram a tomar.
Os planos definitivos dos dois engenheiros, essencialmente idênticos, foram aprovados pelo Príncipe D. João; recebida a comunicação em aviso régio de 5 de Julho do mesmo ano, logo se começaram a executar os trabalhos. Em Dezembro de 1803, estando eles em andamento, Oudinot foi transferido para a Ilha da Madeira, onde faleceu em 1807; continuou a dirigir as obras o citado Eng.º Luís Gomes de Carvalho.
Após porfiados esforços, não sem graves desgostos e contrariedades, a abertura final da barra nova, facto de excepcionaI importância para o progresso de Aveiro, realizou-se no dia 3 de Abril de 1808, às sete horas da tarde. Do acontecimento lavrou-se um auto, que tem a data de 15 de Abril e foi subscrito por Miguel Joaquim Pereira da Silva; depois de referir os trabalhos preparatórios e a maneira como se deu o rompimento da duna de areia, lê-se no documento: – «As águas que cobriam as ruas da praça, desta / 28 / cidade, e os bairros do Alboi e da Praia, abaixaram três palmos de altura dentro de vinte e quatro horas e outro tanto em o seguinte espaço, e em menos de três dias já não havia água pelas ruas [...] e toda a cidade ficou respirando melhor ar por estas providências com que o Céu se dignou socorrê-la e a seus habitantes com esta grande obra da barra». (1)
Existe uma rua em Aveiro com o seu nome: Eng.º Luis Gomes de Carvalho.
Tem publicados vários projetos, estudos e obras.
Em 1820 fez um plano de melhoramento das condições de acesso à barra do Douro e dirigiu a construção de um dique de 600 metros, na extremidade norte do Cabedelo, hoje designado pelo seu nome (2).
Um notável engenheiro nascido na nossa terra e que pelo presente escrito dou a conhecer a sua obra.

(1) Pe. João Gonçalves Gaspar, Aveiro e o seu Distrito, n.º 19, Junho de 1975
(2) Jesus, Maria Eduarda Rodrigues Vieira. Morfodinâmica do Cabedelo da Foz do Rio Douro. Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, 2003


Mapa da Biblioteca Nacional de Portugal - CARVALHO, Luís Gomes de, fl. 1803-1829 - Mappa da Ria de Aveiro para intelligencia do plano da abertura da nova barra / por Luiz Gomes de Carvalho ; sculp. Queiroz. - Escala [ca 1:59000], 3000 Braças = [11,20 cm]. - [Lisboa : na Impressão Regia, 1813]. - 1 mapa : gravura, p&b ; 23,70x67,20 cm, em folha de 26,60x69,50 cm

23.1.15

O atalaiense, António José Vieira de Carvalho – 1.ª Parte

O Convento de Cristo, associando-se à Festa dos Tabuleiros de 2015, recebeu no dia 17 de Janeiro, na Charola, a apresentação do cartaz oficial da festa. Tive o enorme privilégio de assistir a essa apresentação bem como a um excelente concerto da Orquestra de Ouro Preto, de Minas Gerais, Brasil, dando corpo e engrandecendo, através da música e do verbo, a Lusofonia e a Cultura que une os nossos dois povos.
Ora, o homenageado era António José Vieira de Carvalho, que no século XVIII, esteve em Minas Gerais como “Cirurgião-mor do Regimento da Cavalaria Regular da Capitania de Minas Gerais e lente de anatomia , cirurgia e operações no Hospital Real Militar de Vila Rica".
António José Vieira de Carvalho era natural do concelho da Atalaia, comarca de Tomar, arciprestado de Lisboa.
No dia anterior ao concerto tinha o Dr. Paulo Rogério Ayres Lage procurado por mim, na Junta de Freguesia da Atalaia, para saber se existia alguém que tivesse algum elemento histórico sobre tão insigne personagem. Debalde, pois motivos profissionais impediram-me de, nesse dia, o conhecer. No dia seguinte lá estava eu no Convento de Cristo para falar com ele e trocar umas breves impressões sobre tão insigne figura. Ali me ofereceu um livro que editou: “Cerâmica Saramenha - A primeira Manufatura de Minas Gerais”. Um belo trabalho artístico que resgata a história da primeira manufatura daquela terra, fundada entre 1802 e 1808 pelo padre Viegas de Meneses, detentor da técnica de produção, e António José Vieira de Carvalho, proprietário da Chácara Saramenha. Mas não só na cerâmica se distinguiu o nosso António José Vieira de Carvalho. 
Vamos, então, conhecer tão ilustre atalaiense. E nada melhor deixar correr o seu verbo no prefácio inserto numa  tradução sua de um original em francês para português (1)
 “ …  felizmente o meu destino me havia levado a ocupar nas Minas Gerais o emprego de Cirurgião-mor do Regimento da Cavalaria que guarnace a capital desta capitania, onde exercendo, a par de minha profissão, a Medicina prática, pude ver com meus mesmos olhos quanto a espécie humana sofre na inumerável multidão dos negros, que ali transporta a escravidão e o comércio. A mudança do clima, a diferença de tratamento, um trabalho contínuo e desmedido, e até a fome raríssimas vezes interrompida, juntos à triste consideração de seu penoso estado, são outras tantas causas das singulares e gravíssimas enfermidades, a que é sujeita entre nós esta raça desaventurada de homens; que fazendo-lhes a vida pesada e adiantando-lhes a morte, levam à sepultura o melhor dos cabedais daquela e de outras Colônias da América Portuguesa, enterrando com eles o mesmo ouro que os seus braços haviam desenterrado, e secando assim na sua origem um dos primeiros mananciais da Coroa e do Estado. Estimulado, pois desta fatal experiência e do sincero e ardentíssimo desejo de me dar todo ao serviço de Vossa Alteza Real, me subministrou o meu zelo a lembrança de traduzir para a Língua Portuguesa o Tratado que sobre as moléstias dos Negros ordenara e escrevera na Ilha de São Domingos o Mr. Dazille; obra que tendo merecido a aprovação e os louvores de uma Nação tão ilustre, como iluminada enquanto não desvairou da Razão, e de sua nativa lealdade, me serviu de guia na minha prática, e a qual, divulgada por meio deste tratado, pode vir a ser de muito uso em todo o Estado do Brasil, onde, pela analogia de muitas circunstâncias físicas e morais são aplicáveis às observações e às doutrinas de seu Autor; e onde a dificuldade de recursos, pelas imensas distâncias que separam os seus habitantes, e pela raridade de médicos, fazem que pela maior parte o seja um em sua casa. Creio, SENHOR, outra vez o digo, creio ter feito a vossa Alteza Real um agradável serviço, prestando, como cuido, à humanidade, na maior parte, na mais útil e a mais desvalida da população dos seus senhorios da América: e nesta confiança tomo a liberdade de pedir a Vossa Alteza Real licença para dedicar-lhe o meu gostoso trabalho. Se Vossa Alteza Real, aceitando este cordial tributo do meu fiel e humilde obsequio, se dignar de aprovar o meu zelo, eu me darei por bem pago na ventura de ter acertado em agradar o melhor dos Príncipes.”



(1) DAZILLE, Jean Barthélemy. Observações sobre as enfermidades dos negros. Trad., Antônio José Vieira de Carvalho. Lisboa: Tipografia Arco do Cego. 1801.         

27.12.14

Júlio Sousa e Costa - Um ilustre barquinhense


A minha amiga Manuela Poitout, licenciada em Filologia Românica e investigadora de temas históricos e cultura da nossa região, publicou, na última revista “Nova Augusta”, Revista de Cultura, n.º 26, de 2014, edição da Câmara Municipal de Torres Novas, um belíssimo artigo sobre Júlio de Sousa e Costa.

Júlio de Sousa e Costa, nascido em Lisboa, em 1877, foi funcionário público em Lisboa, Vila Nova da Barquinha, Tomar, Leiria, Alcanena e Torres Novas,
Foi, porém, na Barquinha que trabalhou e viveu grande parte da sua vida, onde foi secretário da Câmara Municipal.
Sendo escritor, interessou-se por temas históricos nacionais e par tudo quanto respeitasse ao concelho da Barquinha.
São dele vários artigos publicados nos Serões de Tancos, do qual foi Diretor, Proprietário e Editor.
Através dos livros revelava a sua faceta de republicano assumido, acabando por ver a sua obra proibida pela Censura e de ser perseguido pela polícia política, a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE) criada por Decreto-Lei n.º 29992, de 29 de agosto de 1933, e substituída pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), criada por Decreto-Lei n.º 35 046, de 22 de outubro, de 1945.
Num estudo de 36 páginas, Manuela Poitout, com as limitações de fontes que existem, conseguiu um brilhante trabalho sobre um grande homem, Júlio de Sousa e Costa, que incontestavelmente deu a conhecer o nosso concelho no início no Século XX.

Alguns excertos do seu trabalho:
“ Quem procurar na Biblioteca Nacional, para consulta, o livro de Júlio Sousa e Costa, intitulado O Rei dom Carlos I, factos inéditos do seu tempo (1863-1908), com  a cota 106527P, receberá um volume que mostra na capa um carimbo da Direção dos Serviços da Censura e a menção PROIBIDO, datada de 1 de março de 1943 .
Conhecendo-se a história das relações do Estado Novo com os escritores, não se ficará surpreendido, embora a leitura da obra, por si só, não seja esclarecedora das razões que terão conduzido a Censura a tal decisão, porquanto nela não existe, para o leitor qualquer crítica velada ou explícita ao Estado Novo, nem propaganda subversiva, ou atentado à moral e aos bons costumes.
Na sua narrativa, o autor analisa a conduta do rei D. Carlos e dos seus ministros, e também de D. Manuel II, relatando factos da época. As últimas páginas são dedicadas ao regicídio e aos regicidas, sobretudo a Manuel Buiça, que duas pessoas da Barquinha conheceram pessoalmente. (1)
O Escritor refere-se também ao modo como o país reagiu à morte do monarca e do jovem príncipe, com banquetes clandestinos e congratulações pela morte do soberano» (p. 25) e cita uma carta de Francisco Grandela, escrita doze dias após o regicídio, em que afirmou: «E afinal foi uma coisa tão fácil. Com a morte de cinco pessoas fez-se uma nação feliz.» (p. 25) .Sousa e Costa é muito crítico em relação a D. Manuel II, um perfeito desastrado na maneira de se conduzir perante a dificílima política do seu País», que «atirou os políticos uns contra os outros» (p. 64), e que «não soube caminhar em linha recta sem hesitações», uma «pessoa vacilante na sua opinião, sabendo atraiçoar com um semblante ingénuo». (pp. 65 e 66)
Ainda citando afirmações de Sousa e Costa sobre D. Manuel II, o último rei de Portugal «ajudou com muita vontade a implantação do regime republicano» (pp. 67 e 68), e «talvez não fosse precisa a revolução do 5 de Outubro de 1910» porque «a monarquia estava a cair de podre, de ridículo», (p. 66) .
O texto é um repositório de memórias do autor e dos seus amigos ou conhecidos, muitas delas transmitidas por via oral, e acompanhado de imagens dos reis retiradas da imprensa contemporânea, algumas delas caricaturas de Celso Hermínio (2), amigo de Sousa e Costa desde os tempos de juventude”.

António Roldão, na conferência que aconteceu no auditório do Centro Cultural de Vila Nova da Barquinha no pretérito dia 2 de Outubro de 2010, sobre “A Proclamação da República e a Barquinha de 1910”… disse: “ Mudaram, ou melhor dizendo, baralharam-se os trunfos, acomodaram-se no poder os rostos da visibilidade política da Barquinha, nada de importante, passando aligeiradamente de um para o outro posto do regime sem oposições ou estéril contestação, na plena paz dos anjos” …. vide  http://atalaia-barquinha.blogspot.pt/2010/10/proclamacao-da-republica-e-barquinha-de.html.

No mesmo sentido vai a investigação de Manuela Poitout.
“ Nesse mesmo ano, numa visita a Ramalho Ortigão, perguntou-lhe este:
- Ainda existem lá no seu burgo pitoresco os arreliantes políticos, os caciques, os regedores, os citotes" enfim toda essa boa malta da gentinha que zela admirável e civicamente pela Res Pública?
- Sempre e dignos e austeros, senhor Ramalho Ortigão, cônscios da responsabilidade que lhes incumbe a Carta Constitucional que felizmente nos rege ...
- Belo … Está tudo integrado com coragem!. .. - e  mudando de tom, continuou - E a sua República está de esperanças?
- A República está a chegar!. .. Não lhe dou três anos …”
Esta profecia cumpriu-se, uma vez que a conversação com Ramalho Ortigão tivera lugar três anos antes. E é através de Sousa e Costa, como secretário administrativo do concelho da Barquinha, na mensagem enviada para o Governo Civil de Santarém em 7 de outubro de 1910, que temos um dos registos de como a Câmara da Barquinha e a população reagiram à "chegada" da Republica.
Acuso recebido o telegrama de V. Exa, de ontem, e cunpre-me informar o seguinte: No dia 5, às 6 horas da tarde, soube-se por uns emissários vindos do Entroncamento que havia sido proclamada a República às 8 horas da manhã, imediatamente a Câmara Municipal Republicana  arvorou o estandarte  da República no meio de grande entusiamo e de uma ovação delirante. Tendo sido avisado a comparecer na administração, recebi um telegrama do Exmo. Governador Civil de Lisboa, Dr. Eusébio Leão, para arvorar a bandeira e comunicar o facto às demais repartições públicas o que imediatamente fiz. A escola prática de engenharia aderiu ao movimento, não tendo havido o mais pequeno protesto. Tudo está tranquilo.
E em 2 de novembro, o secretário registou também a adesão das freguesias do concelho, copiando as palavras do administrador:
«Cumpre-me comunicar a V. Exa que todas as freguesias desta administração aderiram ao novo regime tendo prestado voluntariamente a sua declaração de fidelidade.»
E para não parecer estranho ao governador civil que a câmara da Barquinha mantivesse a mesma vereação antes e depois da mudança do regime político, o administrador do concelho, em exercício no ano de 1913, sendo Sousa e Costa o secretário, explicou em ofício que «a revolução de 5 de Outubro encontrou na câmara municipal uma vereação na sua maioria republicana, motivo por que se conservou em exercício.”

(1) Vive, ainda no concelho da Barquinha duas pessoas que conheceram Manuel Buiça de perto - Eduardo Lamas Zagalo Gomes Coelho, proprietário, domiciliado na vila e freguesia de Atalaia, primo do celebrado escritor Dr. Joaquim Guilherme Gomes Coelho, mais conhecido por Júlio Diniz, e Francisco Tacha de Figueiredo, proprietário, residente na vila. Estes senhores deram-me sobre Buíça os apontamentos que abaixo seguem. Tão amáveis informantes frequentavam o Colégio Nacional, da R. das Pedras Negras, onde Buíça era professor (p.257).

(2) «O seu jornal O Micróbio, além de vergastar a ambição de João Franco e a ingenuidade de Hintze Ribeiro, desenhava o rei em permanentes apuros políticos. D. Carlos admirava-lhe o talento artístico, chegando a comentar algumas das caricaturas com Ramalho Ortigão (Costa, 1943, p.54), e Hermínio retribuía-lhe a consideração enviando para o Paço alguns dos seus jornais.» (Sardica, «o poder visível: D. Carlos, a imprensa e a opinião pública no final da monarquia constitucíona1», in Análise Social. nº 203, 2012, pp. 344-368).

15.12.14

Carta-Galeria Arqueológico-Histórica do Concelho de Vila Nova da Barquinha

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Prefácio
- Informar para dar a saber. 
Pois só se ama aquilo que se conhece. Importa iniciar a gestão integrada de toda a informação sobre os bens de interesse cultural do Município de Vila Nova da Barquinha.
Num mundo cada vez mais global onde fervilham múltiplos recursos ao dispor do cidadão, devemos dar o que temos e o que somos.
- José Gomes, um homem que amou a arqueologia
Muito do que temos em arqueologia devemos ao José Gomes. Com o seu denodo e entrega às causas públicas, com o seu afável trato e calma de voz, era para qualquer jovem ou menos jovem um imenso gosto partilhar longos diálogos com tão eminente ser humano. Parte da sua juventude foi dedicada à arqueologia sendo, à data da sua morte (30 de outubro de 2012), tal como foi no restante caminho da vida, uma figura ímpar e proeminente na região do Médio Tejo.
- José Gomes, um cidadão que viveu as coletividades e as instituições
Foi membro fundador dos núcleos de Arqueologia do Grupo Recreativo Soudoense, na sua terra natal, e do Núcleo de Arqueologia da Barquinha, sua terra por opção. Eleito presidente da Associação Centro de Interpretação de Arqueologia do Alto Ribatejo (ACIAAR), desempenhou o cargo até ao último dia de vida com uma entrega inigualável. Em 2003 foi eleito diretor-delegado da ACIAAR. Foi distinguido com a atribuição da categoria de sócio emérito e sócio n.º 1 do Instituto Terra e Memória (ITM), no 1.º Congresso de Arqueologia do Alto Ribatejo, que se realizou no Centro Cultural de Vila Nova da Barquinha, nos dias 11 e 12 de novembro de 2011. O ITM reconhecia, assim, o papel pioneiro de José Gomes, bem como a sua dedicação à investigação sobre o passado e sobre o território, no Alto Ribatejo e fora dele, consolidando também a rede regional de infraestruturas criadas em Vila Nova da Barquinha, Abrantes, Mação e Tomar, numa estreita relação com as populações e em prol da construção do conhecimento. A sua vivência firme, determinada e entrega ao bem comum levou, em 2012, a Assembleia Municipal de Vila Nova da Barquinha, a reconhecer os seus préstimos e atribuir-lhe a Medalha Municipal de Mérito - Grau Prata, por se ter distinguido no campo social, associativo e cultural, condecoração que recebeu no dia 13 de junho de 2012, feriado municipal, no edifício dos Paços do Concelho.
- José Gomes, a quem dedicamos esta carta
Ao longo da sua vida participou em inúmeros trabalhos arqueológicos de prospeções e escavações, muitas delas no nosso concelho de que são exemplos: a Ribeira da Atalaia, Aldeínha - Barreira Vermelha - Fonte da Moita - Pedregoso, etc. Recordo um dos seus sonhos, o levantamento arqueológico da vila romana no sítio que ambos sabemos onde poderá estar localizada, face aos indícios bastantes que aí existem. Ao José Gomes se deve a realização de diversas exposições, conferências e várias publicações. Com ele a Barquinha ficou mais rica pois com a sua prestimosa entrega conseguiu dar a conhecer quem neste atrativo sítio erigiu a primeira construção, quais as obras que foram nascendo, a sua idade e as mãos que as edificaram, quem construiu as estradas, os caminhos, as pontes e as fontes.
Hoje cumpre-se um dos seus sonhos, a feitura da Carta Arqueológica de Vila Nova da Barquinha. José Gomes, lá do assento etéreo onde subiste, podes sorrir pois os teus discípulos, amigos e companheiros de jornada continuam a perpetuar os teus ensinamentos. Quão encantador será descobrir em cada nova pedra a tua memória levantando com palavras o sonho do nosso futuro.
Fernando Freire
Vila Nova da Barquinha, 30 de Outubro de 2014

Carta-Galeria Arqueológico-Histórica do Concelho de Vila Nova da Barquinha.
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18.9.14

Da antiga Imagem de nossa Senhora da Conceição da Matriz de Payo de Pelles

Frei Agostinho de Santa Maria, Santuário Mariano, Tomo III, 1712
(Texto adaptado)
Título XVI - Da antiga Imagem de nossa Senhora da Conceição da Matriz de
Payo de Pelles.


A Festividade da Conceição de Maria Santíssima, é a que os moradores da terra devem solenizar com os maiores júbilos, e alegrias que forem possíveis à sua capacidade não só por ser ela Senhora em sua Conceição a perene fonte de todas as suas felicidades; mas porque sendo de crédito, e de gozo a toda a humana, e Angélica criatura, é a alegria dos homens; porque nesta festividade, ou na Conceição dela puríssima criatura, as reconhecerão; por isso disse Ruperto Abbade: Maria emisit omnia bona, quibas mundus impletur. É a alegria dos Anjos; porque tem na terra, quem lhes pareça em a pureza, e assim disse São Vicente Ferreira: Statim Angeli in Coelo fecerunt festum Consceptionis. E assim esta é a mais celebre, e a mais nobre de suas festividades, que em honra, e glória de Maria celebra o mundo, e faz grandes as mais festividades da Senhora.  Célebre é o Nascimento da Virgem Maria, dia ditosíssimo para o mundo, porque nele recebeu as primícias de suas esperanças, e aquele em que fahio a esta luz, uma Filha adotiva de Deus, para Mãe natural, e verdadeira de seu unigénito Filho; mas essa festa se realça porque a que nasce nunca foi filha da ira, como nós fomos pela original culpa. Solene é a sua temporânea Presentação em o Santo Templo, pela rica, e inestimável oferta, que a Senhora fez de si mesma ao Rei da glúria. Porém não se pode negar, que é muito maior; porque o inferno não gozou das suas primícias, quando foi concebida. Digna verdadeiramente é de todo o aplauso a Anunciação de Maria, ação de grande humildade para o Divino Verbo, porque se viu desde então vestido da nossa humanidade; e singular para Maria, pois naquele ponto, ficou feita Mãe de Deus, que é o seu maior adorno; mas é certo, que maior aplauso merece, por haver chegado a ser Mãe, sem haver sido escrava do demónio. Santa foi a sua Visitação, na qual a ditosa Isabel a nomeou bendita entre todas as mulheres; mas é muito mais Santa, por se saber que em nenhum tempo teve parte na maldição da culpa. Alegre foi a sua Purificação ao mesmo passo que humilde, a cuja cerimonia se sujeitou, sem ser obrigada àquela lei; mas mais se enobrece, sem comparação, com a memória de sua original pureza pois de nenhuma purificação necessitava, a que foi em sua Conceição tão pura. E finalmente é muito extremadamente gloriosa a festividade da Assunção de Maria,e a sua subida aos Céus, pois pisando caminhos de Estrelas, passando por coros de Anjos, e adiantando-se a todas as hierarquias celestes, chegou a tomar assento à mão direita de seu Santíssimo Filho, para reinar eternamente, e triunfar no Império. Mas esse triunfo é muito mais glorioso, por ser de quem nunca foi vencida, antes no campo da batalha levantou o troféu da vitoria. E assim todas as festividades dela Senhora se realçam com a sua Conceição puríssima. Assim o ponderou o venerável Anjo da Paz, dizendo: Que autem festivitas buic preponenda e et exorta debitio. Que foi o mesmo que dizer, que nenhuma festividade pode competir com a grandeza desta, porque as mais só com a memoria dela se ilustram.
Junto à Villa de Punhete (nome derivado da pugna, e guerra, que o soberbo  Zêzere faz ao caudaloso Tejo com as suas soberbas, e impetuosas correntes, e a quem os antigos por esta causa lhe chamarão Pugna Tagi ( de donde se derivou o nome de Punhete àquela Vila) se vê situada entre estes dois referidos rios a limitada Vila de Payo Pelles, com todo o seu termo, e destino ,e tão pouca cousa é, que dela se não conhece mais que o nome. Esta Vila pertence à
Jurisdição espiritual da Prelazia de Tomar, e antigamente se compreendia no termo daquela nobre Vila ,de cuja correição é ainda hoje. Não me confiou em que tempo os Reis enobreceram esta limitada povoação com o título de Vila. Podia bem ser, fosse El Rei Dom João o Terceiro; porque ele foi o que fez Vila o lugar das Pias, e feria para maior autoridade daquela Prelazia.
Fica esta Vila situada ao Sul da Vila de Tomar, em distancia de três léguas, em as ribeiras do Tejo , e pela mesma parte do Sul a divide uma ribeira , da Vila de Tancos.
A Paroquial Igreja desta Vila é dedicada ao mistério da Conceição imaculada de Maria Santíssima , e este titulo parece lhe foi dado modernamente; porque nos tempos antigos se intitulava aquela igreja, Santa Maria do Zêzere, e com este era buscada , e venerada aquela Senhora. É muito antiga esta Igreja, e se vê situada abaixo do castelo do Zêzere, que deu El Rei Dom Afonso Henriques aos Cavaleiros do Templo, em a mesma ocasião que lhes fez também doação do castelo de Ceres, hoje Ceras.
Deste castelo do Zêzere se vêm ainda hoje ruinas onde o Zêzere entra no Tejo , em a foz de Punhete, e fica esta Igreja da Senhora da Conceição entre este antigo castelo, e o de Almourol que edificou o Mestre do Templo , Dom Gualdim Paes. É esta Igreja muito pequena, e na sua fábrica, e arquitetura, se está mostrando a sua muita antiguidade. Nesta Igreja se vê colocada a devota, e antiga Imagem da Santa Maria do Zêzere, a quem hoje invocamos com o nome, e título de sua Conceição puríssima.
É de vulto e obrada em Madeira estofada, sua estatura é grande, etrá seis palmos, pouco mais ou menos.
Com esta soberana Imagem tiveram sempre aqueles moradores circunvizinhos muito grande devoção , e sem embargo de que ainda hoje lha tem, já a devoção de fé mais fria, e é menos o fervor com que a buscam, merecendo pela sua antiguidade, e pelas antigas memórias dos seus favores ser buscada com mais fervor. Antigamente era o presidio, e a proteção (como é sempre, porque esta Senhora nunca diminui o seu amor para connosco) daqueles contornos;
porque sempre a devoção antiga se diminui com a devoção moderna , se a Divina Providencia com as maravilhas , que costuma obrar, não aumenta o calor da fé, e da devoção, em os frios,  e tíbios corações humanos. Tem esta Igreja da Senhora Vigário Freire da mesma Ordem de Cristo que é o Pároco daqueles moradores , que não devem ser muitos.


9.6.14

Dia 13 de Junho de 2014, pelas 15h, no Centro Cultural da Barquinha, lançamento do livro: "Barquinha - Crónicas históricas", de António Luís Roldão

        Nota de abertura
A cultura e a educação têm sido áreas que, entre outras, consideramos essenciais para o interesse dos munícipes. Com esta iniciativa pretende-se, uma vez mais, contribuir para a divulgação do território, da nossa história, da vivência dos espaços e do património legado pelos nossos antepassados, temas que carecem de ser valorizados e aprofundados.
Sabemos que o nosso futuro não está assegurado só pelo facto de ter uma história e uma identidade muito claras e precisas, mas sim pelo compromisso, pelo labor e pela aposta de cada pessoa e instituição. Todos devemos aditar algo ao legado que os nossos antepassados nos transmitiram, colocando o saber e empenho ao serviço do interesse colectivo, ajudando com confiança a construir um futuro melhor para a nossa comunidade.
Apesar da existência de algumas investigações sobre Vila Nova da Barquinha, resta ainda um longo caminho a calcorrear para descobrir a génese desta terra e da sua história, havendo aspectos apaixonantes para mistificar e desmistificar. 
A insipiência das circunstâncias concretas da sua origem, e não esclarecimento dos factos históricos subsequentes, devem-se a problemas relacionados com a ocupação do solo e ordenamento do território na terminologia de hoje, bem como à destruição de fontes pela revolução francesa e, certamente, à incúria dos homens. 
Os primórdios da nossa história passam, obrigatoriamente, pela história do rio Tejo e pela fundação da nacionalidade. 
É junto do Tejo que existem os primeiros povoamentos pois este é um dos rios mais utilizados pela ocupação humana em tempos remotos em toda a Península Ibérica, como prova a descoberta na ribeira da Atalaia de vestígios de instrumentos líticos que vão do Homem de Neandertal (300 mil anos), ao Homem Moderno (24 mil anos). 
Este rio sempre foi, além de fronteira natural, um corredor de comunicação entre as terras altas e as terras baixas, um símbolo de grandeza e de missão histórica de Portugal. Nas suas margens encontram-se o castelo de Ozêzere, o castelo da Cardiga e o castelo de Almourol, todos eles com papel essencial na reconquista cristã. Gualdim Pais, o grão-mestre dos templários, fez deste território o centro nevrálgico da expansão de Portugal.
O mesmo rio e território outrora defendido pelos gloriosos templários, as caravelas de Frei Gonçalo Velho - comendador de Almourol e da Quinta da Cardiga – que aqui foram construídas e navegaram por mares nunca dantes navegados, iniciando pelo mundo a maior epopeia portuguesa de que há memória. 
Um rio que fez dos homens artífices, pescadores e comerciantes. 
Um rio que influenciou todo o traçado da urbe que foi a matriz a partir da qual se estruturaram as outras ruas desta vila. 
Uma região que se afirmou na história de Portugal devido à sua importância estratégica pelo atravessamento de boas vias de comunicação, de que são exemplo as vias romanas e as estradas reais. 
A história da Barquinha é, também, a história do caminho-de-ferro que superou as estradas e a via fluvial, até então predominantes. 
A história da Barquinha é, ainda, a história de três concelhos outrora prósperos - Atalaia, Tancos e Paio de Pele - que se dissolveram, enfim, num só, em 6 de Novembro de 1836. 
A história da Barquinha é a criação de unidades militares por onde passaram milhares de cidadãos no cumprimento do dever militar. 
Muito falta por narrar e dar a conhecer desta terra banhada pelo rio Tejo, essa via civilizacional que, ora em correria, ora em mansidão, nos acompanha na longa jornada de séculos. 
Importa recordar os duros tempos de antanho para ir buscar força e alento ao exemplo dos nossos precedentes por tudo o que fizeram em prol de Portugal. 
Os desafios agora são outros! Dir-me-ão. É verdade! Todavia, sabendo como os nossos antecessores reagiram no passado estamos mais capazes de enfrentar as dificuldades e os escolhos da vida. 
Estamos cientes que muita da nossa história local ainda está por fazer, mas hoje ficamos mais ricos e este estado de alma devemos, decididamente, ao empenho, dedicação e investigação deste grande barquinhense, António Roldão.

Fernando Freire, Presidente da Câmara

2.2.14

Castelo de Almourol

Castelo de Almourol (1830?)
Transcrição do Arquivo Pittoresco, Semanário Ilustrado, Vol. I. 1857-1858

 “O castello de Almourol, cujas ruínas representa fielmente a nossa gravura, é edificado sobre um fragoso ilheo, de forma oval, surgindo do seio do cau­daloso Tejo, a pequena distancia da antiga villa de Tancos, e a cerca de dezoito legoas da capital.
Foi este castello construído, ou, para melhor dizer, reedificado, por D. Gualdim Paes, primeiro mestre da ordem do Templo em Portugal; e por consequência a sua fundação deve ser, pelo menos, anterior alguns annos a 1195, porque neste último faleceu aquelle valorosíssimo cavalleiro.
Espanta como, apesar de abandonada desde tempos immemoriaes, esta elegante fabrica se conserva ain­da no estado em que a vemos; e admira ainda mais que tão pitorescas ruinas não tenham sido de algu­ma sorte aproveitadas, quando seria fácil até construir-se ali uma residência de verão, acastellada, que não teria inveja a nenhuma d'aquellas de que justamente se ufanam as deleitosas margens do Rheno.
Não é isto, porém, o que mais deve agora impor­tar-nos; e por isso, sem mais preâmbulos, passare­mos desde já a dar uma ideia succinta do estado actual d'este notável monumento, aproveitando para esse fim, resumindo-a, a excellente noticia que devemos á erudila penna do sr. conde de Mello. (1)
Olhando do occidente para o castello, descobrem­-se-lhe na cêrca exterior das muralhas, quatro torres circulares, collocadas a distancias eguaes, e mais ou menos derrocadas, sobrepujando um pouco a cortina que entre si as liga.
No meio d'esta e entre a segunda e a terceira tor­re, depara-se com a primitiva porta do castello, hoje inútil, a qual é de forma gothica, terminando em ogi­va, e de pequenas dimensões. Superiormente a esta porta e embutida na parede, vê-se uma grande la­pida, em que se distinguem alguns caracteres; mas a escriptura está em geral tão sumida e apagada, que é impossível decifrá-la.
No meio do recinto ergue-se a torre de menagem, coroada de ameias, em parte bem conservadas. Se­guindo pelo lado que deita para o sul, encontra-se um pedaço de muralha, dando mostra de que alli existira outrora um caes.
Da parte do oriente as ruínas apresentam um aspecto mais formoso e variado. Continua a cêrca exterior, mostrando agora cinco novas torres da mesma forma que as quatro primeiras, sendo ao todo nove as que abraçam e defendem o recinto exterior. A par da torre de menagem, que d'este lado tem duas ja­nellas, se eleva outra torre quadrada, e depois o pri­meiro recinto da fortaleza, que também d'ahi se des­cobre, porque a muralha levanta-se a grande altura torneando a torre de menagem; mas sem· regularidade nos lanços, pois os sujeitaram n'esta parte ás sinuosidades do terreno.
No ilheo desembarca-se do lado do norte, e d'esta parte está elle todo coberto de choupos e salgueiros. Havia aqui um caminho regular para o castello; mas esse caminho acha-se obstruido de pedras, e é for­çoso, querendo-se penetrar no edifício, aproveitar uma abertura que existe entre a terceira e a quarta torre.
Entrando-se de feito por aqui, encontra-se o obser­vador em um pateo interior do castello; uma porta que deita para este pateo, e communicava indubita­velmente com os aposentos dos andares superiores, está murada; provavelmente por terem desabado ou estarem ameaçando ruina aquelles. Sobre esta porta, que também termina em ogiva, vê-se um escudo de pedra, um pouco mais branca que o resto do edifício.
Por algumas fendas que existem nas paredes, e pelas poucas e esguias janellas que deitam para esta área; se póde conhecer que os aposentos rematavam em abobada; e pelo que d'ellas resta se vê egualmente que deviam ser ornadas de ricas laçarias; nenhuma, porém, se conserva inteira n'este plano, o que é realmente muito para lastimar.
Da obra de Gualdim Paes nada mais resta hoje: mas pelo que existe pôde affirmar-se afoutamente que foi acabada com singular esmero e que alli trabalharam sem dúvida os melhores artífices que então viviam em Portugal; aliás não teria resistido tantos seculos ás injurias do tempo, e á incúria dos homens.
De situação d'este castello quasi a meio do rio, da constituição geologilica do ilheo, e por ventura da valente construção das muralhas da velha fortaleza nasceu o pensamento de fazer passar sobre elle a ponte, na qual se ha de assentar a via ferrea que deve ligar o caminho-de-ferro de leste, na secção de Lisboa a Santarém, com a linha que atravesse a província do Alemtejo em direcção a Elvas e Badajoz. N'este caso, o ilheo e castello formariam como que um gigante encontro natural d'aquella grande obra.
Sem de modo algum nos oppormos a que sejam aproveitadas convenientemente as vantagens que para semelhante fim proporciona a posição do castello de Almourol, já daqui rogamos encarecidamente a quem entender sobre este objeto, que as venerandas e poéticas ruinas sejam poupadas e reparadas.
Que os viajantes estrangeiros quando percorrerem no futuro aquela importantíssima linha, não hajam de presencear mais um acto de indesculpável vandalismo. Ao lado d'essa grande conquista do progresso, deixem existir ao menos, sem o profanar, o bello monumento do valor e heroicidade de nossos maiores”.  

(1)         Jornal das Bellas Artes, 1.ª serie, n.º 3, tomo 1, janeiro  1858 (?) - - litografia de: MELO, Conde de, 1801-1865, Ruinas do castello d'Almorôl, sobre o Tejo [Visual gráfico / Conde de Mello copiou do natural ; Franco lith.. - [Lisboa?. : s.n., ca. 1830?] ([Lisboa] : Off. R. Lith. - 1 gravura : , Data atribuída segundo o período de actividade da impressora. - Dim da comp. sem letra: 12,2x16,6 cm (com esquadria) - Biblioteca Nacional

22.12.13

Os Autos da Barquinha - Gelo por Sal (De Emílio Miranda)

 “Tagus, Tejus, Tejo.
Muitos nomes, um mesmo rio.
Fenícios, Cartagineses, Romanos e Árabes rasgaram as suas águas, fazendo dele uma estrada de eleição…
(...)
A história do Tejo é uma história milenar de que a maioria dos mortais apenas pode fazer vagas suposições, muitas delas baseadas no saber adquirido pela experiência de ver os elementos a interagirem com o rio e com a terra. Ao longo de séculos, os homens sulcaram as suas águas, fintado a sua braveza, servindo-se do obstáculo que constitui para definirem fronteiras e barreiras contra exércitos, inimigos ocasionais e todo o tipo de perigos, alguns mesmo imaginários. E esse conhecimento dá-lhes às vezes a ilusão de que o compreendem, de que conhecem as suas manhas, mas a verdade é que a vontade do Tejo e os seus caprichos são insondáveis.”
Será verdade que o caminho-de-ferro viria para ditar a morte do rioTtejo?
Para descobrir o encantamento deste livro é fundamental quer recuemos no tempo.
O Tejo era a fronteira. Dum lado começava o norte e do outro iniciava-se o sul. Daí a nossa região estar marcada por fortalezas militares singulares (Ozezere, Almourol e Cardiga) marcadas por um intercâmbio dominado na faina fluvial pelas embarcações. O Tejo sempre foi além de fronteira natural, um corredor de comunicação entre as terras altas e as terras baixas.
Ainda hoje, em Vila Nova da Barquinha, se podem vislumbrar os antigos poiais e escadas, sempre mais altos do que o normal curso de água para evitar a sua entrada no interior dos armazéns. A zona do Centro Cultural é a que mais confessa sobre a vida antiga do núcleo urbano barquinhense, local onde se privilegiou o comércio, a sua união com o rio, as suas vivências e até as suas cheias. É neste quarteirão que se perpetua os vestígios da nossa história cunhada de arquitectura e de urbanidade.
Neste quarteirão podemos vivificar as lajes de pedra calcária guarnecendo os pavimentos dos pisos térreos, vestígios da adaptação local à vivência das inundações que, frequentemente, e com a sua adversidade nos invadiam. Cheias que eram uma bênção, pois com a fertilização dos campos nasciam os denominados “nateiros” nos quais se produziam abundantes cereais e produtos hortícolas.
Neste espaço urbano os pisos térreos eram ocupados com armazéns e comércio, quase sempre ligados à faina do rio. Os fluxos comerciais entre as Beiras, e Lisboa faziam-se, principalmente, pelo rio, levando e trazendo permanentemente produtos que aqui eram transbordados, comercializados e levados do e para o interior dos territórios adjacentes, como é exemplo o sal, o azeite, as madeiras, a retrosaria, o gelo etc.
 “ O gelo - amontoada em pequenos montículos será depois acartada em cestas, às costas, até ao poço de gelo mais próximo. Nada é deixado ao acaso, para que o gelo resultante seja da melhor qualidade. Limpo, cristalino e sem impurezas. Liberto de gostos e dissabores …
Há que arrebanhar a maior quantidade possível de neve enquanto se mantém solta e límpida, e depois guardá-la naquelas cavidades profundas, onde será compactada até se transformar em gelo. Tapado por palha e fetos, o gelo permanecerá ali até ao final da primavera, início do verão, altura em que será então cortado em grandes blocos e transportado em carros de bois, pela serra, até Constância e Barquinha de onde embarcará em barcaças, rio abaixo, desta feita até Lisboa, aos armazéns do Martinho da Arcada, e outros de menor nomeada, para deleite de senhores e senhoras”.
O Sal - Os soldados romanos chegavam a ser pagos em sal, de onde vêm as palavras “salário”, “soldo” (pagamento em sal) e “soldado” (aquele que recebeu o pagamento em sal). Na Idade Média o sal era conhecido como “ouro branco”. Ouro por ser o tempero mais usado nos alimentos. O sal vinha da foz do rio Tejo.
Descarregado o gelo, e de modo a rentabilizar o frete, é carregado o sal, chegado das salinas vizinhas da capital, sobretudo de Alcochete, onde é de excelente qualidade,
rumando desta feita até ao interior do reino, acondicionado em sacas de serapilheira nos porões das mesmas barcaças…”
Era um dos produtos mais comercializados cujo topónimo deu nome à nossa Rua do Sal, aqui mesmo ao lado. Sabe-se que na Rua do Sal existiram dois importantes depósitos, um no edifício da Família Pereira e outro no edifício da Família Condeço.
Há a magia de uma história que nos narra a presença dos franceses na 1.ª invasão, a sua passagem pelo Zêzere e a chegada a Tancos.
A sua obra está cheia de obscurecidas personagens, plena de sentimento de pertença e intemporalidade.
O percurso ficcional e verídico dos acontecimentos interligam-se com o humanismo e o sonho das suas personagens, desde as trincheiras nas terras da Atalaia até à fuga de barco para o outro lado do Tejo, para os lados do Arrepiado, ou dos amores dos homens do rio.
Desde o retrato da Vila de Tancos, à época, com o apogeu comercial em contraste com os armazéns vazios aquando da chegada dos franceses que tudo pilham.
… Não esquecem os mais velhos as histórias que falam do tempo em que ao Arripiado se refugiaram os da outra banda, quando os franceses invasores chegaram a Tancos para pilharem e incendiarem teres e haveres; abominável realização, a da guerra. Melhor seria se a cobiça se transformasse em festa e a fraternidade em alimento da alma. Àquele rossio acodem diariamente dezenas de carros e carroças, puxados por mulas, cavalos e juntas de bois em busca do que se torna necessário nas povoações do interior, e que chega em embarcações que sobem e descem o rio: as provenientes das terras altas cruzam-se muitas vezes com as que chegam de Santarém, Vila Franca e Lisboa. Mercadorias passam de mão em mão, são carregadas e descarregadas, transacionadas enquanto o diabo esfrega um olho. Notícias e rumores circulam: o rio é um pasquim, e, o mundo, um circo, um local mágico de invenções e exageros”
Emílio, narra-nos a parte violenta, a chegada dos Franceses à Barquinha. Aqui vão encontrar a resistência possível. Em ficção, coloca barquinhenses de hoje, no tempo das invasões francesas. Homens de Atalaia com afectos e histórias de vida, com sentimentos de dor, de suor e de lágrimas, que vêm a chegada do invasor que tudo assola: os sonhos, as terras e o próprio sustento.
O drama de Benilde, a filha do moleiro, que se apaixonou pelo invasor francês e que, descoberta a relação amorosa de ambos, veio o seu amado a ser chacinado pelo povo de Tancos.
O mistério das Mortes Ramiro e Roberto, que afinal incomodam muita gente!
A relação do médico Dr. Ambrósio com a Rosa-dos-Ventos, a curandeira, as tascas, os caminhos, as fontes e as pontes.
Prende-nos à narrativa a dinamismo das personagens. Uma linguagem singela onde os valores morais de alguns personagens alcançam crueza intemporal. É um romance emocionante, intuitivo que nos absorve e nos ensina a respeitar, ainda mais, os nossos antepassados e nos dá a conhecer a dureza dos trabalhos no rio. A construção da Ponte da Praia do Ribatejo, a primeira ponte ferroviária do país, no tempo de el rei D. Pedro V. A obra atrai-nos às lembranças dos nossos antepassados, às velas brancas, esvoaçando pelo límpido rio Tejo abaixo, em cujas margens, cobertas de canaviais, acena um alto bosque de choupos pretos. Recorda-nos a grande azáfama e atividade da Vila onde ecoavam os sons dos malhos de construção de barcos e os ásperos berros dos barqueiros, a confusão  dos atos de comércio onde homens se apinhavam, os pequenos barcos na margem, as mercadorias que iam embarcando para o fornecimento de Lisboa, as mulheres a lavar à beira do rio.
Gelo por Sal
Tantas histórias e tantas memórias!

Quem quiser ler que leia, pois o Tejo, pela mão do Emílio, conta orgulhoso a sua história!