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ATALAIA, Vila Nova da Barquinha, Portugal
Vivendo nesta terra há 30 anos vou perguntar à história e à tradição qual a origem desta localidade. Desejo saber quem neste atractivo sítio erigiu a primeira construção, quais as obras que foram nascendo, a sua idade e as mãos que as edificaram, quais os seus homens ilustres e os seus descendentes, quem construiu as estradas, os caminhos, as pontes e as fontes. Quão agradável será descobrir em cada pedra os nossos antepassados levantando com palavras o sonho do nosso futuro. Atalaia, 18-11-2007.

24.5.09

1812 - As paisagens de Tomar e de Vila Nova da Barquinha na visão de um viajante.

William Graham era um cidadão irlandês que tinha entrado em Portugal, por Lisboa, em 17 de Novembro de 1812, em plena Guerra Pensinsular (1807 -1814).
Na sua viagem ao longo do rio Tejo, de jusante a montante, passando pela Beira Alta, toda a zona litoral da Figueira da Foz até ao Porto, por Guimarães e Bragança, descreve-nos este escritor os hábitos das populações e das nossas gentes, as paisagens que mais o atraíram, o estado da nossa da agricultura, à data extremamente débil, as condições de vida do nosso povo e o estado das vias de comunicação daquela época.
Por último, importa lembrar que à data do presente relato o país estava empobrecido e em guerra que o devastava há 5 anos.
No dia 8 de Dezembro de 1812, continuámos para a Golegã, a catorze milhas, e no dia 9 para Punhete (Constância), a doze milhas. A estrada para estes lugares era excelente; pas­sámos por vários bosques de oliveiras e a cerca de meio caminho descemos uma grande encosta, onde a espessa folhagem das árvores quase fechava o caminho. Fomos obrigados a subir de novo, e depois de alguma dificuldade escalámos o topo, que era muito escarpado. Tendo andado cerca de uma centena de jardas, chegámos a uma curva da estrada onde a vista era extraordinariamente bela. Dando a volta, atingimos uma pequena ponte (em Tancos) sobre um riacho que corria para o Tejo. À nossa frente estava o Tejo, que se expandia num grande lago. No centro estava uma ilha verde, juncada com as veneráveis ruínas de um palácio mourisco (castelo de Almourol), do qual conseguíamos distinguir as torres que restavam em vários lugares. Estendia-se ao longo de um grande espaço. De um modo geral estávamos todos muito entretidos com o nosso passeio. A estrada torneava o lago até ao lado oposto, cerca de duas milhas, e era tão macia quanto a fina areia podia tomá-la. Por todos os lados aparecia uma diversidade de bosques, despontando aqui e acolá, e, para fechar e dar vida à cena, surgia na parte detrás uma linda aldeia onde quase todos eram pescadores.
Isto oferecia a vista mais formosa que tínhamos visto desde que tínhamos deixado Lisboa
”.
Nesta descrição importa reter a excelente qualidade, no dizer do narrador, da estrada “macia” que atravessava Vila Nova da Barquinha. Por outro lado, a importância do azeite no nosso concelho, que vem de tempos remotos, uma vez que existiam grande número de olivais como expõe o autor. Por último uma referência a uma bela aldeia (Praia do Ribatejo ?) onde grande parte da população se dedicava à pesca.

Dia 15 de Dezembro de 1812 - Seguimos para Tomar, a 12 milhas de distância, subindo e descendo montes quase todo o caminho. A estrada era muito má, de tal maneira que a artilharia não podia subir aos sítios altos.
Como as mulas e os burros são, geralmente, os meios de transporte neste País, as estradas, como se podia esperar, são miseráveis.
A paisagem estava coberta de arvoredo, especialmente abetos, e a estrada era tão intrincada que obrigava a servirmo-nos de guias.
À medida que nos aproximávamos de Tomar, observámos que se tratava de um lugar delicioso, agradavelmente situado numa planície, no sopé de um monte. Não é muito grande, mas as ruas são largas e limpas e as casas bem construídas e conservadas, muitas delas com varandas douradas, como em Lisboa. Existe aqui uma fábrica de tecidos, meias, etc., que, felizmente para os proprietários, os franceses nunca chegaram a danificar, tendo arrecadado uma contribuição a seu favor que chegou à quantia de cinquenta mil coroas novas (dois xelins e seis dinheiros). Esta fábrica está do lado de uma ponte muito antiga que muitos consideram ter sido construída por Aníbal. Existe aqui um excelente mercado; todas as casas são feitas de pedra e com telhados de telha, o que é o modo habitual de construir casas em Portugal. É vulgar usarem-se tijolos na feitura de arcos. Cobrem normalmente a parte exterior das suas casas com cal, mas, em geral, os portais das portas e janelas são de pedra. Nenhuma das ruas é pavimentada, o que toma o andar desagradável.
No cimo do monte, sobre a cidade, existe um convento, notavelmente belo, de prodigiosas dimensões; existe uma única estrada até ele, que serpenteia em torno das rochas. Aquartelámos os nossos homens neste convento e foi-nos garantido pela população local que os Franceses tinham alojado nele 60.000 homens de infantaria, 80 canhões e 9.000 homens de cavalaria, tudo acomodado de uma só vez, incluindo cavalos e bagagem. Entra-se pelo único portão que tem, situado na extremidade Leste. Quando se está no pátio, à volta do qual se encontram os armazéns, os estábulos, etc., podem subir-se escadas em cada um dos quatro cantos do pátio. Devia, contudo, ter referido que à volta do primeiro pátio se forma um claustro, que, nos dias chuvosos, oferece protecção contra a chuva. Ao subir-se as escadas, nos cantos, chega-se a outro pátio, também com a forma de claustro e com elegantes pilares, com laranjeiras e flores no centro, como um pequeno jardim. À volta destes jardins estão os apartamentos ocupados pelos monges, que foram concedidos aos soldados, não apenas neste claustro mas em cerca de outros cinquenta. Em cada andar existe um destes jardins formado pelos quatro cantos.
No topo do edifício existe uma capela, e o apartamento do abade, que ocupa um desses claustros. Todos os monges que não tinham abandonado o convento tinham os seus quartos no topo. Fomos obrigados a colocar uma sentinela numa das passagens, a pedido do abade, a fim de evitar intrusões. Um dos monges conduziu-me por todo o lado. A capela está lindamente pintada, embora os franceses tenham levado os seus melhores quadros. A capela foi construída com uma forma octogonal, tendo em cada face do octógono uma capela pequenina dedicada a um santo. Estava muito bem atapetada e muito confortável. Também vi vários dos apartamentos, nos quais existem portas secretas para fazer passar alguma coisa para dentro ou fora de um quarto sem que a pessoa veja ou seja vista. A capela era apenas para uso dos monges, mas a capela comum, que servia a gente da aldeia, foi convertida num estábulo pelos franceses, exibindo a enorme capacidade da população de lhe dar esse uso. Os apartamentos ocupados pelos monges estavam muito arrumados e limpos, mas o comprimento e a quantidade das galerias surpreendeu-me para lá do imaginável.
Os franceses tinham levado tudo o que valia a pena; mas o que sobrava em muitos lugares podia bem tentar um epicurista a tomar-se monge, a gozar os luxos que ali tinham existido, e certamente ainda existiriam, embora escondidos. Os portugueses tinham, nesta altura, perdido muita coisa, pela vaidade de mostrarem aos franceses as riquezas do seu País. Frequentemente tinham sido roubados dessa riqueza; e aqui poderia eu perguntar, porque é que haveriam de viver tantos à custa da riqueza da terra, com tanta indolência? Alguns dos claustros estendiam-se pelo comprimento de trezentos paces (0,762m) e muitos por duzentos. Havia tantas curvas neste labirinto que, se eu não tivesse sido ajudado por um guia, ter-me-ia perdido.
Tomar é o lugar mais bonito que vi em Portugal.

Do texto supra, sobre Tomar, retiramos que em 1812 a estrada entre Constância e Tomar era péssima. Realce para a higiene e limpeza na cidade de Tomar e as suas belas construções em contraste com outras cidades, como por exemplo: Vila Franca, “onde as casas não tinham vidros nas janelas e estas precisavam de caixilhos”, ou Santarém, “ onde as ruas estavam terrivelmente sujas”. Refira-se a alusão à existência de uma fábrica de lanifícios não destruída pelas invasões francesas. Por último, a menção aos furtos praticados pelos franceses e a descrição do convento de Cristo e dos seus jardins.
Todos estes factos, infra-estruturas, monumentos, paisagens e gentes levaram o autor a afirmar que TOMAR fora o lugar mais bonito que viu em Portugal certamente porque se deixou encantar pela excelência e grandiosidade do seu Convento, dos seus jardins e das suas gentes.

Gravura:
BARRETO, António Correia, 1812-?
Janella da igreja do Convento de Christo em Thomar, do lado do claustro de S. tª Barbara [Visual gráfico / Barreto cop. do nat. ; Pedroso lyth.. - [S.l. : s.n., ca. 186-?]. - 1 gravura : litografia – Biblioteca Nacional.
Bibliografia
- Sousa, Maria Leonor Machado, “A Guerra Peninsular em Portugal, Relatos Britânicos”, Casal de Cambra, Caleidoscópio, 2007. Traveis through Portugal and Spain, during the Peninsular War. By William Graham, Esq. With Engravings. London, Printed for Sir Richard Phillips and Coo Bride Court, Bridge Street, 1820. Pp. 8 - 18. Tradução de Maria do Rosário Lupi B
ello


2 comentários:

Luís Ribeiro disse...

Caro Fernando Freire,

Desconhecia este "Relatos" magníficos.

Mais uma vez vou copiar e reencaminhar, obviamente com a devida referência, uma parte do texto, pois acho que os tomarenses e não só devem tomar conhecimento, aqueles que não o têm, como é o meu caso.

Por fim, os meus parabéns pelo excelente blogue que aqui tem.

Cumprimentos
Luís Ribeiro

Rita Inácio disse...

Realmente o nosso Concelho tem muito para contar!
É verdade que temos uma grande tradição com o Azeite, só nas Limeiras já consegui contabilizar 7 lagares antigos, muitos dos quais só restam paredes. Mas acredito que pelo resto do Concelho existam muito mais,..., daria, sem dúvida, uma extraordinária Rota do Azeite, com todos os instrumentos relacionados com essa actividade! Prova de Azeite, etnografia relacionada com o Azeite, fotografias antigas, etc! Uma imensidão de oportunidades!