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ATALAIA, Vila Nova da Barquinha, Portugal
Vivendo nesta terra há 20 anos vou perguntar à história e à tradição qual a origem desta localidade. Desejo saber quem neste atractivo sítio erigiu a primeira construção, quais as obras que foram nascendo, a sua idade e as mãos que as edificaram, quais os seus homens ilustres e os seus descendentes, quem construiu as estradas, os caminhos, as pontes e as fontes. Quão agradável será descobrir em cada pedra os nossos antepassados levantando com palavras o sonho do nosso futuro. Atalaia, 18-11-2007.

14.3.12

Volume 1, Edição 1, do Centro Social e Paroquial da Atalaia, IPSS, Centro de Dia e Creche, CRESCER SOLIDÁRIO

O Centro Social e Paroquial da Atalaia (CSPA) constituiu-se para dar expressão ao dever moral de solidariedade e justiça entre os indivíduos, para fins de apoio às crianças, à família, à integração social e comunitária e de protecção na velhice. Este dever moral de prestar assistência é ao mesmo tempo dever cívico ou de justiça social e preceito religioso de caridade.
Dos estatutos do Centro Social e Paroquial da Atalaia (CSPA) consta a existência de uma Liga de Amigos cujos objectivos são os de apoiar e colaborar na prossecução das actividades do Centro quer através de trabalho voluntário quer de singela contribuição material.
A obra erigida pelos atalaienses, a funcionar desde Setembro de 2011, tem dado uma ajuda preciosa aos idosos e às famílias com filhos menores. É desejo dos seus responsáveis alargar essas respostas tendo já adquirido uma propriedade do lado norte com o Centro para futura ampliação. Contudo, infelizmente, a instituição tem necessidades financeiras uma vez que o investimento nas instalações foi elevado a que acresceu a compra de terreno para ampliação futura.
Portanto, atalaienses, unamos esforços para prosseguir uma obra que é de todos. É fundamental que cada um de nós se inscreva e faça parte da Liga ou que ajude de qualquer forma. Só uma participação activa procriará riqueza para os presentes e para os vindouros. Como ajudar de imediato, questionar-me-ão? Em todos os últimos sábados de cada mês a Liga organiza um jantar no Centro para a recolha fundos. Cada inscrição tem o valor de 10€. O 1.º jantar foi um sucesso com a sala completa. Vamos continuar pois sabemos que são os grãos pequeninos que dão frondosas árvores!

5.3.12

A RESTITUIÇÃO DOS BENS DA IGREJA DA ATALAIA EM 1931

Por: António Luís Roldão

A perseguição movida pelos detentores do movimento republicano em ordem à instauração de um modelo político capaz de dar satisfação às legítimas aspirações do povo, saldou-se por um evidente fracasso. O mal da nação não estava na igreja Católica nem na sua doutrina, antes na incapacidade das cabeças pensantes e politizadas chamadas a corrigir os erros, os desvios, os abusos e o autoritarismo que minavam o país, sendo impotentes para obter um êxito sustentável. Essa incapacidade leva-os a ver fantasmas onde quer que fosse, obstáculos aos seus propósitos de governação, olhando a Igreja Católica e tendo-a como principal inimiga e impecilho do processo reformista pensado para a salvação da Pátria. O arrolamento dos bens da Igreja ocorrido em 1911 e a suspensão do culto católico até 1917, foram das principais medidas de coação tomadas, tendo por objectivo a asfixia da religião. A Atalaia, a sua Igreja e as Capelas que se estavam sob a sua alçada, a do Senhor Jesus da Ajuda; a da Moita; das Vaginhas e S. Caetano, viram-se espoliadas e impedidas do uso regular dos seus bens durante muitos anos. É a restituição desse espólito feito em 10 de Janeiro de 1931, como peça histórica que agora se revisita, dando conta dos actores presenciais e autorizados em acto tão importante; Francisco Monteiro da Silva; Joaquim José Vieira; João dos Santos Gil; Manuel Rodrigues Maia; Bernardino Gomes; Luís Falcão de Somer e Luís Augusto da Costa Ramos.

TEOR DO DOCUMENTO

Inventário ou arrolamento da Igreja da Atalaia – Igreja Paroquial ( Monumento Nacional ) sacristia, casa da Irmandade, e dependências. Casa e dependências foram demolidas na ocasião das obras de restauração da Igreja (Monumento Nacional – 1939). Uma custódia de prata, com pedras; um cálice rico, de prata dourada, com pixide (vaso do sacrário) de prata dourada; uma dita de metal dourado; uma cruz de prata para a extrema unção; dois pequenos resplendores de prata; duas pequenas caixas de prata para os santos; três lâmpadas de latão amarelo; dois turibulos e suas gavetas com colheres, tudo de metal amarelo; uma pequena campainha; três sinos na torre e um no relógio; uma caldeirinha para água benta de metal amarelo; ambulas de estanho para os santos óleos; uma concha de metal para os baptismos; uma chave de sacrário com fita encarnada; trinta e dois castiçais de pau dourado para os altares; quatro crucifixos de pau dourado, dois tocheiros na forma de castiçais para junto do altar-mor; seis varas do palio douradas; duas lanternas para junto do páleo; uma cruz processional; dois tocheiros processionais; duas cadeiras de couro (velhas); sete bancos de madeira de pinho; uma credencia, um banco com três assentos e almofadas; uma escada para as lâmpadas; um pequeno arcaz para arrecadação de roupas e alfaias; dois confessionários volantes, uma estante de missal; dois missais e três sacras; cinco pedras de ara, vinte jarras de porcelana; um berço do Menino Jesus; um sudário; uma capa de asperges de damasco roxo; uma capa de asperges de damasco branco, duas dalmáticas, estolas e cingulos de damasco branco; uma casula de damasco branco com estola e cingulo; mais duas idênticas; uma encarnada; uma verde; uma roxa; uma preta; cinco bolsas de corporais de diferentes cores; seis véus do cálice de diferentes cores; um pequeno véu de damasco para a estante do missal; uma estola paroquial de damasco branco e roxo; uma estola paroquial de damasco preto; uma manga de cruz de damasco branco; uma manga de cruz de veludo preto; um pavilhão de damasco branco do sacrário (velho); um pavilhão de damasco encarnado; um pavilhão de damasco do esquife, branco; um palio de damasco branco para seis varas; um frontal de damasco branco, com ramos; outro do mesmo tecido, sem ramos; um frontal de damasco branco/encarnado (velho); uma umbela de damasco branco; um reposteiro de damasco encarnado da porta principal; duas pernas de sanefas do arco do cruzeiro – de damasco encarnado; dez sanefas de damasco encarnado (bastante rotas); doze pernas de damasco encarnado; uma sanefa e pernas de algodão encarnado; cinco capas de lã encarnada (velhas); cinco capas de lã branca; treze toalhas de linho dos diferentes altares; dez toalhas de algodão; três alvas de linho; três amitos de linho; três cingulos para as alvas; oito sanguíneos; três manustergios; uma sobrepeliz; um Ritual de Paulo V; cinco coberturas de chita para os altares; Imagens = Nossa Senhora da Assunção - padroeira da freguesia; S. Francisco de Assis; Nossa Senhora do Rosário; Santo António; Menino Jesus; um quadro em tela (N. Srª da Piedade) um dito – S. João Baptista. O processo de onde é possível extrair a presente peça histórica contempla a restituição das alfaias litúrgicas e paramentaria das referidas Capelas dispersas pela paróquia Atalaense, curioso e exemplar documento na minúcia do inventário e na preocupação de restituir inteiramente os espólios arrolados em 1911. De salientar, como nota final, a presença, no rol dos figurantes a quem cabe a responsabilidade de receber de volta, os pertences da Igreja, a presença de políticos coniventes com os comissários da República, creio que por aproveitamento e segurança dos estatutos sociais mais do que por convicção.

1.1.12

CARTAS DE PRIVILÉGIOS À VILA DA ATALAIA

Uma das paixões de qualquer investigador é datar a origem de qualquer vila.

O desconhecimento das circunstâncias concretas da origem medieval da Atalaia não olvida uma leitura atenta aos documentos agora republicados no presente blog.

Podemos afirmar que a origem da Atallaya, enquanto lugar com privilégios reais remonta, pelo menos, aos primórdios da nacionalidade. As cartas abaixo contam-nos as quezílias da Atalaia, e da Asseiceira, com os territórios vizinhos e confinantes, a criação de póvoas ou, melhor dizendo, de concelhos, além da procura de letra de lei real para pôr termo aos abusos de que eram vítimas os nossos antepassados e, também, através dela adquirir direitos às suas gentes.

Os estudos devem prosseguir procurando esclarecer e divulgar as verdadeiras origens desta bonita vila.

OBS. No fim das Cartas abaixo indica-se a era de ..., exemplo: "(...) era de mil e trezemtos e coremta annos " que corresponde ao ano de 1302. Recorda-se que aquando da feitura da Carta, vigorava a era de César, baseada no calendário juliano que iniciara a contagem dos anos em 1 de Janeiro do ano 38 a.C. Este método de datação vigoraria em Portugal até ao ano de 1422, ano em que por Carta Régia de 22 de Agosto, viria a ser substituído pela Era de Cristo, cuja contagem se iniciava no ano 1 do Nascimento de Jesus.

CARTA DE 1302 DE D. DINIS


“ Dom Dinis per graça de Deus, Rey de Purtugal, e do Alguarve. A quamtos esta carta virem faço saber, que pello muyto mal que amim disseram, e que eu sey certo que se fazia no Soveral da lameira, que he amtre Tomar e a Golegam, matanldo hy os homens, e molheres, e esbulhamdo e tendo lhe hy o caminho, e fazemdo hy muyto mal, e muvto mallfeytoria; pera se partir este mal todo, e todos estes danos e todas estas perdas, emtemdemdo que he serviço de Deos, mamdei, e mamdo ao comcelho de Torres novas, cujo termo é aquelle luguar, que façam hy duas povoras; a saber: huua nallbergaria a que chamam a Ceiceira, e a outra lugar onde chamam Atallaya no caminho, no qual luguar hy devisou Ruy Paees bugalho quando lá foy com os Juizes de Torres, e querendolhe fazer graça e merce a todos aquelles que ha povorarem, e morarem comtinuadamente, tennho por bem, e mamdo que sejam escusados d'ostes, e de fosado, e dadua a que nom vam em ella em nenhuum tempo. Outro sy mamdo e tenho por bem que de todas aquellas vinhas que fizerem nos termos de sas pobras, que nom dem do vinho que nellas ouverem nenhuua releguajem em nenhuum tempo, mas mando, e tenho por bem, que se vinho trouxerem pera hy doutros lugares pera vemder no releguo, que dem de toda carregua huum almude como o custume de Samtarem, e no mais: e o vemdam tambem no releguo em cuba como em tonel, como se cada huum pagar. E outro sy a todos aquelles que esta carta virem, faço saber que eu Recebo em minha guarda, e em minha emcomemda, e sob meu defemdimemto todos aquelles que morarem em esas povoras sobreditas; e seus homens, e seus herdamemtos, e cryados, e todallas outras suas cousas, porque mamdo, e defemdo que nenhuum seja ousado que faça mal, nem torto a elles, nem a seus homens, nem a suas herdades, nem a seus guados, nem nenhuuas suas cousas; e aquelle que ende al fizer, ficará por meu ymiguo, e peitarmia os meus emcoutos de seis mil solldos e corregeria a elles, e a cada huum delles em dobro o mal que lhes fezese, e dey emde aos ditos povoradores esta carta. Damte em Samtarem adesoyto dias de Fevereiro. ElRey o mandou. Francisco Annes a fez, era de mil e trezemtos e coremta annos.” (ano de 1302 d.C.)

2.ª CARTA DE 1303 DE D. DINIS

“Dom Dinis, per graça de Deus, Rey de Purtugal, e do Alguarve. A quamtos esta carta virem faço saber, que eu sabemdo por verdade que se matavam muytos homens, e faziam muitos roubos, e muitas malfeytorias em termo de Torres novas, a saber: no Soveral dabureiras; que he amtre aguoa de cardiga, e bellsega, fiz fazer huua povra no lugar que chamam Atallaya, e outra na Ceiceira, e outra amtre essas povras no lugar que chamam a Tojeira, e eu por minha allma em remimento de meus pecados, querendo fazer graça e merce a eses que morarem em esas povras, quitolhe a minha jugada pera todo sempre do pam, e do vinho, e do linho que ouverem em essas povras, e termo das ditas povras. Em testemunho desto lhe dey esta minha carta, damte em Lixboa a cimquo dias de Setembro. ElRey o mamdou. Afomso Pires a fez, de mil trezentos coremta e huum anos.” (ano de 1303 d.C.)

3.ª CARTA DE 1307 DE D. DINIS

“Dom Dinis, per graça de Deus, Rey de Purtugal, e do Alguarve. A quantos esta carta virem faço saber, que hos povoradores das minhas pobras da Tallaya, e da Ceiceira se me emviaram queixar do mal, e força que lhes faziam os Concelhos de Torres novas, e Tomar, e dalguus outros lugares queremdo por sobre elles Releguos, e portajens, e allmotaçarias, e açouguajem, e mordomado, e outros foros, e custumajens, perque hos derramcavam, e destroyam do que eses povoradores aviam em tal guisa, que nam. podiam sofrer, nem poderiam a hy morar, nem povorar, e pediramme que lhes ouvese merce. E eu queremdolhe" fazer graça, e merce, e porque emtemdo que he meu serviço, Mamdo que estes povoradores nom dem aos ditos comcelhos, nem a nenhuum outro lugoar nenhuua das sobreditas cousas elles, nem os moradores dos termos das ditas pobras; e mamdo, e defemdo aos ditos Comcelhos de Torres, e de Tomar, e dos outros lugares, que lhes nom demamdem, nem filhem nenhuua das ditas cousas, nem ponham sobre elles foro, nem custume allguum; e se lhes allguua cousa tem filhada polla dita resao, mamdo que loguo, vista esta carta, lhe emtreguem, sob penna dos corpos, e dos meus emcoutos: em testemunho desta cousa dey aos povoradores dos ditos lugares estaa minha carta, damte em Samtarem a dous dias dabril. ElRey o mandou por Gilly Annes, seu tisoureiro. Ruy Vasques a fez, anno de mil e trezemtos e coremtae cimquo” (ano de 1307 d.C.)

4.ª CARTA DE 1325 DE D. AFONSO IV

“Dom Afonso, per graça de Deus, Rey de Purtugual, e do Alguarve. A quamtos esta carta. virem faço saber, que hos povoradores das povras datallaya, e da Ceiccira, me mostraram huúa Carta delRey Dom Dinis meu padre, a que Deus perdoee, em a qual he comtheudo amtre as outras causas, que por agravamemtos que lhes faziam os comcelhos de Torres novas, e Tomar, e outros lugares, queremdolhes poer sobre elles Relegos, e portagens, e allmotaçarias, e açoguajees, e mordomos, e outros foros, e custumajens, perque os derramcavam, e destroyam do que aviam, que lhe, pediam sobre esto merce; elRey meu padre vemdo esto, queremdolhe fazer graça, e merce, mamdou que hos ditos povoradores nom desem ao ditos comcelhos, nem a nenhuus outros lugares as sobrditas causas, e elles nem os moradores das ditas pobras, e mamdava aos ditos comcelhos de Torres novas, e de Tomar, e dos outros lugares, que lhes nã demamdasem, nem filhasem nenhuua das ditas cousas; e pediram me por merce, que eu lhes fizese esto comprir, e guardar, segundo era comtheudo na dita carta delRey meu padre: e eu queremdolhe fazer graça, e merce, tenho por bem, e mamdo que lhe seja guardada a dita carta delRey meu padre, assy como em ella he comtheudo, e mamdo aos ditos Comcelhos que lha façam cumprir, e guardar. E em testemunho desto lhe dey esta minha carta, damte em Santarem postomeiro dia de Janeiro. ElRey o mamdou per Mige1 Vivas, seu clérigo. Lourenço Martins a fez, era de mil e trezemtos e sesemta etres annos” (ano de 1325 d.C.)

5.ª CARTA DE 1328 DE D. AFONSO IV

“Dom Afonso, per graça de Deus, Rey de Purtugal, e do Alguarve: a todallas Justiças; corregedores dos meus Reynos, que esta minha carta virem, faço saber os povoradores da minha povora datallaya, e Ceiceira me diseram que vós lhe nom queriades leixar levar as viamdas que ham mister pera dita povora, e esto nam tenho eu por bem se asy he, porque vos Mamdo a cada huum de vós em vossos lugares, que vós lhe leixes levar as viamdas ho que ham mister pera dita povora por seus dinheiros, e nom lhes embarguedes o que al nam façades, se nam a vós me tornaria eu porem, e peitarmiades os meus emcoutos. E em testemunho desto lhe dey esta minha carta, damte em Miramda adezasete de Janeiro ElRey o mamdou por Estevam Pires. Joham Lopes a fez, era de mil e trezemtos sesemta e seis annos.

Todas as cartas são originais, apresentadas perante a autoridade real, conforme se infere do Livro 28 da Chancelaria d’ElRei D. João III, fl. 1

1. As quaees cartas asy mostradas como dito he, o dito Estevam Paees, precurador do dito comcelho, em seu nome nos pedio que elle se temia de se as ditas cartas perderem per foguo, ou aguoa, ou allgum outro cajam; e que se emterndiam dajudar dellas ao diamte, que lhas mamdassemos dar o trellado das ditas cartas, e privilegiós pella guysa que em ellas he comtheudo; e nós vemdo as ditas cartas em como nam eram riscadas, nem viciadas, nem em nenhuum lugar sospeitas, Mamdámos lhe dar o dito trelado em esta nosa carta testemunhavel, selada com noso sello pemdemte; em testemunho desta lhe mamdámos dar esta nosa carta, damte na cidade de Lixboa quimze dias de Novembro. ElRey o mamdou por Lourenço Annes Fogaça, seu vasallo &c. Gil Vasques a fez, era de mil e quatro centos e vintoyto annos.

2 . Pedimdonos o dito concelho que lhas quisesemos asy confirmar, e nós visto seu Requerimento, queremdo-lhe fazer graça e merce, temos por bem, e confirmamoslha como se nela comtem. E asy mamdamos as Justiças que lha cumpram imteiramemte como nela he comtheudo, sem allguua duvida, nem embarguo allguum. Dada em Samtarem a dous dias do mes de Junho. Fernam de Pina a fez. Anno de noso Senhor Jesus Chrispto de quatrocentos e oytemta e sete annos.

3. Pedimdonos o dito comcelho que lhe comfirmasemos as ditas cartas aquy comtheudas, e vysto per nós seu Requerimento, e queremdolhe fazer graça e merce, temos por bem e lha comfirmamos asy, e pela guysa, e maneira que se em ella comtem. E asy mamdamos que se cumpram, e guardem imteyramemte sem nenhuma duvida; dada em a villa destremoz a vimte cimquo dias de Dezembro. Vicente Pires a fez. Anno do nascimento de noso Senhor Jesus Chrispto de mil e quatro cemtos novemta e seis annos. Pedimdome os sobreditos que por lhe fazer merce lhe comfirmase as ditas cartas á dita villa datallaya, e visto por mym seu Requerimemto, queremdolhe fazer graça e merce, tenho por bem de lhas comfirmar, e mamdo que se cumpra, e guarde como nellas se conthem. Bastiam Lameguo a fez em Lixboa a desanove de Setembro de mil e quynhemtos e vimte oyto annos.

Bibliografia: MEMÓRIAS DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA, TOMO VIII, PARTE I, 1823 e Livro 28 da Chancelaria d’ElRei D. João III, fl. 1

26.12.11

CONFLITOS SOBRE A LEZÍRIA DA ATALAIA (REINADOS DE AFONSO III E D. DINIS)

O Tejo depois de calcorrear montes e rasgar vales abraça a borda de água em Vila Nova da Barquinha. A partir daqui espalha a sua tumultuosa riqueza pelas planícies. As lezírias, mouchões e pauis acomodam-se às inundações recorrentes que invadem as terras da beira-rio, sinal de fertilidade e de abundância. Semeiam-se os campos, crescem as espigas e as vinhas, pululam olivais e a maior diversidade de árvores de fruto, avulta o gado cavalar, muar, asinino, bovino, arietino, caprino e suíno. O rio, nas zonas alagadiças, é o grande impulsionador agrícola e mercantil. Não espanta pois que este território, desde os primórdios da nacionalidade, tenha sido alvo de contendas pelo seu domínio ou posse. Os reis da reconquista concederam muitas das terras das lezírias às ordens militares mas quase sempre invocavam para a Coroa “ o direito de reconquista que filhou a terra aos mouros e a pobrou”. As mesmas lezírias foram causa para muitos conflitos no reinado de Afonso II e III, com relace para os casos da Lezíria da Atalaia, no termo de Santarém.
São estes conflitos que dou a conhecer.
Sentença dada por Paio Domingues, Deão de Évora, e Mestre Martinho, como «arvidros e compõedores», em um pleito sobre a propriedade da Lezíria da Atalaia, termo de Santarém, em que eram A. (autor) e R.(réu) respectivamente o Concelho desta vila e Lourenço Esteves de Fremoselhe, Arcediago de Viseu. O R. herdara a referida lezíria de Estêvão Joanes, Chanceler de D. Afonso II, o qual a houvera por doação do Concelho de Santarém que alegava, agora, a nulidade desta doação por haver sido feita sob coação e por temor do donatário. Os juízes julgaram nula a doação e ordenaram a restituição da mesma ao Concelho, ao qual ficaria pertencendo de pleno direito em propriedade e posse. Na sentença são transcritos por íntegra: 1) - Procuração, com poderes forenses, ao «tenente» do Alcaide, aos Alvazis, Almoxarife d’el-rei e Homens bons, datada de 12-11-1281, redigida em português. 2) - Compromisso de arbitragem entre as partes pelo qual os AA. escolhem como árbitro Paio Domingues, e os réus Mestre Martinho; datado de 12-2-1282. 3) - Libelo dos autores; sem data. Dada em Santarém, em 5.a feira, de Fevereiro de 1282. Lavrada pelo tabelião Lourenço Esteves. 530 X 259 mm., bem conservada. Teve 4 selos todos pendentes por cordão de lã vermelha, dos quais se conservam apenas o do Concelho de Santarém e um fragmento do último que era de cera vermelha e deve ser o do réu. «Gaveta» 3, M.º 7, N.º 5. Sumariado na Reforma dos documentos das Gavetas, L.º 7, fI. 116; e transcrito por íntegra na «Leitura Nova», L.º 12 da Estremadura, fI. 168, col. 1.ª. Num sumário lançado no v.º do pergaminho, por letra coeva, lê-se «Carta de juízo de avença... ». Como representantes do Concelho outorgam os seguintes indivíduos: Martim Mendes, «tenente» do Alcaide D. Martim Dade; Geraldo Rodrigues e Rui Pires, Alvazis; Estêvão Gomes Ramos; Pedro Esteves, Almoxarife d’el-rei na vila; João Gomes; Felipe Guilherme; Martim Anes, o Cancelas; João Gonçalves; Mendo Afonso; João Eanes do Ferrageal e Estêvão Eanes, o Caçapo. Quatro selos, pendentes por cordões de lã vermelha, dos quais apenas restam o do Concelho e um fragmento do último, irreconhecível, de cera vermelha. O de Santarém é de cera vermelha, de 2 faces. Circular; tem ainda visível no anverso, vestígios da orla circular formada por uma linha ponteada. Mal conservado, pois lhe falta o rebordo e parte da legenda, além de os relevos estarem já algo apagados, especialmente no reverso. Diâmetro: 630 mm. Anverso: ao centro um quadrado com 45 mm. de lado, formado de uma linha ponteada entre 2 filetes paralelos; no espaço dos segmentos circulares a legenda: SIGILL ... / ... / VILLA / ... CARE ... / em caracteres capitais romanos, mas o E uncial. No campo, um castelo de três torres ameíadas, as duas laterais mais baixas e defendidas cada uma por um muro ameíado, espécie de adarve, e rasgado de 1 porta e 2 janelas. A torre central, defendida por muro ameíado onde se rasga uma porta de arco ultrapassado. Em chefe, assente na torre central., o escudo português formado de 5 escudetes, com os 2 laterais horizontalmente; vestígios das arruelas. A silharia das torres muito regular e quadrada. A porta da torre central, em nível mais elevado, tem em frente um pavimento de lisonjas. Reverso: na mesma disposição do campo e da legenda. Desta lê-se: ... U ... / CONCILll / DE VILLA / … Campo quadrado, com 40 mm. de lado. Mesma disposição das torres, muros e portas; porém, o número dos cubelos das torres é menor (3 e 4, e não 4 e 5) e estas de menores proporções. As torres laterais tem 5 (?) pavimentos; a porta da central ladeada de seteiras; nesta, ao alto, o escudo como ficou descrito; as duas torres laterais mais largas na base.” “ Transacção amigável acordada entre o Alcaide, Alvazis e Vereadores do Concelho da vila de Santarém, Lourenço Esteves de Formoselhe, Arcediago de Viseu, e o Prior e Convento de S. Martinho de Crasto, pela qual o referido Concelho se obrigava a dar anualmente ao dito Mosteiro a quarta parte dos frutos da Lezíria da Atalaia, da qual, em sinal de reconhecimento de domínio, o mesmo Lourenço Esteves dava ao Concelho um móio de pão meiado anualmente, tudo isto em vida apenas do dito Lourenço Esteves. Ambas as partes desistem de todo o seu direito e acção, dão-se mutuamente quitações e prometem, sob juramento das Evangelhos e obrigando todos os seus bens, assim o cumprir fielmente. Após a morte do Lourenço Esteves a lezíria da Atalaia ficaria pertencendo em plena propriedade ao Concelho. A transacção fizera-se em virtude do Chanceler Estêvão Joanes ter deixado em testamento a pensão anual de 30 moios de trigo, imposta na dita Lezíria, ao Mosteiro de Crasto. Com êste doc. correlaciona-se o aqui sumariado sob o N.º ... Na transacção estão transcritos na íntegra: 1) - a procuração, de 20-6-1282, com poderes forenses, passada pelo abade Pedro Martins e convento do Mosteiro de S. Martinho de Crasto a Domingues Esteves, cónego do mesmo Mosteiro; 2) - confirmação pela Sé de Braga, passada em nome do arcebispo D. Telo, da transacção referida, datada de 20-6-1282. Lavrada em Santarém, em 10 de Julho de 1282, pelo Tabelião Pedro Esteves e com o reconhecimento autógrafo e respectivos sinais públicos dos Tabeliães públicos de Santarém: Estêvão «Juliani», João Paes, Fernando Joanes, Domingos Martins e Salvador Jaques. Gaveta 3.a, M.º 9, N.º 13.”

Bibliografia: Beirante, Maria Ângela, “O Tejo na construção do poder real na Idade Média portuguesa, de D. Afonso I a D. João I”, separata da Revista da Faculdade de Letras-História, II Série, vol. XV, Porto, 1998.
Boletim da Junta Geral do Distrito de Santarém, ano 6.º, n.º 43, 1936.

29.11.11

ARROLAMENTOS DOS BENS CULTURAIS DA FREGUESIA DA ATALAIA

Com a publicação da Lei de Separação da Igreja do Estado, de 20 de Abril de 1911 (1) surgem as Comissões Concelhias de Inventário com a tarefa de, em cada concelho, proceder ao arrolamento de todas “as catedrais, igrejas e capelas, bens imobiliários e mobiliários que têm sido ou se destinavam a ser aplicados ao culto público da religião católica e à sustentação dos ministros dessa religião e de outros funcionários empregados e serventuários dela, incluindo as respectivas benfeitorias e até os edifícios novos que substituíram os antigos” ( art.º 62.º da referida lei).
A lei não obrigava a que existisse uma avaliação e imposição de selos, mas tão só que se entregasse os bens móveis de valor cujo descaminho se temia à guarda das juntas de paróquia ou remetendo-os para os depósitos públicos ou para os museus.
Tal arrolamento era feito, conforme estipulava no art. 63.º “ (...) administrativamente, de paróquia em paróquia, por uma Comissão concelhia de inventário, composta do administrador do concelho ou do bairro e do escrivão da fazenda, que poderão fazer-se representar por empregados seus, sob sua responsabilidade, servindo o primeiro de presidente e o segundo de secretário, e por um homem bom de cada paróquia, membro da respectiva junta, e indicado pela câmara municipal para o serviço dessa paróquia.” Continuando, no art. 64.º refere-se que “quando o governo o entender necessário, poderá designar mais de uma comissão para o mesmo concelho ou bairro, ou nomear para qualquer delas outros funcionários além dos indicados no artigo anterior.” Pelo art. 65.º “a comissão poderá reclamar o auxílio de qualquer autoridade pública e todos os elementos de esclarecimento de que careça e deverá requisitar da respectiva comissão regional artística, ou escolher por si, um ou mais peritos de reconhecida competência, quando presumidamente se tratar de móveis com valor artístico ou histórico”.
Estas “comissões concelhias ficam directamente subordinadas ao Ministério da Justiça, onde será criada e exercerá atribuições de superior direcção e administração, uma Comissão central de execução da lei da separação, composta de funcionários do Ministério, administrativos ou fiscais, e de magistrados ou empregados judiciais, e do Ministério público, da escolha do ministro.” (art. 66.º). Determina-se que os inventários deveriam começar no dia 1 de Junho de 1911 e terminar no prazo de três meses, sendo feitos em duplicado, ficando um exemplar na câmara municipal à disposição de quem o quisesse examinar, e o outro seria enviado à Comissão Central de Execução da Lei de Separação pelo administrador do concelho, à medida que terminassem os trabalhos relativamente a cada paróquia (art. 67.º). Do auto de entrega de 10 de Janeiro de 1931, constam todos os bens móveis arrolados da freguesia de Atalaia. O administrador do concelho entregava à corporação cultural e esta declarava, no competente auto de entrega, que se responsabilizava pelas despesas anuais com a guarda, conservação e reparação dos bens que recebia, ficando obrigada a apresentar ao Ministério da Justiça e dos Cultos um duplicado do referido auto de entrega, no prazo de três meses. Deste auto de entrega relevo os seguintes bens, entre outros, que estavam na Igreja da Atalaia:
- Imagem de N.S. da Assunção, padroeira da freguesia da Atalaia;
- Imagem de N.S. do Rosário;
- Imagem de S. António;
- Imagem do Menino Jesus;
- 2 quadros em tela (N.S. da Piedade e S. Sebastião).
Na Capela do Senhor d’Ajuda, Atalaia:
- Imagem do Senhor d’Ájuda (Cristo crucificado)
- Imagem de N.S. Ajuda;
- Imagem de S. António;
- Imagem de S. José;
- Imagem de S. Caetano.
Na capela da Moita – N. S. Remédios:
- Imagem de N.S. dos Remédios;
- Imagem de N.S. do Carmo;
- Imagem de S. José;
- Imagem de S. Amaro;
- Imagem do Menino Jesus;
- 1 quadro de Cristo crucificado em madeira;
- 1 quadro do Senhor dos Passos em tela
Na Capela de S. João Batista das Vaginhas (Entroncamento):
- Imagem de S. João Batista;
- Imagem de N.S. Conceição;
- Imagem de N.S. Lourdes;
- Imagem do Menino Jesus;
- Imagem Senhor Aflitos (Cristo crucificado)
Na Capela de S. Caetano (Cardiga):
- Imagem de S. Caetano;
- Imagem do Menino Jesus;
- 1 quadro de N.S. da Paz (em madeira);
- 1 quadro em tela.
Curioso é descobrir que, neste auto de entrega, a Casa da Irmandade e as dependências da Igreja da Atalaia foram destruídas aquando das obras de restauração de 1939. Todos estes bens, constantes do auto de entrega, imóveis e móveis, foram-no em uso e administração, conforme art.ºs 10° e 11°, do Decreto-lei no 11887, de 6 de Julho de 1926. Todavia, as entregas móveis e imóveis foram convertidas em propriedade da Igreja, nos termos do art.º 44.º do Decreto-Lei n.º 30615, de 25 de Julho de 1940, com excepção da Igreja da Atalaia, classificada de Monumento Nacional, pelo Decreto n.º 11453, de 19 de Fevereiro de 1926, que continua como propriedade do Estado Português, com afectação ao serviço da Igreja, administração do imóvel, de acordo com o disposto no art.º 41 do mesmo Decreto-Lei.

(1) Bastante polémica provocou a animosidade da hierarquia da Igreja Católica, nomeadamente, de todos bispos portugueses e da própria Santa Sé e, segundo alguns autores, foi, a par da participação de Portugal na I Guerra Mundial, responsável pela queda da I República (José Relvas, Memórias Políticas, vol. I, Terra Livre, Lisboa, 1977, p. 161)

29.10.11

A Gliptografia na Igreja de Nª Srª da Assunção, Atalaia

A Igreja de Nª Srª da Assunção, na Atalaia, Vila Nova da Barquinha, é monumento nacional por Decreto n.º 11453, de 19 de Fevereiro de 1926. A data, gravada numa pilastra do lado esquerdo do arco da capela-mor, remete-nos para o acerto da data da sua construção, ano de 1528. Este belo edifício reflecte a orientação da escola de João de Castilho e de João de Ruão que enriqueceu entre nós “a arte da pedraria” com visibilidade acentuada no pórtico principal, verdadeira obra-prima da arte Renascentista. Para além do seu pórtico, dos painéis de azulejo do Séc. XVII, de duas cores combinadas, azul e amarelo, e do honorífico túmulo de D. José Manuel da Câmara, 2.º cardeal patriarca de Lisboa, a Igreja tem outros segredos que importa desvendar. Vamos então ao seu encontro …

Diversas marcas de cantaria encontram-se gravadas na Igreja da Atalaia (1). Localizam-se as mesmas em vários sítios do monumento nacional e que escaparam, até agora, à sua extinção. Podemos vislumbrá-las, entre outros locais: na torre sineira da igreja, na parede e contraforte de cunhal da fachada principal, na cabeceira do lado norte e também no seu interior, na arcaria do lado esquerdo e do lado direito da nave central. As marcas de canteiro ou siglas, Gliptografia (2), surgem nas superfícies interior e exterior das pedras e as que estão na Igreja da Atalaia, iguais às da figura ao lado, exprimem, afinal, o quê? Existem várias teses com o objectivo de clarificar o significado e a função destas marcas de cantaria havendo quem defenda que: “ - Constituem o alfabeto de uma língua mágica e esotérica de origem caldaica, destinando-se a exercisar toda a casta de malefícios;

- Não passariam de sinais utilitários gravados pelos canteiros para indicar a exacta posição, colocação, localização e altura, bem como o adequado ajustamento dos silhares aparelhados;

- Seriam marcas feitas pelos canteiros como assinatura pessoal com o fito de assinalar o trabalho realizado por cada um e permitir a contabilização do salário em conformidade;

- São marcas individuais, reportando-se ao nome de cada pedreiro (inicial ou monograma), às respectivas crenças e devoções (objecto simbólico ou alegórico), ao seu estado social (instrumento profissional), à data da realização do trabalho (signo astrológico), etc.

- Reproduziriam sinais franco-mações adoptados pelos pedreiros para seu mútuo reconhecimento;

- Poderiam corresponder, em certos casos, concomitantemente ou não com os significados enumerados supra, à assinatura do doador de uma pedra, coluna, abóbora, etc.” (3).

O certo é que estas marcas constituem um mistério que dá lugar a todo tipo de teorias que vão desde as iniciais do nome do canteiro, a indicadores de qualidades da pedra, à assinatura do canteiro para cobrar o preço do seu trabalho, a pedras dadas em doação para a sua construção, a interpretações astrológicas, etc. etc.

A opinião maioritária defende que as marcas de cantaria são para justificar o trabalho realizado na obra. Pelo levantamento dos sinais gravados nas pedras da Igreja da Atalaia verificamos que as marcas de identidade são de fácil execução e de traço simples pelo que me parece, salvo melhor parecer, que estas demonstram o apuramento do valor funcional incorporado tendo o objectivo de assinalar o trabalho realizado por cada um dos canteiros permitindo, assim, a contabilização do seu salário.

A gliptografia em Portugal constitui um caso de estudo dos mais notáveis casos da Europa mas, inexplicavelmente, esta permanece uma área que menos atenção tem despertado aos nossos investigadores.

(1) Investigação do Dr. João Ramalhete: “A Gliptografia na Igreja de Nª Srª da Assunção, Atalaia, Vila Nova da Barquinha, Agosto de 2011”. O trabalho encontra-se para consulta na Biblioteca Municipal do Município.

(2) Griptografia – gravação na pedra por incisão ou relevo.

(3) Gandra, Manuel J., Cadernos da tradição, siglas e marcas lapidares, subsídio para o Corpus Lusitânico, Ano I, n.º 2, 2001.

17.10.11

A lenda do Arrepiado

"Recortada contra o azul do céu, a silhueta imponente do Castelo de Almourol, evoca um passado povoado de personagens lendárias, de guerreiros e de heróis, de mouras encantadas e misteriosas donzelas. Todo um imaginário de sonho vivificando de imaginário a História e a Cultura das populações vizinhas do milenar castelo. A imponente construção medieval ergue-se na pequena, mas agreste e solitária, ilha de Almourol no meio do formoso e vasto Tejo, ali engrossado pelas águas do luso Zêzere. Das suas elevadas torres avista-se uma paisagem deslumbrante. Perto, prende-nos a atenção a risonha e mourisca povoação do Arripiado. O seu nome remete para uma lenda a que não falta nenhum dos ingredientes requeridos pela arte narrativa do povo de riba Tejo: cavaleiros sedutores e jovens de divina formosura vivem amores ora contrariados ora bem conseguidos. E tudo acontece naquele lugar privilegiado pela natureza, um lugar disputado pelos homens e pelos deuses: a surpreendente ilha de rochas reluzentes destacadas do areão de seixos doirados. Ilha verde e ocre, sombreada de frescos salgueirais e de copados sobreiros e azinheiras. Quando um frémito de aragem percorre a ramaria, a moldura esmeraldina reflecte-se no espelho mágico do rio. Pescadores e homens serranos navegam as águas profundas e descansam nas aprazíveis praias do Tejo. Casario branqueja nas encostas marginais do grande rio. As povações do Arripiado, do concelho da Chamusca, e logo além Tancos, do concelho de Vila Nova da Barquinha, apresentam aos olhos do viajante as marcas de um Passado que se desdobra também na aventurosa gesta de desbravar a terra e o rio e as matas. Povoações que testemunham a luta quotidiana, vivida ao longo dos tempos, por povos de dferentes civilizações. Almourol, a pitoresca ilha tagana, era já um castro romano na Era de César. Na decadência do Império Romano, a arruinada fortaleza foi convento e ermitério. A situação estratégica determinou o oscilar da sua posse por senhores de exércitos, por nobres poderosos. No periodo de declinio da dominação muçulmana, algumas épocas de agitação seguem-se a tempos de pacifica convivência entre moçárabes e os cristãos descendentes dos godos. Em Almourol vivia-se ao sabor de algaras mouriscas e de fossados dos cavaleiros cristãos que acompanhavam os cruzados nas lutas pela Reconquista. Reza a tradição que, no século X, a ilha tinha sido conquistada pelo temido Ibne Baqui, filho do lendário Xurumbaque. Este era um Mouro dotado de forças superiores. Feito prisioneiro pelos nórdicos da Normandia, logrou escapar-se-lhes. Conheceu palmo a palmo a região galega e, mais tarde, as terras taganas. Era já muito velho, quando decidiu marcar os seus dominios e instalar-se, em recônditos e inacessiveis lugares, entre serranias e rios profundos, numa região da antiga Lusitania, entre Coimbra e Santarém. A ilha de Al Mourol foi reforçada e dotada de uma zona de residência e de lazeres. Uma luxuosa alcaçaba, onde Ibne Baqui dividia o seu tempo entre aventuras guerreiras e os prazeres da música e da poesia. Al Mourol era um luger de paz e de recolhimento e uma atalaia vigilante. O poderoso muçulmano amava muito a sua mulher, a doce Fata, da tribo de Micnesa. Ambos se orgulhavam de sue filha Ari, uma jovem de rara beleza e invulgar talento. Os seus cânticos dulcificavam o coração dos guerreiros de Alá . A sua elegância e arte de bailarina eram afamados em todo Al Andaluz. De Beja, por uma madrugada de Maio, chegou uma luzida embaixada. Logo, Ibne Baqui mandou que todos os barqueiros e pescadores do rio se preparassem para acolher e transportar para Al Mourol o seu amado e velho irmão e toda a luzida comitiva que de tão longe viera visitá-lo. Ibne Xurami, senhor de imensa fortuna e invencível poderio militar, ouvira falar de Ari. Por ela, se decidira a vir negociar um casamento que haveria de reforçar ainda mais os descendentes do heróico Xurumbaque. A doce Ari veio a saber pelo zum-zum das belas mulheres do Pátio das Estrelas o que estava a acontecer. Uma nuvem negra parecia-lhe pairar sobre a sua juventude. Desde menina que ela amava Mem Roderico, moçárabe influente, mensageiro da paz em muitas questões e rivalidades entre mouros e cristãos. Também ele amava perdidamente a formosa Ari. Esperavam ocasião asada para convencerem os pais de ambos a permitirem o seu casamento. Depois de um longo serão de festejos, Ari esperou que o pai e a mãe se dirigissem para os seus aposentos e pediu-lhes para a ouvirem. Confiada no amor dos seus progenitores, Ari confessou-lhes o seu romance com Mem Roderico. E, rojando-se no lajedo, jurou-lhes que não suportaria nunca casar-se com o velho tio. Irado, Ibne Baqui mandou que metessem a filha na mais alta torre da fortaleza. E, para que não tentasse fugir, dizem as pessoas antigas, que "Piaram-a, isto é, ataram-na pelos pés como se fazia às cavalgaduras ruins de amansar. Ari peada, morria de saudade e paixão. Certo dia, por uma estreita fresta, entrou uma pomba branca que trazia presa a um laço no pé uma mensagem. Era a notícia de que o seu amado Mem Roderico tinha sido morto numa cilada pelos soldados de Ibne Baqui. Nesse mesmo instante a alma pura da infeliz Ari deixou o seu formoso corpo. Ari peada voou no corpo da pomba branca e foi poisar na campa de Roderico, lá em baixo, frente ao Tejo, no branco cemitério da povação que o povo passou a chamar de Aripeada, a branca e bela povação do Arripiado."

Retirado de: http://olharopassado.blogs.sapo.pt/24707.html

17.9.11

A FEIRA FRANCA DA VILA DA ATALAIA

Dissipa-se na escuridade dos tempos a altura em que se iniciou a feira da Atalaia.
Vamos, então, à sua procura!
Nos tempos dos primórdios da nacionalidade a agricultura era a principal actividade do reino e dela emanava uma força social significativa.
D. Dinis, denominado o “Rei Lavrador”, proferia que os homens que se dedicavam à agricultura eram os “Nervos do Estado”. Ora, para colocarem os seus produtos à venda os agricultores afluíam às feiras e mercados em todo o território nacional.
Como sabemos, a mando de D. José I e de Sebastião José de Carvalho e Melo, mais conhecido por Marquês de Pombal, no ano de 1758, foram efectuados os interrogatórios ou inquéritos paroquiais a todas as vilas e aldeias de Portugal, documentos que actualmente se encontram no Arquivo Nacional da Torre do Tombo em Lisboa. À questão: “19º. Se tem Feira, e em que dias, e quantos dura, e se é Franca, ou Captiva?”, respondeu o prior da Atalaia: “ Há só uma feira nesta vila a vinte de Janeiro, três dias franca…”, esta é a primeira referência que encontrei.
Posteriormente, descobri outra referência descritiva sobre a feira e que dou ao conhecimento mais adiante.
Em 1822 a vila da Atalaia detinha 626 fogos, 2196 habitantes, sendo 13 desses habitantes comerciantes. A população era estável “nem se tem vindo estabelecer nesta gente de fora, nem dela tem emigrado seus habitantes para outras partes”. Muita da população dedicava-se à agricultura pois neste território havia bons terrenos, como em outros lugares do reino. A principal cultura era o milho, produção de 4370 alqueires, semeado nos nateiros e nas terras de boa qualidade do interior da vila com acesso fácil à água da ribeira, das fontes e das nascentes com peculiar realce para baldios do Vale das Éguas, Braçal, Vale do Junco, Vale da Sardinha e Vale das Sete Fontes. Depois o trigo, com lavra de 1490 alqueires, centeio com 300 alqueires, este último semeado nas terras altas. Abundam as oliveiras com produção de 3.000 alqueires de azeitona pelo que, nesta vila da Atalaia, existiam vários lagares de azeite. Havia um de especial relevo, o lagar da Ponte da Pedra, do Sr. Trigoso, célebre pelo seu engenho com a roda principal movida por água, com 3 galgas, 4 varas e com movimento rápido que permitia fazer uma moedura numa hora. Igualmente, havia muita gente que se empregava na navegação, 446 pessoas designadas por gentes do mar que se deslocavam na sua faina para a capital. Deste fluxo marítimo resultavam trocas e actos de comércio que davam força e pujança às gentes da Atalaia e, obviamente, à sua feira.
O comércio está intimamente relacionado com a agricultura pela troca de produtos, bem como à indústria/manufacturação e a pecuária.
Também, a Atalaia era rica em louça, devido à abundância de greda na nossa região. Existiam 15 oleiros que comercializavam os seus produtos nas feiras circunvizinhas em concorrência com as das da Flor da Rosa e das Caldas da Rainha.
Na Ponta da Pedra havia um engenho de serrar madeira e a população da Atalaia apresenta 37 carpinteiros de obras número significativo para a comarca de Tomar que permitia criar riqueza para a aquisição de produtos na feira. Todas estas actividades concorriam para que a feira fosse um grande acontecimento. Mas, vejamos o relato que descobri nas Memórias da Academia Real:
A feira da Atalaia se faz pela mesma villa; o primeiro dia é a 20 de Janeiro de todos os anos, e continua também nos dias seguintes. É uma das melhores feiras destes contornos, e onde vão muitas lojas de mercadores, e capelistas. Entretanto um dos objectos de maior consideração desta feira é a grande quantidade de porcos, que ali entram, e donde se extraem assim para estas terras circunvizinhas, como também para a capital: os porcos, que ordinariamente ali entram são já gordos, e vindos dos montados do Alentejo directamente, ou de negociações feitas em a feira de Galveas, que costuma ser a 7 do dito mês.
Somente esta negociação faz a feira de grande monta, e entidade, e é de grandes vantagens não só para a vila, mas também para as povoações vizinhas, que anualmente costumam ir sortir-se à dita feira dos géneros, que ali concorrem, e especialmente dos porcos, e o que algum modo torna a feira estável”.
Por último, as feiras e mercados deste território, comarca de Tomar, mais concorridas eram as Punhete (Constância), Paio de Pelle ou Feira de Tancos, Atalaia e Santa Cita.

Bibliografia: MEMORIAS DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA, TOMO VIII, PARTE I, 1823

9.8.11

A Cultura Avieira II

Este é o segundo escrito neste blog sobre a Cultura Avieira. O primeiro é de 8.11.2010 e pode ser revisto em http://atalaia-barquinha.blogspot.com/2010/11/seculo-xix-os-pescadores-nos-oceanos.html.

In MEMORIAS DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA, TOMO VIII, 1823, retiro que a maioria da população de Paio de Pelle, actual Praia do Ribatejo, desde tempos de antanho, se dedicava à pesca: “ Quase todos já de antiquíssimos tempos se tem empregado no serviço da pesca do que tiram muito maiores vantagens, do que na cultura de terras …” uma vez que os terrenos circundantes, pelo relevo e declive acentuado das propriedades rústicas eram “bastantemente áridas e estéreis, e em que somente muitos braços, muitos gados, e muitos estrumes poderão concorrer para que elas dêem algum interesse ao lavrador”. O locais de pesca dos nossos antepassados, tal como na actualidade “ é às vezes no rio Zêzere, e muito principalmente no Tejo …” Parte da população de Paio de Pelle emigrava para jusante do rio “onde chega a maré”. A sua actividade é exercida entre Vila Franca de Xira e Salvaterra de Magos e “ pescam sáveis desde o Natal até ao Santo Antonio, e mugens desde este tempo até ao S. Martinho. A imensa quantidade de varinas, e de chinchas (pequenas redes de arrastar), e de outras redes desta ordem, chamadas de arrastar, que desde o Alqueidão até a Barquinha se empregam na pesca dos sáveis no seu tempo competente, produz muitas vezes a escassez deste peixe no pego de Tancos, e é esta uma das causas da emigração destes homens se bem que outros há, que se empregam na pescaria dos sáveis no lugar da Praia, com as tais chinchas, e como por tal emigração não terão suficientes braços, costumam anualmente vir de Ovar, e de suas imediações de 80 a 100 homens, que somente aqui permanecem aquele tempo necessário, e mesmo porque esta gente é mais apta, e está mais acostumada a tal serviço.” Abalando das suas terras de origem, no texto de Ovar, onde o Inverno é rigoroso e ao mar agitado o que, certamente, os inibia de exercer a sua actividade procuraram no Tejo, rio sem risco acrescido e pouco agitado, o seu sustento durante o tempo em que o mar está alterado. Terminado o Inverno regressavam às suas terras de origem para de dedicarem à pescar no mar e à faina da sardinha. Vemos que há, assim, uma migração sazonal de pescadores não são só da Praia da Vieira, como atrás se escreveu, mas igualmente de Ovar. No ano de 1823 eram, do dizer do escritor, de 80 a 100 homens pescadores. Muitos destes não regressam à sua terra natal, ficam a habitar na Borda-d’água do Tejo vindo a ser designados Avieiros ou Ciganos do Tejo.

31.7.11

ATALAIA, In MEMORIAS DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA, TOMO VIII, 1823


“41. Os mapas n.º 3 e 4 mostrão a população da villa da Atalaia , e no termo, que simplesmente contém huma freguezia, e de todas deste território a mais populosa. Vê-se pois que o numero dos fogos he de 627, e o total dos habitantes de 2196, estando estes para aquelles na proporção de 3,5 &c. que realmente não indica fertilidade de população. Tem esta freguezia lugares muito populosos, como são a Barquinha, Mouta, &c.

42. Os mesmos mappas a respeito desta villa e termo (como de todas as mais) especificão tudo quanto no plano se exige: aqui acontece o mesmo do que nas outras, a respeito da grande desproporção das viúvas a respeito dos viúvos, que he sempre em menor numero, e as causas que isto aqui tem originado, não são differentes: ha aqui huma grande quantidade de gente do mar, e quasi todos são da Barquinha, e alguns da Mouta; ha também muita gente occupada no serviço do campo; tanto em huma, como em outra occupação os homens se expõem ás differentes alternativas das estações, e adquirem por isso grande numero de enfermidades, além de serem ambos os serviços forçados, e violentos; estas mesmas causas são as que concorrem para a falta de povoação, nem ha nesta freguezia outras algumas, de donde se possa colligir o terem produzido o mencionado effeito.

43. A classe mais numerosa he a empregada na navegação para a capital, e quasi toda dos lugares acima referidos, pois que o commercio he o seu principal trafico: os cultivadores não guardão a proporção, e o calculo, de que em em 20 pares de habitantes sejão 16 destinados para a cultura (da terra); entretanto segundo o presente estado de pequena cultura do paiz , e porque mesmo huma grande porção delle he máo terreno, elles são sufficientes; a respeito porém da colheita da azeitona verifica-se o mesmo, dito nos antecedentes Artigos, pois sufficientes braços não ha. Nem se tem vindo estabelecer nesta freguezia gente de fóra, nem dela tem emigrado seus habitantes para outras partes. Aqui ha ordinários meios de subsistência ou no serviço do mar, ou do campo , alem dos differentes officios; se bem que os actuaes jornaes são diminutos, porém isto tem huma causa mais geral na decadência do commercio intrínseco, e agricultura em toda a nação. Ha huma roda de expostos na Atalaia, entretanto a seu respeito nada tenho que accrescentar ao já dito. Eis aqui o que julgo conveniente dizer a respeito da povoação deste território.”

A maior parte da actividade agrícola e pecuária tinha como referência o rio Tejo. Daí que não surpreenda os números de gentes do mar, pescadores e singeleiros na nossa terra. Uma breve referência para estes últimos, os singeleiros, quem são estes homens e qual o seu ofício? O transporte de mercadorias era feito, essencialmente, pelo rio Tejo e por terra mas para transportar os produtos entre os lugares do termo da Vila da Atalaia e a via fluvial tal tarefa estava entregue a estes homens que no mapa são 11.

31.5.11

O TELÉGRAFO DA ATALAIA - VILA NOVA DA BARQUINHA


"Ignora-se a sua história, sendo que de crer que tivesse sido ocupada por Alanos, Visigodos e Muçulmanos, e sabendo-se ao certo que em 1129 estava já em poder dos Portugueses. Tornando anos depois a cair em poder dos Mouros, foi reconquistada em 1147, por D. Afonso Henriques, que mandou reedificar o castelo medieval. Reconquistado de novo pelos Mouros estes teriam arrasado e abandonado a fortaleza, que ficou completamente despovoada, até que D. Afonso II mandou reedificar o castelo e lhe concedeu foral em 1212, com muitos privilégios para os moradores a fim de mais facilmente ser povoada. Parece que, sendo de novo destruída pelos Mouros, D. Dinis a mandou repovoar e reedificar a fortaleza, construindo-lhe a torre de menagem, e dando novo foral à povoação em 1315. Hoje está totalmente destruída e o monte coberto de mato e arvoredo, mal se pressentindo que ali tivera um forte castelo medieval.” (1)
É na encosta, ponto mais alto da Vila da Atalaia, ocupada desde tempos de antanho, que os actuais registos matriciais denominam sítio da encosta do telégrafo.
Qual a sua origem? Investiguemos...
Em Junho de 1810 dá-se a terceira invasão Francesa. A nação era o epicentro do choque de interesses das duas potências, a Inglaterra e a França. O invasor empregava o Telégrafo de Chappe e o aliado inglês empregava o Telégrafo de Balões ou Telégrafo de Bolas, usado entre as fortificações das Linhas de Torres e os seus flancos laterais. O português Francisco António Ciera, Director dos Telégrafos, inspirado nos sistemas que viu e/ou estudou, inventou o Telégrafo Óptico Português, de menor alcance mas mais económico, mais eficaz e que dava maior celeridade às comunicações. Começavam as primeiras “obras telegráficas” na nossa região. O marechal de campo José Lopes de Sousa, a partir de Abrantes, comunica a D. Miguel de Forjaz, Secretário de Estado da Guerra, o seguinte: “Tenho a honra de informar V. Exª., que se tem trabalhado na obra do Telegrafo (de Abrantes), e que posto senão ache completa toda a obra pelo que respeita a barraca e sua escada; o Telegrafo já poderia trabalhar; a corresponder-se com o da Barquinha cazo que aquelle de achasse pronto, mas não se avista ainda no lugar em que se pode collocar […] Abrantes 23 de Junho de 1810”. No dia seguinte, a 24 de Junho de 1810, o mesmo marechal de campo informa: “Hontem participei a V. Exª que não se avistava ainda daqui o trabalhar-se na colocação do Telegrafo no lugar da Barquinha, mas na mesma tarde já se divizava este trabalho, e o que hoje mais se verifica. Deos Guarde V. Exª. Abrantes 24 de Junho de 1810”.
Assim, temos por certa a data da construção do telégrafo da Atalaia, o dia 24 de Junho de 1810 (2).
Num contexto bélico o telégrafo, como um sistema de comunicação rápido à distância, era um elemento fundamental para a estratégia e para as operações de guerra.
No boletim do telégrafo central de Lisboa do dia 13 de Abril de 1812 (3), consta que pelas 9 horas e ½ da manhã, é comunicado do posto da Atalaya: “ Hontem de tarde chegaram aqui 2 Companhias de Brigada da Cavalaria Inglesa”. No mesmo boletim há uma mensagem enviada às 6 horas da tarde, agora do telégrafo de Abrantes: “Participar a Marechal Beresford, q. no dia 11 do corrente vierão huns 5000 homens de Cavallaria Inimiga a Alpedrinha, Sobreira Formosa, Fundão saquear[…] Governador”.
Pelos conteúdos das mensagens podemos perceber a importância do posto da Atalaia na Guerra Peninsular, essencialmente o seu interesse estratégico. Por aqui passavam todas as informações da Nação resultantes da ligação à linha telegráfica das Beiras: Lisboa, Atalaia, Abrantes, C.Branco, Elvas, e da ligação à linha telegráfica: Lisboa, Atalaia, Tomar, Ceiras, Zambujal, Vendas D.Maria, S.Sens, Almalaguer e Coimbra.
O telégrafo da Atalaia ainda estava a funcionar em 1832 e era parte da rede: Castelo de S. Jorge, Penha França, Monte Serves, Monte Gordo, Boavista, Santarém, Alviela, Golegã, Atalaya, Tomar, Ceiros, Alvaiázere, Monte Ver, Volta Monte, Coimbra, Agrello, Buçaco, Boialvo, Montedo, Vila Nova Juzos, A. Branco, S.º Estêvão, Morado, S.º Ovídeo e Porto (4).
Na sequência das Guerras Liberais verifica-se a destruição do telégrafo da Atalaia.
Tal tarefa coube à guerrilha constitucional, comandada pelo coronel do exército espanhol, D. Manuel Martini: “No dia 24 de Junho de 1833, dei o grito da Liberdade, acclamei o Governo Legitimo, fiz nomear outras Authoridades, soltei os prezos políticos, desarmei a Guerrilha do Corregedor, e hum forte Destacamento de Realistas de Abrantes, amparei-me de 400 armas; e de tarde … marchei para a Barquinha; ao passar destrui o Thelegrafo da Atalaia; na madrugada de 26 aprizionei hum barco que de Lisboa hia para Abrantes com 500 fardamentos completos, armamento, correame, 5 cornetas, e 20 praças da sua escolta.” (5).
O Telégrafo da Atalaia foi construído em 24 de Junho de 1810 e destruído em 24 de Junho de 1833, precisamente 23 anos depois!
Ainda hoje os registos matriciais o mantêm vivo e a mim coube-me o dever de reescrever a sua história.

(1) Almeida, João (General), Roteiro dos Monumentos Militares Portugueses, Vol II, Edição do Autor, 1946.
(2) Telégrafo da Barquinha concluído – Arquivo Histórico Militar (AHM)-DIV-1-14-269-50.
(3) Boletim do Telégrafo Central com referências às comunicações do Telégrafo de Abrantes – AHM-DIV-1-14-180-25.
(4) AHM/DIV 3-32-5-24.
(5) Ventura, António: As guerras liberais em Portalegre: Junho-Julho de 1833, Portalegre, Assembleia Distrital, 1982.

AGRADECIMENTO, ao meu preclaro amigo José Manuel d'Oliveira Vieira, colaborador do Jornal de Alferrarede, que me cedeu muita da informação para a história do telégrafo da Atalaia. O meu eterno BEM-HAJA.

18.5.11

Troféu Disciplina para a União Desportiva Atalaiense

Foi entregue no dia 15 de Maio de 2011, o equipamento desportivo às equipas do Atalaiense (Divisão Secundária) e do Ouriquense (Divisão Principal) de futebol, no âmbito do Troféu Disciplina referente à época 2009/2010, instituído pelo Governo Civil de Santarém, em colaboração com a Associação de Futebol de Santarém.
O Adjunto da Governadora Civil Nuno Antão e o Presidente da Associação de Futebol de Santarém, Rui Manhoso, fizeram a entrega no Estádio Municipal de Rio Maior, no intervalo da final da Taça do Ribatejo, cujo resultado final foi de 5 – 4 CD Torres Novas SL Cartaxo.
Recorde-se que a atribuição do troféu e do equipamento são relativos ao bom desempenho disciplinar e fair play na época 2009/10, no futebol e futsal em masculinos e femininos.
A cerimónia para a entrega do troféu, neste caso a todos, realizou-se no dia 9 de Fevereiro de 2011, durante o intervalo do jogo de futebol sub 21, entre as selecções nacionais de Portugal e da Suécia no Estádio Municipal do Cartaxo.
Cumpre-se um dos desígnios referidos pela Governadora Civil durante a atribuição “reforçar a importância e a visibilidade deste troféu, onde contrariamente ao mérito competitivo, que é obtido pelo maior número de pontos na classificação, nesta vertente destacam-se as equipas com menos pontos, a quem equivale a atribuição de menos sanções disciplinares e maior desportivismo”.
O regulamento prevê a entrega de troféu a todos, e equipamento desportivo aos clubes de futebol, no entanto com o desenvolvimento da modalidade de futsal será revisto o regulamento de atribuição, e se esta iniciativa continuar, poderá contemplar no futuro também estes praticantes.
Divisão Principal: Estrela Futebol Club Ouriquense (Cartaxo)
Divisão Secundária: União Desportiva Atalaiense (Vila Nova Barquinha)
Seniores Futsal Masculino: Juventude Ouriense (Ourém)
I Divisão Seniores Futsal Feminino: Casa do Povo das Mouriscas (Abrantes)
II Divisão Seniores Futsal Feminino: Sport Club de Ferreira do Zêzere

7.5.11

Vila Nova da Barquinha na génese dos Descobrimentos

Foram os descobrimentos portugueses feitos ao acaso? Bem pelo contrário, tiveram por alicerce muito estudo e meditação da parte do Infante D. Henrique e dos seus colaboradores.
Esta grandiosa epopeia não só tem como pontos de partida Sagres, Lagos ou o Restelo, mas tem, também, a sua génese no actual território de Vila Nova da Barquinha. Os factos abaixo demonstram que o nosso concelho está ligado à origem dos descobrimentos e nela existiram figuras intervenientes e decisivas no processo de expansão.
Um relatório redigido em Lisboa, datado de 23 de Abril de 1415, do espião castelhano Ruy Dias de Veja para o rei D. Fernando I de Aragão, dava-lhe a notícia dos preparativos da Armada que então se constituía em Portugal e nas margens do rio Zêzere (Sesar). Dizia então o relatório: «EI Prior et los maestres mandan fazer senhas galeotas de sesenta rremos cada una, saluo el maestre de Santyago. Et fazenlas en el rryo de Sesar [Zêzere] que es cerça de Punete, et entra en Tajo aquel rrio a syete leguas de Santareno Et ellos estan todos en sus tierras, adereçando pela la partyda, que na todos de partyr con el rrey.» (1)
Questionei-me, porque eram construídas as galeotas no nosso concelho mais precisamente nas
margens do rio Zêzere (entre as Limeiras e o Cafuz), local onde, ainda hoje, é possível visualizar a existência de um antigo porto. Dir-me-ão, certamente por segredo, alma de qualquer projecto humano tendo em vista afastar qualquer putativa antecipação de concorrentes, e que à data eram muitos. Logo, nada melhor que a construção das galeotas se fizesse num local de problemático acesso, longe das cidades e dos olhos curiosos das gentes. Seria? Certamente … mas não só. Há um facto que não posso olvidar, uma criatura de nome Frei Gonçalo Velho.
A primeira expedição portuguesa que se pôde chamar de descobrimento, foi a que enviou o infante D. Henrique, em 1416, à Terra Alta: “Depois de empreender diversas viagens, ao longo da Costa de África, a sua caravela rumava ao Ocidente. Gonçalo Velho, familiarizado com a ciência náutica delineou o itinerário da primeira navegação cientifica – sem terra à vista e em pleno mar largo – da qual resultou o estudo das correntes marítimas, a descoberta da Terra-Alta e mais tarde Santa Maria” (2)
Dúvidas não restam que na epopeia dos descobrimentos foi relevante o papel desempenhado pelo então comendador do Castelo de Almourol, título que detinha desde o ano de 1426.
Como sabemos existia uma ligação muito “íntima” da Ordem de Cristo, proprietária da Quinta da Cardiga ao projecto Descobrimentos. Frei Gonçalo, segundo os historiadores, era um homem audaz e desprezava a superstição de terror que, à data, se abatia sobre os oceanos. Naqueles tempos as lendas iam desde a imobilidade dos mares, das quilhas que se prendiam até à infestação de mostrengos de toda a espécie, que nas palavras de Fernando Pessoa foram convertidos em "tectos negros do fim do mundo". Mas, o comendador de Almourol era um homem com poder, valente e corajoso e rumou sempre mais adiante. Conta-se que " . . . no ano do Senhor, de 1431, reinando em Portugal Ey-rei D. João de Boa Memória, decima em numero e primeiro de nome, tendo o dito Infante, (D. Henrique) em sua casa um nobre fidalgo e esforçado cavalheiro chamado Frei Gonçalo Velho das Pias, comendador do Castelo de Almourol, que está sobre o Rio Tejo, arriba da vila de Tancos, de quem por sua virtude grande esforço e prudência tinha muita confiança, o mandou descobrir as ilhas dos Açores, a Ilha de Santa Maria, ou também, porventura a de S. Miguel: o qual, aparelhando um navio com as coisas necessárias para sua viagem, partiu no dito ano da vila de Sagres e navegando com prospero vento para o Ocidente, depois de passados alguns dias de navegação, teve vista de uns penedos que estão sobre o mar, e se vêm de Maria, e de uns marrulhos que fazem outros que estão ali perto, debaixo do mar, chamados agora todos – Formigas – nome imposto por ele … e se tornou ao Algarve... no ano seguinte 1432 tornou o infante . . . a mandar o mesmo frei Gonçalo Velho a descobrir o que dantes não achara, dando-lhe por regimento, que passasse além das Formigas … O qual Gonçalo Velho tornando a fazer esta viagem… houve vista de Ilha em dia de Ascensão da Nossa Senhora, 15 de Agosto de… 1432, que é o ano em que se achou a Ilha de Santa Maria… " (3)
Toda a Nação colaborou no nosso maior empreendimento, os Descobrimentos Portugueses, mas estes só foram possíveis graças às pessoas, aos meios e às técnicas de navegação. As primeiras
viagens foram feitas em barcas e só mais tarde, já com navios mais robustos e capazes de navegar com ventos contrários, as caravelas. Mas se há alguém proeminente, é certamente Gonçalo Velho, comendador do Castelo de Almourol e da Quinta da Cardiga, corajoso cavaleiro da Ordem de Cristo, ousado mareante da Escola de Sagres e egrégio companheiro do Infante Dom Henrique que, presumivelmente, construiu as galeotas na sua Comenda junto do Rio Zêzere perto do lugar de Frade (actual Limeiras) e de Fernando Eanes (actual Outeiro) e daqui levou as nossas gentes para esta colossal epopeia, a expansão ultramarina.

(1) Monumenta Henricina, II, Coimbra, 1960, doc 57, p. 132-135
(2) Guia de Portugal Artístico, Açores, Robélia Sousa Lobo Ramalho, 13.º Volume, 1946
(3) Gaspar Frutuoso, Saudades da terra, L.III, Santa Maria, ed. 1922



3.3.11

BARQUINHA, PRODUTO DO TEJO OU FRUTO DE RURALIDADE?

"E talvez por este nome – Barquinha – provenha do facto de qualquer modesta barca de passagem haver chamado concorrência àquele ancoradouro: com a concorrência viria o comércio, e com o comércio a população. O que não parece dúvida é que o esboço do lugar foi um improviso; um produto espontâneo da sua navegação, que lhe deu origem e estímulo Alberto Pimentel, Estremadura Portuguesa, 1908 (1).

Questiona-se, terá a origem da povoação sido um produto do Tejo? Ou a sua origem é fruto da ruralidade de muitos casais que pululavam na zona e que pagavam foro à Ordem de Cristo?

Debate controverso que os factos se encarregarão de dirimir.

Uma coisa poderá ser certa, se é um produto do Tejo a origem da Barquinha remonta a data subsequente a 1544 uma vez que o porto da Barca só poderia ter surgido depois da mudança do curso do rio Tejo uma vez que naquela data corria a cerca de 2Km a sul da localização do leito actual.

Vejamos como defender tal tese e o que nos conta a prova documental. Antes de mais uma advertência, ensina o Prof. José Hermano Saraiva “ ver nos instrumentos … e acreditar que são as palavras que devem servir os factos, não os factos que se hão-se sacrificar à emoção das palavras.”.

Nos anos de 1543 e 1544 aconteceu no nosso território, entre o Arripiado e a Golegã, uma gigantesca obra de engenharia, o desvio do curso do rio Tejo por mão humana. Facto impressionante à data pelo número de pessoas envolvidas em tal árdua empreitada. A obra foi ordenada pelo infante D. Luís e foi feita ao longo de cerca de 10 km, a sul da Barquinha. Na figura podemos ver o mapa de reconstituição pelo Prof. João Alves Dias (2). Na Idade Média o rio Tejo, depois de passar Tancos, desviava-se para a Carregueira e seguia até perto da actual ponte da Chamusca. Aconteceu que por ordem do príncipe inicia-se a sua mudança artificial com inicio na Lagoa Fedorenta situada a este da actual Barquinha. Assim, 20.000 a 30.000 trabalhadores iniciam o desvio do curso do Tejo em mais de 1 km no sentido norte, aproximando-o da nossa Vila e da Quinta da Cardiga, ao longo de 10 km de extensão.

Tais obras provocaram alterações significativas no leito do rio. As suas margens eram um ponto de abastecimento e escoamento de diversos produtos, como cereais, peixe, vinho, cerâmica, produtos hortícolas, azeite, madeira, etc. De 1544 e 1694 surgiriam a jusante da Lagoa Fedorenta novos portos em consequência da alteração do curso do rio. A zona é rica em agricultura e os residentes necessitam de entregar os seus produtos no porto do rio para serem enviados para a capital do reino. A Barquinha é, na margem direita, um local onde a campina começa.

Na Revista da Faculdade de Letras, sob o título “Viajar em Portugal nos séculos XV e XVI”, num artigo de José Marques retiro “ em relação ao rio Tejo, sabemos que era atravessado também pelas barcas de Almada, Salvaterra (de Magos), Muge, Constância, Santarém, Arraiolos, Azinhaga e outras, a que nem sequer poderemos fazer menção. Conhecemos um elevado número de barcas de passagem, através da documentação que, pelos mais variados motivos ficou registada nas chancelarias régias. Outras haveria de que não ficaram quaisquer registos. A travessia dos rios fazia-se em barcas, instituídas preferentemente para a passagem de pessoas, animais e bens móveis, em localidades definidas não só por razões de segurança como ideias para a recolha de produtos”. A folhas 169 desta revista surge um mapa onde consta a Barquinha com sendo dententora de barca de passagem no Séc. XVI mas esta indicação, infelizmente, não vem sustentada em prova documental.

Que poderia ter existido um porto na Barquinha atesta-o o facto histórico ocorrido em 30/07/1636, a condenação de Pedro Fernandes, com a alcunha "o pisco", cristão-velho, pescador, de 26 anos, acusado de judaísmo, morador em Barquinha, termo de Atalaia (3). Ou seja, 92 anos depois do desvio do rio (1544-1636) há novo indício que a Barquinha poderá ser um produto do Tejo uma vez que há uma povoação com esse nome e das suas gentes faz parte um pescador que mora em tal localidade.

Em 1694 reinava o rei D. Pedro II "O Pacífico”, quando as águas do Tejo, entravam nas terras da Quinta conforme consta em alvará (4) “ … foram o tempo as correntes das águas mudando o primeiro curso, e entrando pelas terra da Quinta da Cardiga, de tal sorte que até ao presente lhe tinha levado mais de sessenta móis (5) de terra de semeadura e já ia indireitando com casas, em que se temia grande ruína; e não lhe acudindo com reparo, na forma que fosse possível, entrariam as águas pelas terras circunvizinhas, levando as do campo da Golegã, com notável prejuízo , não só da dita Quinta, mas do bem público comum ”. Perante a gravidade dos factos convocaram-se os técnicos nesta matéria, à data designados por “homens práticos e inteligentes”, do termo de Coimbra, para resolveram a situação. A solução técnica passou pela plantação de estacadas de tachões de salgueiro e outras árvores. Todavia, os barqueiros e mareantes das Vilas de Tancos, Alcochete e Abrantes, porque a colocação de estacas e tachões lhe prejudicavam a navegação no rio, cortaram-nas e arrancaram-nas com o argumento que sem estas era mais fácil levar os seus barcos à sirga (corda que serve para rebocar embarcações) e assim podiam melhorar as suas viagens no rio.

Perante a erosão contínua e já danos consideráveis na Quinta da Cardiga era necessário agir de imediato. Assim, não resta outra solução à Coroa do que fazer valer o seu Ius Imperium e com autoridade faz publicar um alvará, com data de 6 de Agosto de 1694, para que se tomem providências para evitar os danos causados pelos pescadores e mareantes. Para além da aplicação de coima, no valor de 2,000 réis, era imposta, também, uma pena de prisão por 20 dias. Em caso de reincidência aplicar-se-ia o dobro da pena, fundamento bastante, para compelir os pescadores dos propósitos dos seus actos.

Também, dúvidas não restam que passados 214 anos (1544-1758) após o desvio do rio Tejo a Barquinha tem já um grande porto. As palavras estão incertas nas Inquirições Paroquias de 1758 da Vila da Atalaia: “Há mais quatro Ermidas dispersas pelos povos donde se administra o Sacro Viático aos enfermos, uma de S. João no lugar da Baginhas (Entroncamento), outra de Nossa Sr.ª dos Remédios no lugar da Moita, outra de St.° António no lugar da Barquinha, e outra de Nossa Sr.ª do Recamadouro (N.ª Sr.ª do Rocamador) entre o lugar da Mouta e Barquinha. Nesta freguesia se achão os Lugares da Barquinha, que é um grande porto de comércio por ficar junto ao Rio Tejo, o Lugar da Moita, Baginhas, Pedregoso, Tojeira e Laveiros, e contarão em si todos com a vila seiscentos, e dois fogos, e mil nove centos, noventa, e sete pessoas de confissão”.

Muita da nossa história local ainda está por fazer mas se hoje estamos mais ricos muito devemos ao empenho, dedicação e investigação do Sr. António Roldão, barquinhense a quem dedico o presente artigo.

(1) PIMENTEL, Alberto - Portugal pitoresco e ilustrado, a Estremadura Portuguesa, Lisboa, Liv. Guimarães, 1908.

(2) Mapa da autoria do Prof. José Alves Dias, "Uma grande obra de engenharia em meados do Século XVI: A mudança do Curso do rio Tejo”, Estampa, Lisboa, 1984.

(3) Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa, proc. 359, cópia microfilmada. Portugal, Torre do Tombo, mf. 1811- A.

(4) Alvará, de 6 de Agosto de 1694. Fonte: Universidade Nova de Lisboa, Ius Lusitaniae - Fontes Históricas do Direito Português. O alvará tinha a vigência temporal de um ano, caso vigorasse ad-eternum, dizia-se alvará com força de Lei.

(5) Moio – antiga unidade de medida equivalente a 60 alqueires

4.2.11

APTCNEWS – REVISTA DIGITAL

ENTREVISTA NA ÍNTEGRA À APTCNEWS – REVISTA DIGITAL - n.º 2, Janeiro de 2011

Fernando Manuel dos Santos Freire, de 50 anos, natural de Oleiros - Castelo Branco, Licenciado em Direito e Pós-Graduado em Estudos Europeus pela Faculdade de Direito de Lisboa, exerce actualmente as funções de Vereador da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha, possuindo inúmeras funções institucionais, nomeadamente as de animação e gestão de projectos culturais, defesa e valorização do património, manutenção e modernização de equipamentos educativos, culturais e desportivos, entre outras.

Quais a estratégias políticas no âmbito do Turismo e da Cultura delineadas para o Concelho de Vila Nova da Barquinha (VNB)?

FF - É essencial para Vila Nova da Barquinha, e para os seus dirigentes, perceber que a valorização do património é um recurso económico que deve ser aproveitado. Neste contexto posso dizer que, decididamente, é uma das apostas do Município, para este mandato, colocar Vila Nova da Barquinha como concelho ligado arte e ao turismo.

À arte com a criação de uma galeria permanente de exposições regulares, com a construção de uma residência para artistas, com a dinamização do atelier de desenho e pintura, com a criação de workshops de fotografia e marionetes. Na escultura com a criação de um parque de esculturas ao ar livre com obras de prestigiados escultores portugueses (assinaturas de contratos a decorrer).

No turismo com a criação de um parque de auto caravanas (a inaugurar em Abril) e de um posto de turismo (a inaugurar em 2011). Outrossim, já foram adjudicados os “percursos ribeirinhos” que ligam o Barquinha Parque ao Castelo de Almourol, passando por Tancos, o que permite desenvolver passeios pedestres junto do rio e actividades de lazer. Há a recente aposta no turismo militar que, no que ao nosso território diz respeito, poder-se-á iniciar com a abertura das unidades ao público para revisitação de locais onde se prestou o serviço militar, dos seus museus “privativos, com o encontro de ex-combatentes e com actividades de competição e de lazer.

A estratégia passa por saber cativar os visitantes do Castelo de Almourol a entrar pela porta de outra “praça-forte”, Vila de Nova da Barquinha, ou seja, o Museu de Esculturas ao ar livre que ficará concluído no decorrer do ano de 2011, ligado por via pedonal ao castelo.

Entendemos que a cultura e o turismo têm um valor económico significativo, são um privilegiado campo de actuação, potenciadores de inovação e desenvolvimento pelo que não podemos, nem devemos ser negligentes, mas sim ambiciosos.

O Castelo de Almourol é uma das atracções turísticas de Portugal. Que mais pode o turista encontrar em VNB?

O concelho da Barquinha é rico em património arqueológico, edificado, móvel, integrado, imaterial e paisagístico.

O castelo é a maior atracção turística. Todavia, ninguém ama o que desconhece. Dar a conhecer os nossos recursos endógenos é um dever imperativo, melhor é uma obrigação de quem presta um serviço público.

O turista poderá passear no Parque ribeirinho, inaugurado em 2005, e Prémio Nacional de Arquitectura Paisagista em 2007, com cerca de 7 hectares de área de lazer pelos quais estão distribuídos diversos equipamentos desportivos, lúdicos, infantis, percursos ribeirinhos, parque de merendas e que está equipado com uma rede sem fios para ligação gratuita à Internet.

Poderá visitar o Museu etnográfico, Bar 21, na sede de concelho, perto da Loja do Cidadão, para beber o belo abafado servido pelo Sr. Joaquim Vieira e, em seguida, visitar o Centro de Interpretação de Arqueologia do Alto Ribatejo (CIAAR) aí podendo observar todo o seu rico espólio retirado das escavações efectuadas durante 2 décadas no concelho. Posteriormente, poderá visitar a Praça de Touros, a segunda mais antiga de Portugal, construída no século XIX, no ano de 1853. Deslocando-se mais para oeste poderá visitar a Ribeira da Atalaia, ao lado da Quinta da Ponte da Pedra, local ao ar livre onde se encontram vestígios de instrumentos líticos que vão do homem de Neandertal, 300 mil anos, ao homem Moderno, 24 mil anos. Esta datação da presença humana neste lugar demonstra o seu interesse no contexto ibérico e a atenção para a sua conservação. Este é o sítio arqueológico em Portugal com uma datação absoluta mais antiga. (foi pedido a classificação deste sítio à entidade competente).

Na Atalaia poderá visitar a sua Igreja Matriz, Monumento Nacional, com pórtico renascentista do Séc. XVI e no seu interior realce para os azulejos do princípio do séc. XVII e para o monumento funerário do II Cardeal Patriarca de Lisboa.

Em Tancos poderá visitar a Igreja Matriz fundada no início do século XVI, bem como a Igreja da Misericórdia, construída em 1585 e implantada junto às margens do Tejo, transformada no Centro Cultural de Tancos.

Na Praia do Ribatejo poderá observar a Igreja Matriz, descendo até ao rio poderá descobrir a junção do Zêzere com o Tejo, subindo pelas Madeiras - Limeiras, no meio rural, poderá, no lugar de Cafuz, apreciar a paisagem magnífica sobre o Zêzere e o Nabão.

Qual o posicionamento do Castelo de Almourol em relação a essas atracções mencionadas?

O castelo de Almourol é o ex-libris do Concelho e detém posição privilegiada face ao restante património edificado.

É um castelo de sonho, no meio de uma ilha do Tejo.

Fortaleza reconstruída por Gualdim Pais, mestre da Ordem dos Templários, em 1171, constitui um dos exemplos mais representativos da arquitectura militar da época, evocando simultaneamente os primórdios do Reino de Portugal e a Ordem dos Templários, associação que lhe reforça a aura de enigma e romantismo.

É, sem dúvida, o local mais visitado do nosso concelho. Com uma nova estratégia poderemos prolongar a permanência de turistas no concelho.

Constata-se que o Castelo de Almourol carece de uma estratégia de interpretação turística e cultural adequada. Que propostas se podem sugerir para contribuir significativamente com uma melhor apresentação do monumento para o turismo?

O castelo é hoje, como foi ontem, um recurso turístico que ainda não se conseguiu afirmar como produto turístico.

A simbiose entre o castelo, o parque ribeirinho da Barquinha, o museu de escultura, a galeria de arte e o Centro Integrado de Educação e Ciência (CIEC) é um incentivado para criar esse produto turístico.

A apresentação do monumento passa por uma intervenção minimalista, mas essencial, na torre de menagem, com implementação de conteúdos multimédia. O castelo fala por si próprio, assim como a paisagem envolvente pelo que não existe necessidade de fazer intervenções profundas sob pena de provocar danos irreparáveis.

Convém assegurar, desde já, uma melhor qualidade de serviço bem como classificar a zona como paisagem protegida. Feitas estas medidas cautelares, importa criar condições para a iniciativa privada apostar no aumento de camas disponíveis e na hotelaria.

Cremos que com o posto de turismo e com a implementação do Mercado das Artes, percursos ribeirinhos e CIEC, já em 2011, através de uma estratégia de comunicação e realização de actividades de âmbito imaterial podemos contribuir para uma melhor apresentação do castelo e do território.

Alguma vez esteve no horizonte do município a proposta do Castelo de Almourol a Património da Humanidade UNESCO?

O reconhecimento de um bem e sua sequente inserção na Lista do Património da Humanidade é um procedimento complexo e rigoroso.

Ao que tenho conhecimento nunca esteve nas ambições do Município fazer tal proposta. O interesse turístico do monumento é catalisador para novos desafios.

Todavia, estamos cientes que com a intervenção que se irá realizar na envolvente do Castelo, nos percursos ribeirinhos (ligação da Barquinha ao Castelo por percursos pedonais) e sempre junto do rio, bem como a intervenção na torre de menagem (novas escadas e implementação de conteúdos multimédia) damos passos seguros para podermos ir mais além.

O que representa para o município o novo projecto do “Mercado das Artes” e qual o impacto esperado?

“Mercado das Artes” tem como objectivo apresentar um conjunto integrado de operações de valorização ambiental, patrimonial e urbana com incidência territorial no centro urbano de Vila Nova da Barquinha e na frente ribeirinha adjacente.

No edifício do Centro Cultural irá ser criada uma loja do museu de escultura, também, um posto de informação turística.

A nascente do parque será construído um edifício para residência de artistas e ao lado funcionará o ateliê de desenho e pintura. Dentro destas operações destaca-se o projecto “Esculturas no Parque”, o qual se constitui como um projecto de referência a desenvolver no âmbito da estratégia encetada pelo Município aquando do ordenamento da frente ribeirinha e consequente implementação do parque urbano.

O Centro de Escultura ao Ar Livre, a implementar no Parque Ribeirinho, irá contemplar um conjunto de esculturas, dos artistas: Ângela Ferreira, Carlos Nogueira, Cristina Ataíde, Fernanda Fragateiro, Joana Vasconcelos, José Pedro Croft, Pedro Cabrita Reis, Rui Chafes, Xana, Alberto Carneiro e Zulmiro de Carvalho, conjugando a arquitectura paisagista no contexto espacial do Parque, enriquecendo todo o elemento circundante, a água, o rio e a Galeria de Arte.

A galeria ficará instalada no antigo edifício dos paços de concelho e aí irão realizar-se várias exposições durante o ano. Para este projecto há um relevante parceiro, a Fundação EDP.

O objectivo é o de dinamizar o tecido económico e urbano de Vila Nova da Barquinha e atrair à Barquinha parte dos turistas que visitam o Castelo de Almourol.

Quais as futuras valências do novo Centro Escolar e suas implicações no Turismo e na Cultura?

A estrutura Centro Integrado de Educação e Ciência – Centro Escola (CIEC) é parte integrante de uma escola concebida pelo Arqt.º Aires Mateus, em forma de paralelepípedos, mas está arquitecturalmente concebida de forma a tornar-se uma estrutura independente e autónoma, o que permite continuar aberta ao público para além do horário escolar.

A ciência é uma cultura caracterizada por maneiras de pensar e de causar, que, à semelhança com outras culturas, só se alcança com a prática e com a participação em actividades que simulam a investigação.

Os conteúdos didácticos experimentais presentes no CIEC estão inseridos em temáticas regionais e nacionais o que será apelativo para o turista e para os seus filhos. Os seus conteúdos estão ancorados nas realidades locais, onde a compreensão da coerência do conjunto implica um conhecimento e um sentir do território. Não se trata, portanto, de um espaço temático nem tão pouco de uma mera selecção de módulos interactivos avulsos, trata-se de criar um espaço de ciência com módulos e actividades que visam a compreensão de conceitos e fenómenos científicos globais, mas a partir da realidade e contexto local, como por exemplo: Rio Tejo, barca, ponte romana, Castelo de Almourol, pára-quedismo e arqueologia.

Aos visitantes da região proporcionará a exploração de conceitos e fenómenos científicos contextualizados no seu próprio território (lançamento de balões, de pára-quedas, escavações, etc.) e aos visitantes das restantes localidades do país, para além dessa exploração, dá-lhes ainda a possibilidade ficaram a conhecer todo o nosso território e a sua grandiosa história.